A “aldeia” do Bolhão é agora uma cidade – reportagem no Mercado
João Nogueira e Catarina Cunha
O Bolhão mudou e o antigo mercado, integralmente de frescos, degradado e formado por barracas, já não existe mais. No seu lugar, ergueram-se bancas higienizadas, espaços de circulação e atravessamentos amplos. Mas a mudança do Bolhão não foi só física ou estética – foi também social: em tempos percorrido por habitantes locais e vizinhos, agora atrai também multidões de turistas, que procuram neste novo ex libris da cidade uma fotografia para recordar. Também atrás das bancadas o Bolhão ganhou novos ‘habitantes’ e novos negócios. Sob o olhar atento, os comerciantes mais antigos alertam: “Se nós formos embora, isto vai virar um centro comercial autêntico.” Passado um tempo de consenso e elogio, que perdurou desde a inauguração em setembro de 2022, começaram a chegar as primeiras críticas ao ‘novo’ Bolhão. No final de fevereiro, a Câmara cedeu a algumas pretensões dos comerciantes e anunciou melhorias.
O alerta parte da florista Rosa Maria, que tem banca própria no Bolhão há 34 anos, mas que já antes fugia da escola para ir vender no mercado com familiares. Hoje olha para “um Bolhão diferente do antigo”, mas ainda com elementos de uma memória que perdura.
“Nós, os antigos, aquelas senhoras que estão ali, com 90 e 70 e tal anos, somos as mulheres do Porto. Somos as mulheres do Bolhão. Isto é histórico, isto é o coração do Porto. E nós, se formos embora, isto vira um centro comercial autêntico”, confessou a comerciante. Rosa Maria viu muitas mudanças atravessarem o Bolhão nos últimos 34 anos, mas nenhuma foi tão radical como aquela que ocorreu nos últimos cinco.

As origens do Mercado do Bolhão remontam a 1837, ano da sua edificação. Em 2018 o espaço foi alvo de obras de requalificação e modernização, cinco anos depois de ter sido classificado como Monumento de Interesse Público
Era maio de 2018 quando os cheiros dos produtos e o barulho dos vendedores deu lugar à maquinaria. Avançava então a empreitada de requalificação do edifício, cirurgicamente comandada por uma vasta equipa de projeto, que acabou por se estender até setembro de 2022, data da grande inauguração. Quando o mercado foi devolvido à cidade, tanto os comerciantes como os clientes encontraram um mercado mais “leve”, “bonito” e “higiénico”. A crítica desdobrou-se em elogios e o ‘novo’ Bolhão reuniu um estranho consenso, ao fim de décadas de polémica, indefinição e abandono.
“Face ao antigamente, claro que o Bolhão antigo já não tinha condições para o mercado alimentar, já estava muito degradado, muito sujo, e realmente já não servia os interesses”, lembra Nuno Lopes, vendedor na casa inicialmente aberta pela família “Nelson dos Leitões”.
“Sinto que está muito mais organizado, muito mais higiénico… tudo muito mais visível aos olhos das pessoas”, diz Ermelinda Gertrudes. Apesar das vantagens, a comerciante de frutas também “não nega”: “Não vou dizer que não há uma coisa ou outra... Mas isto é como uma casa, depois de feita é que se vê os defeitos”.
E esses defeitos também são apontados por muitos dos ‘habitantes’ do Bolhão. Desde a exposição à intempérie, sobretudo na galeria superior, que não protege suficientemente da chuva e do frio à limitação do espaço das bancas (em comparação com o mercado temporário, instalado pela Câmara no centro comercial La Vie durante os anos da reabilitação do Bolhão), há quem alerte para o risco de descaracterização do espaço e da comunidade do mercado”.
Também a falta de sombreamento é um problema no ‘novo’ mercado. Mais amplo, a incidência do sol representa um risco para as bancas do mercado de frescos. A ausência de ar-condicionado na zona de congelados levou também os comerciantes deste setor a pedir melhoramentos.
E a Câmara reconheceu que está na hora de o Bolhão ir à primeira revisão. A 26 de fevereiro, a vice-presidente da GO Porto (empresa municipal com a tutela do mercado), Cátia Meirinhos, tornou pública a intenção da empresa municipal proceder a pequenas intervenções com vista ao melhor funcionamento do mercado. Também o regulamento sofrerá adaptações.
O interior e exterior do Mercado

Arquitetura do edificado foi preservada após as obras de 2018
Outra das críticas apontadas por comerciantes ouvidos pelo Porto Canal está relacionada com a envolvente do edifício, onde, apontam, subsiste um clima de insegurança.
Das 38 lojas e 10 restaurantes, ainda há portas por abrir. Entre os comerciantes de uma das laterais exteriores, na agora pedonal Rua Alexandre Braga, há quem pense que esse é um dos motivos que não atrai clientes para a artéria.
A esse impasse de abertura de alguns espaços, junta-se a falta de eventos e iniciativas naquela rua para atrair mais clientes. “O mercado somos todos. Se a rua já é pedonal, podiam fazer eventos para as pessoas virem até aqui”, defende Pedro Cunha, funcionário na Central dos Forros.
Há meses em que Hugo Santos, um dos novos ‘habitantes’ no mercado, responsável de uma loja com produtos de chá, tem de colocar dinheiro próprio para ‘segurar’ o negócio. A renda de 1336 euros por 27 metros quadrados está em linha com o mercado (à excepção dos vendedores antigos, que beneficiam de uma renda bonificada), mas o vendedor lamenta que sente “estar fora” e não “fazer parte”.
Quando o assunto é a dinâmica e ativação da vida do mercado, a opinião é unânime. O mercado carece de iniciativas e eventos na rua, para colmatar o esvaziamento da Alexandre Braga, defendem os lojistas. “Só houve um evento organizado aqui fora”, recorda Hugo Santos, que também é membro da Associação de Comércio Tradicional Bolha d’Água.
A presidente da Bolha d’Água, Helena Ferreira, tem sido uma das vozes mais críticas contra o funcionamento do mercado. No início de março, acusou a Câmara do Porto de “intimidação”, no decurso de uma penhora "ilícita", afirma a mesma ao Porto Canal. Em reunião do executivo municipal, Rui Moreira refutou as críticas e recusou-se a discutir o futuro do Bolhão com a responsável pela associação, que acusou de querer “politizar o assunto.”
Pedonalização da Alexandre Braga divide

