Uma viagem pelos antigos Mercados do Porto

Uma viagem pelos antigos Mercados do Porto
| Porto
Alexandre Matos

Os mercados, fossem eles espontâneos, ambulantes ou municipais, foram ao longo de séculos peças centrais das cidades. Mas a evolução dos centros urbanos e dos hábitos de consumo da sociedade fizeram com que, aos dias de hoje, a grande maioria dos mercados não passe de memórias de um passado distante, recordados apenas com recurso a fotografias de arquivo.

Naturalmente, sendo o Porto um centro de toda uma região, era um ponto fulcral no comércio do Norte de Portugal. Era na cidade Invicta que se concentravam comerciantes de vários pontos do Grande Porto.

Para além da função óbvia e essencial do comércio, nas trocas e compras de mercadorias, os mercados eram também centros de comunidade, com as cidades a serem pensadas e construídas à volta dos mesmos.

E se numa fase mais embrionária estes eram mais ambulantes e surgiam muitas vezes de forma espontânea, a determinada altura, principalmente nos inícios do século XIX, as autarquias sentiram a necessidade de começar a regular os mercados, e de lhes dar estruturas físicas mais permanentes.

 
 
 
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No Porto, essa tendência é clara, principalmente com a edificação dos Mercados do Peixe, do Anjo e de Ferreira Borges. Mas também é notório que os mercados menos fixos, mais ambulantes, continuavam a ter uma forte influência no comércio da cidade.

Sendo verdade que os mercados tinham um papel fundamental na vida urbana, a partir da segunda metade do século XX estes locais históricos da cidade deixaram de conseguir adaptar-se à realidade da sociedade.

Seja por dificuldades nas próprias infraestruturas - antigas, degradadas e com poucas condições higiénicas -, ou pelo surgimento de outros modos de consumo mais práticos para os consumidores numa vida urbana cada vez mais atarefada, vários foram os mercados a fecharem ou a concentrarem-se noutros mais capazes de se adaptar e renovar.

Ao longo de dois séculos de história, fazemos uma viagem por aqueles que foram os principais Mercados do Porto: como surgiram, o que vendiam, como evoluíram e porque acabaram ou deixaram a sua função?

Mercado de Santa Teresa ou Feira do Pão

A tradição de vender pão na praça que é hoje Guilherme Gomes Fernandes remonta ao início do século XIX. Na altura chamava-se Praça de Santa Teresa, que dava nome de forma oficial ao mercado, ainda que este fosse mais conhecido pelos populares como Feira do Pão.

Terá ao longo dos primeiros anos ocupado alguns locais diferentes, ainda que todos na zona do Carmo. Há um registo de 1818, aliás, que apresenta a atual Praça de Gomes Teixeira (conhecida como Praça dos Leões) com a nomenclatura de Praça do Pão.

Não sendo claro quando é que a Feira do Pão se instalou em definitivo na Praça Guilherme Gomes Fernandes, existem registos do final do século XIX que mostram barracas no local onde os comerciantes estavam instalados.

E se era da venda de pão que se tratava, a cidade de Valongo tinha que ter um papel central. Era de lá que grande parte das padeiras vinham, trazendo os célebres “pães de Valongo”, como escreve Germano Silva no Jornal de Notícias.

O acelerado desenvolvimento urbanístico daquela zona da cidade forçou a Feira do Pão a deslocar-se até ao Mercado do Anjo, na Cordoaria. A saída oficial da praça deu-se a 26 de maio de 1909.

Mercado do Anjo

Numa das localizações mais privilegiadas da cidade, entre monumentos e locais históricos, viveu durante mais de um século um dos principais mercados do Porto.

A dois passos dos Clérigos, entre a icónica torre e o edifício onde hoje mora a Reitoria da Universidade do Porto, o Mercado do Anjo foi um verdadeiro ponto central do Porto.

Foi inaugurado em 1839, para celebrar o sétimo aniversário da entrada das forças de D. Pedro na cidade. O terreno havia sido cedido pelo próprio em 1833, no local onde até aí funcionava o Recolhimento do Anjo. O desenho do mercado tinha uma forma triangular, que ainda hoje se mantém na atual Praça de Lisboa, também conhecida como Passeio dos Clérigos.

Com entradas em cada um dos vértices, o mercado convergia para o seu centro, onde foi construído um chafariz para uso dos comerciantes. As bancas dispunham-se ao redor do espaço, voltadas de frente para o interior do mercado.

