“Capitalismo selvagem toma conta de tudo”. Abafada por grandes superfícies comerciais, mercearia histórica do Porto vai fechar

“Capitalismo selvagem toma conta de tudo”. Abafada por grandes superfícies comerciais, mercearia histórica do Porto vai fechar
Alexandre Matos | Porto Canal
| Porto
Alexandre Matos e Maria Abrantes

A histórica Mercearia do Bolhão, aberta no Porto desde 1880, vai encerrar portas a 30 de abril para dar lugar a uma loja da multinacional Ale-Hop, como avançado na manhã desta sexta-feira em exclusivo pelo Porto Canal. O proprietário do negócio é também o proprietário do prédio inteiro, na Rua Formosa. A decisão foi sua, mas a dificuldade nas contas pesou na decisão final. Alberto Rodrigues, para quem “o capitalismo selvagem toma conta de tudo”, lamenta que as grandes superfícies agora possam “abrir onde quiserem e abafar este, abafar aquele”.

Com o gradual desaparecimento dos portuenses da Baixa do Porto, manter um negócio tradicional torna-se cada vez mais difícil. A Mercearia do Bolhão, a mais antiga da cidade do Porto, tem sofrido muito ao longo dos últimos anos tanto com a deslocalização de serviços como as agências bancárias e as seguradoras do centro da cidade como também pelo êxodo dos residentes que são empurrados para as periferias. Quem o diz é Alberto Rodrigues, proprietário do estabelecimento.

“O cliente endinheirado desapareceu”, queixa-se Alberto, referindo-se aos funcionários dos bancos e das seguradoras, “que tinham bons salários”, e que enchiam as ruas da Baixa.

 
 
 
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Como disse ao Porto Canal Vítor Franco, funcionário da mercearia há 40 anos, “aqui a baixa do Porto está virada para o turismo”, o que também força uma mudança no paradigma do comércio local.

Mas como dizem tanto Vítor como Alberto, os turistas também acabam por não conseguir comprar tudo o que querem, pelas restrições nas viagens aéreas.

Assim, a conclusão é que as pessoas que agora correm as ruas do centro do Porto acabam por preferir “ir ao mais barato”, conta-nos Alberto Rodrigues. Esse “mais barato” encontra-se nas grandes superfícies comerciais, com o proprietário da Mercearia do Bolhão a lamentar que estas estejam completamente disseminadas nos centros das cidades, com o Porto a não ser exceção. “Agora deixam abrir aí à balda”, atira.

“Se estivesse mesmo a faturar bem, eu ia fazer o sacrifício de me manter à frente disto”

Todos estes fatores contribuíram para uma queda no negócio da mercearia, que ainda era “atrativo” em 1998, quando Alberto Rodrigues tomou conta da loja. Apesar da “pena” que sente em relação ao fecho da centenária mercearia, também considera que “se as pessoas gostam de ver estes espaços, também é preciso que os ajudem”. “Mas as pessoas estão habituadas a ir aos ‘grandes’”, lamenta Alberto.

“Saio daqui com um bocado de tristeza, saio. Se estivesse mesmo a faturar bem, eu ia fazer o sacrifício de me manter à frente disto. Mas vem outras coisas mais rentáveis. É como tudo. Tudo tem o seu fim.”

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