“Os burros só são burros de nome” e há treze à espera de serem apadrinhados em Miranda do Douro

“Os burros só são burros de nome” e há treze à espera de serem apadrinhados em Miranda do Douro
| Norte
Catarina Cunha

Na Aldeia de Atenor, a 27 quilómetros de Miranda do Douro, existem treze burros para apadrinhar. Por uma quantia simbólica promove-se a manutenção e valorização desta raça autóctone, que em 2023 contabilizou com 500 apadrinhamentos.

 
 
 
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A Lavanda, tal como a flor, é esguia e esbelta, “com o pelo comprido, de tom castanho avermelhado e porte elevado”, características que herdou da sua mãe, Ennie. A burra “bastante perfeitinha” nasceu em 2015 e é uma dos treze animais disponíveis na campanha de apadrinhamento do Centro de Valorização de Miranda do Douro, criado em 2005 para salvaguardar a raça mirandesa que estava à época em vias de extinção.

Por este planalto mirandês passeiam também Dom Quixote, Gaivota, Dália, Atenor, Tó, Buxo, Cuca, Bulhaca, Dulcineia, Gorongosa e Noa. A tradição dos apadrinhamentos, promovida pela Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA), possibilitou apadrinhar 3.500 burros. Só em 2023 foram 500. Este ano, aguarda-se que o número duplique. Por um preço de 30 euros, por ano, “os padrinhos e madrinhas contribuem para o bem-estar” dos seus afilhados. Em troca, recebem visitas gratuitas nos horários disponíveis, acompanhamentos das rotinas diárias e estado de saúde, bem como doses de diversão.

Pedro Pereira é um dos padrinhos de Gaivota. Diz ter sido influenciado pela sua filha Mia de sete anos de idade. “Disse-lhe que se tivesse boas notas iria ter uma surpresa”, comenta entusiasmado, reforçando a importância da AEPGA para a qualidade de vida daqueles burros. “Fazem um trabalho espetacular”.

Neste santuário verdejante, encostado a Espanha, existem no total 60 burros - machos e fêmeas. O bem estar dos animais é assegurado por uma equipa de 12 técnicos e sete voluntários, ao abrigo do programa Erasmus + e do Serviço Cívico Italiano. Faça chuva ou sol, “há sempre algo diferente para fazer”. Quem o conta é Marco, um jovem italiano de 22 anos que está a estagiar na associação há três meses. Pela frente faltam-lhe mais seis. Todos os dias trata da higiene e alimentação dos burros e explica-nos, satisfeito, que todos são diferentes. “É muito bom ver como os animais ganham confiança connosco. Isto também é bom para aprender e ter uma profissão”, sublinha.

Miguel Nóvoa, Secretário Técnico da AEPGA, é o braço direito da instituição. No olhar é visível a paixão pelo trabalho a que se dedica há duas décadas. Confessa ter uma linguagem própria para tratar os seus “60 filhos” que garante serem muito versáteis, dóceis e de fácil trato, o que lhes dá a “possibilidade de poderem ser um animal doméstico, tal como um cão ou um gato”.

“São burros só de nome”

Para além da preservação e promoção do Burro de Miranda, no Nordeste Transmontano trabalha-se para dignificar esta raça mirandesa, enquanto património genético e cultural. Neste sentido, procuram dissociar a conotação negativa que a sociedade portuguesa detém com este animal de quatro patas.

“Os burros só são burros de nome. Hoje em dia, acredito que há muitas crianças que ao serem chamadas de burras digam que é um elogio, pois quer dizer que são muito inteligentes e espertas naquilo que são as suas características”, frisa Miguel, de ‘braço-dado’ com a burra Gorongosa.

A AEPGA também acolhe os animais mais debilitados e velhos, de forma a dar-lhes um fim de vida digno. Futuramente, de modo a preservar esta raça autóctone, importa “continuar a procurar novos criadores que queiram comprar burros”.

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