Passaram a vender no Mercado do Anjo comerciantes que estavam espalhados por pequenos mercados e feiras pela cidade. Estes estavam organizados de forma metódica, com uma clara preocupação da autarquia em estabelecer regras desde o início, de modo a garantir as melhores condições possíveis no que diz respeito à higiene. Vendia-se um pouco de todo no Anjo: desde carnes de porco salgadas, defumadas ou ensacadas; carnes verdes de boi, vitela ou carneiro; hortaliças, frutas e animais - ainda que fosse proibido gado à solta; e ainda o bacalhau, o único peixe que era permitido vender fora do Mercado do Peixe.

O Mercado do Anjo abria ao nascer do sol e fechava religiosamente às 18h00 com o toque do sino. Foi, no seu auge, um verdadeiro ponto de confluência dos portuenses. Foi sofrendo alguns trabalhos de manutenção, e houve em 1905 um projeto para construir um novo edifício no local. Algumas obras ainda foram feitas, mas acabou por cair a meio. Pouco depois, era inaugurado o novo Mercado do Bolhão, que acabou por levar ao fim do Anjo.

Numa altura de cada vez maior crescimento da cidade, com fortes pressões urbanísticas, principalmente num local tão central como ocupava o mercado, houve a necessidade de o relocar. Foi lançado o concurso em 1936 para um novo mercado, que viria a nascer em 1952 com o Mercado Bom Sucesso. Ainda antes, o Mercado do Anjo ainda passou temporariamente pelo espaço do Mercado do Peixe, em 1948.

As bancas acabaram demolidas, com o espaço a ser utilizado para diversas funções. Desde um parque de estacionamento ao ar livre a um centro comercial que durou apenas 15 anos antes de ir à falência, a Praça de Lisboa foi durante largas décadas um espaço cuja utilidade não correspondia à centralidade que assume. Em 2013, foi inaugurado o Passeio dos Clérigos, com lojas na parte de baixo, e um jardim suspenso na cobertura.

Mercado do Peixe

A venda do peixe na zona da Cordoaria remonta ao final do século XVIII, quando a feira do peixe se fazia na Alameda da Cordoaria. Foi depois dispersa para o Largo de São João Novo, por ordem do Senado da Câmara, devido ao facto da água que escorria do peixe ter secado várias árvores na zona.

Em 1834 voltou à Cordoaria, com um pequeno barracão a ser montado pela Câmara para o Mercado do Peixe ficar instalado permanentemente no local onde hoje é o Palácio da Justiça do Porto. Em 1874, depois de preocupações do município em relação a questões de salubridade, foi inaugurado um edifício, amplo e com iluminação, que viria a centralizar o comércio do Peixe na cidade do Porto.

O mercado funcionou lá até 1949, quando as peixeiras foram levadas para outro local mais pequeno, junto à Casa da Roda, também na Cordoaria. Na altura, foi transferido para o edifício o Mercado do Anjo.

Mas um ano mais tarde, em 1950, com a inauguração do Mercado do Bom Sucesso, que alojou tanto os comerciantes dos mercados do Peixe como do Anjo, o espaço deixou de funcionar como local de venda.

O edifício foi demolido em meados dos anos 50. No mesmo local foi construído o Palácio da Justiça do Porto, inaugurado em 1961.

Mercado da Ribeira

Sem nunca ser um mercado fixo nem com grandes infraestruturas, o Mercado da Ribeira sempre foi um dos mais importantes da cidade. Estabeleceu-se naquela zona precisamente por um dos principais locais onde os barcos com mercadorias chegavam à cidade do Porto.

Com várias barracas dispostas ao longo do Cais da Ribeira, vendia-se lá um pouco de tudo o que atracava desde o peixe até às frutas passando também pelo vinho, com destaque para o bacalhau. Uma parte da Muralha Fernandina ficou até conhecida pelo “Muro dos Bacalhoeiros”, sendo um dos principais pontos de venda deste peixe que é impossível de ser dissociado à cozinha do Norte do país.

O Mercado da Ribeira sempre foi uma preocupação da Câmara do Porto, que fez algumas tentativas de deslocá-lo para locais onde fosse possível assegurar melhores condições. Nem sempre com o mesmo fulgor, especialmente quando passou parcialmente para o Mercado do Peixe do Cais dos Guindais e com o lançamento do Mercado de Ferreira Borges, a pressão popular levou sempre a que o mercado se mantivesse ativo, com mais ou menos barracas.

Aos dias de hoje, ainda existe um mercado na Ribeira, ainda que agora sim já com quase nenhuma das características do antigamente. As barracas vendem agora produtos de artesanato, de interesse turístico, com alguns produtos alimentares tradicionais.

Mercado do Peixe do Cais dos Guindais

O surgimento do Mercado do Peixe do Cais dos Guindais surgiu, em 1849, por força de uma ocasião especial, e por lá acabou por se manter durante um século.

