Avenida da Ponte: “A Sé é o lugar mais planeado do Porto e é o lugar onde nunca nada aconteceu”

Avenida da Ponte: “A Sé é o lugar mais planeado do Porto e é o lugar onde nunca nada aconteceu”
| Porto
Ana Francisca Gomes

Quem chega ao centro do Porto pela Estação de S. Bento vê a Sé como um marco visual daquela porta de entrada da cidade. Nos anos mais recentes, a zona enche-se de ‘olhos de turista’, atraídos pela proeminência da catedral no skyline e no tecido urbano. O mesmo vislumbre não chega, contudo, aos olhos de quem vive na cidade, que não tem na freguesia da Sé grandes motivos para se deslocar até esta zona estigmatizada do Porto, sobretudo desde as últimas décadas do século XX.

Ainda que localizada numa área central, a Sé destoa da baixa da cidade. Primeiro, a falta de investimento, depois, a pressão do turismo esvaziou-a de moradores. Também o comércio local daquela zona, sem ninguém a quem servir, começou a desaparecer. Mas como é que um centro histórico pode estar em constante mudança e uma parte considerável de si estar há tanto tempo estagnada no tempo?

Porto Canal

Na recentemente reaberta Casa dos 24 (como é comumente chamada a antiga Casa da Câmara), junto a uma planta do projeto de Fernando Távora para o edifício, Nuno Grande, arquiteto e urbanista, explica ao Porto Canal que há uma “cratera” na Sé que a deixa separada do resto da cidade e “alheada” de todo o processo de reabilitação que a baixa tem sofrido.

Essa cratera chama-se Avenida da Ponte.

Vista de cima, é possível identificar-se na Sé uma área, entre a catedral e a estação de São Bento, sem qualquer edificado. Este vazio urbano é uma ‘ferida’ já antiga da cidade que resultou de um conjunto de demolições de casas e edifícios.

Porto Canal

As primeiras demolições foram ordenadas pela Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) no final dos anos 30 e arrasaram todo o casario em torno da catedral, para “limpar” a paisagem em seu redor, num movimento patrimonialista típico da época. Também em 1948 começou a demolição de uma significativa parte da zona para abrir uma ligação que permitisse a circulação rápida de automóveis entre os automóveis que chegavam da Ponte Luiz I, então a principal entrada rodoviária da cidade, até à Avenida dos Aliados.

Muitos arquitetos foram convidados a desenhar um projeto de recomposição urbana após demolições, mas a topografia adversa e outros fatores complicaram os vários desenhos. Por fim, a ligação acabou por assumir uma forma reta entre a ponte e a Praça Almeida Garrett (em frente à estação de S. Bento), destruindo todas as casas que se atravessavam no caminho. Nascia assim a Avenida Dom Afonso Henriques, conhecida popularmente, no Porto, como a Avenida da Ponte.

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O problema é que se “rasgou a avenida sem plano” e ficou aquela ferida, explica Nuno Grande. “E é por isso, na minha opinião, que [a Sé] continua a ser um lugar estigmatizado e em que se concentram tantas atividades ilícitas. É uma zona que está completamente ‘guetizada’ em relação ao resto da cidade”.

Os planos para resolver aquele rasgão começaram a surgir mais tarde, com grandes nomes da arquitetura a pensar como voltar a preencher o vazio urbano. Um dos que ficou ‘na gaveta’ foi o projeto de Álvaro Siza Vieira. O primeiro desenho é de 1968 e previa a construção de uma praça interior, um auditório, áreas de serviço e um edifício de habitação.

Mais tarde, com a Porto 2001 em vista, o arquiteto foi convidado a repensar o projeto, que desta vez previa a criação de um Museu da Cidade, uma livraria municipal, um parque de estacionamento, algumas lojas e 48 habitações. O projeto chegou a ser adjudicado por Fernando Gomes, na altura presidente da autarquia, mas acabou por não ser executado pelo novo autarca Nuno Cardoso.

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Entre os primeiros planos para se construir a Avenida da Ponte e os planos para, depois, se “reconstruir” o que rasgar a avenida destruiu passaram-se mais de 100 anos. Mas tirando esta via construída numa altura em que se privilegia o automóvel no centro da cidade, muito pouco se fez na Sé.

O Comissariado para a Renovação Urbana da Área de Ribeira/Barredo (CRUARB) assumiu, entre 1974 e 2003, a recuperação e reabilitação do centro histórico do Porto. Em 1993 é posto em prática o 'Projecto-Piloto Urbano do Bairro da Sé', responsável pela renovação e conservação do património, tendo em vista a reinserção dos moradores, fomento da atividade comercial e desenvolvimento do turismo.

“Este é talvez o lugar mais desenhado e mais planeado da cidade do Porto, e é o lugar onde nunca nada aconteceu. Pelo menos nada de grande relevo”, aponta Nuno Grande.

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“O atual executivo queixa-se que não tem terrenos novos para construir habitação, mas tem terrenos velhos”

Para o arquiteto, colocar em prática o plano de Siza e reconstruir o tecido da cidade que foi demolido faz todo o sentido nos dias de hoje. Numa altura em que a crise da habitação é assunto prioritário, Nuno Grande reconhece o potencial desta área na Sé, bem servido de transportes públicos, para que se possa rejuvenescer e reabilitar o tecido social da cidade.

“É uma oportunidade para se não se concentrar as repostas ao problema da habitação na periferia, mas no coração da cidade”, frisa. Nuno Grande considera que “é preciso trazer para aqui população que contrarie as lógicas normais do mercado, que é gentrificar o centro apenas com quem tem capacidade de construir ou de comprar habitação de luxo.”

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Metro do Porto e o novo impulso para a Avenida da Ponte

Inaugurada em 2005, a estação de São Bento, que serve a linha amarela da Metro do Porto, foi assinada por Álvaro Siza Vieira. Dotada de um amplo piso de entrada que acolhe com frequência exposições e conferências, tem a particularidade de ter sido construída precisamente sob a Avenida da Ponte.

A nova linha rosa, que vai contar com quatro novas estações subterrâneas (uma delas adjacente à de São Bento), terá também ela o cunho do prémio Pritzker, naquela que poderá ser vista como uma nova oportunidade de repensar um projeto que parece ganhar agora uma nova vida.

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