Nessa altura, faleceu no Porto o rei Carlos Alberto da Sardenha, que se retirou para a cidade nortenha depois de deixar o trono que ocupava. As cerimónias de embarque do seu corpo levaram o vereador encarregado pelos mercado no Porto a solicitar ao diretor da Alfândega do Porto que o mercado do peixe mudasse provisoriamente do Cais da Ribeira para o Cais dos Guindais.

Mas a verdade é que a medida de provisória teve pouco. O peixe continuou a ser vendido naquele local e não no Mercado da Ribeira, ainda que tenha dado origem a um litígio entre a Câmara do Porto e a Alfândega, que alegava que o mercado ali causava prejuízo na fiscalização da entrada dos vinhos, que se fazia precisamente no Cais dos Guindais.

Mas a autarquia não cedeu, e pediu em 1951 uma autorização à Rainha D. Maria II para ter uma licença de venda de peixe para o novo mercado. Esta foi concedida, estabeleceu-se por decreto a existência do Mercado do Peixe no Cais dos Guindais, com a condição que este deixaria de existir logo que se tornasse necessário o serviço das obras da barra do Douro.

Durou até 1950, sendo extinto por deliberação do executivo camarário para permitir arranjos urbanísticos no local.

Mercado de Ferreira Borges

É um dos edifícios mais imponentes que serviu de mercado na cidade do Porto, com uma arquitetura e construção impressionantes. Mas o Mercado Ferreira Borges, na Rua da Bolsa, raramente conseguiu cumprir as expectativas que a Câmara do Porto tinha para a sua utilização.

O mercado surgiu de uma vontade da autarquia de deslocar o degradado Mercado da Ribeira. A sua obra foi adjudicada em 1885 à Companhia Aliança (ou Fundição de Massarelos), com o projeto a partir do arquiteto João Carlos Machado. Foi inaugurado em 1888, mas a sua primeira versão não teve grande adesão por parte dos comerciantes que ocupavam o Cais da Ribeira. Apenas 12 anos depois, tinha perdido por completo a sua utilidade pública como mercado, levando a Câmara a ter que procurar outras funções para o equipamento.

Foi ponderada a hipótese de instalar no edifício da Rua da Bolsa um Museu Municipal ou Museu Colonial, mas nenhuma das opções chegou a ganhar vida. Em meados de século XX, voltou a funcionar como mercado, sendo utilizado pela Junta Nacional das Frutas como mercado abastecedor de frutas.

No final dos anos 70 foi abandonada em definitivo a sua utilização como mercado, com o edifício a ser sujeito a obras de reabilitação. Depois de algumas décadas de indefinição, a exploração do Mercado Ferreira Borges foi concessionada ao Hard Club, em 2008.

Mercado de Levante da Rua Escura ou Mercado de S. Sebastião

Entre várias evoluções e alguns nomes diferentes, o Mercado de Levante da Rua Escura ou Mercado de S. Sebastião foi um dos mais antigos e importantes da cidade do Porto e o último ponto de comércio tradicional na Sé do Porto.

Nasceu na Rua Escura, ladeando a Sé, e estendia-se até à Rua de S. Sebastião. Era de venda ambulante, com as barracas que chegaram a existir a serem progressivamente montadas ao longo dos anos.

Em documentos do Comissariado para a Renovação Urbana da Área de Ribeira/Barredo (CRUARB), guardados agora no Arquivo Histórico Municipal do Porto, são disponibilizados dados de mais de uma centena de comerciantes que vendiam naquela rua.

Mas no despontar dos anos 1980, o CRUARB decide extinguir o Mercado da Rua Escura devido à sua “indisciplina, atropelos de ordem higiénica, obstrução ao trânsito de veículos e peões e ainda por razões da sua localização em zona histórica da cidade”.

É lançado então um concurso para a construção de um edifício para acolher estes comerciantes. Neste contexto nasceu a estrutura física do Mercado de São Sebastião, que hoje ainda vemos. Começou por ser um conjunto de bancas com coberturas em pirâmide individuais, com a estrutura atual a ser fruto de uma reestruturação no ano de 1995.

Mas a pouca gente que ia ao mercado provocou um abandono quase completo da infraestrutura, que tinha apenas cinco comerciantes em 2023.

Juntando a falta de condições de higiene, segurança e salubridade, a Câmara do Porto decidiu em julho de 2023 o encerramento do Mercado de S. Sebastião. Como noticiado em primeira mão pelo Porto Canal, foi também decidida a demolição da infraestrutura, agora adiada para o final de 2024

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