A Rua de Alexandre Braga passou a ser pedonal a partir de janeiro de 2023. Desde então os comerciantes admitem uma quebra no negócio e lamentam a falta de iniciativas naquela artéria para chamar mais clientes
Há 31 anos aberta no Mercado do Bolhão, a Central dos Forros vê clientes a entrar e sair. “São os habituais, já nos conhecem”, diz Pedro Cunha, funcionário daquela retrosaria que é das poucas que existem pelo centro da cidade, acrescenta.
Desde janeiro de 2023, a Rua Alexandre Braga, que em tempos foi um dos principais terminais de autocarros provenientes dos territórios limítrofes da cidade, passou a ser pedonal. E “como tudo, há vantagens e desvantagens”, declarou José de Oliveira, proprietário de um alojamento local naquela artéria.
Aos olhos de Pedro Cunha, a pedonalização “foi um erro” que impactou muito nos negócios que agora vivem uma “luta diária” para cativar novos clientes. As muitas pessoas que ali se cruzavam, entre zonas comerciais, estação de metro e autocarros, são agora menos.
“Era uma rua onde transitava tanto trânsito, onde os autocarros paravam e largavam tanta gente. Deixou de haver uma movimentação de pessoas”, recorda o funcionário da retrosaria, acrescentando tratar-se de milhares de pessoas a passar pela frente do seu negócio.
Pequenos concertos ou exposições são passos que “fariam toda a diferença”, sugere enquanto atende uma cliente fiel, que já compra naquela casa há mais de dez anos.
"Clima de insegurança" no exterior preocupa comerciantes
Descendo a rua, a realidade dos negócios já é outra. Na Leitaria da Quinta do Paço, as vendas não podiam correr melhor, e as funcionárias até brincam com a azáfama que é desde que vestem o avental.
Ali, o problema é outro. Raquel Bezerra, trabalhadora naquele negócio, destaca as vulnerabilidades de segurança e sublinha as necessidades de melhoria nas portas e grades.
“Em menos de um mês, digamos, uma semana, fomos assaltados três vezes. Levaram dinheiro da loja, tivemos outras perdas materiais também. É lamentável, sentimo-nos muito inseguros de estar aqui. Principalmente por falta de segurança, eu acho que por parte da segurança pública.”
A segurança do mercado está garantida, garante Cátia Meirinhos, responsável da GO Porto, entidade gestora do mercado. No exterior, a responsabilidade cabe à Polícia de Segurança Pública (PSP).
A vaga de assaltos assusta, mas os comerciantes sublinham o apoio da direção do mercado. “Eles ajudaram-nos prontamente no que puderam”, reconhece Raquel Bezerra.
Segundo a funcionária, já foram expostas preocupações que estão a ser acompanhadas pela entidade gestora, como, por exemplo, as portas. “Priorizam a decoração e não a segurança”, lamenta Hugo Santos, em concordância com Raquel Bezerra. “São frágeis na fechadura e as grades também só vão até a metade, ou seja, não descem totalmente”.
Câmara avança com intervenções

Gestão do mercado atende às reivindicações e vai avançar com pequenas intervenções
Algumas carências do mercado acabaram por ser detetadas após a reabertura, mas a GO Porto já está a preparar uma série de intervenções, além de alterações ao regulamento.
Atendendo a uma das principais reinvindicações dos responsáveis pelos restaurantes, estes espaços vão passar a poder abrir aos domingos e feriados.
Também está preparada a “implementação de sombreamento nas bancas laterais”, “a instalação de ar-condicionado nas áreas de congelados” e “a melhoria da sinalética e comunicação” no interior da própria estrutura.
A instalação de ar condicionado nos espaços dos congelados vai representar um investimento de 30 mil euros, disse Cátia Meirinhos. O procedimento para as novas palas de sombreamento deverá ter um valor base superior a 200 mil euros e está a ser ultimado.
As peixarias do mercado queixavam-se de falta de visibilidade, tem que também merece a atenção da GO Porto. “Estamos a adquirir um equipamento novo para fazer uma área de exposição no exterior, portanto, para terem mais visibilidade”, informou Cátia Meirinhos ao Porto Canal.
Ana Silva, da peixaria Rosa Maria, expôs resumiu o problema: “Já passado um ano e meio disto ter aberto diziam-nos: ‘olhem, já vim cá algumas vezes e não sabia que vocês estavam aqui’ ”.
A florista Rosa Maria lembra a ocasião em que foi multada após ter metido um plástico para proteger as flores da sua banca: “Chovia ‘que Deus a dava’ e eu então meti ali um plástico. E eles mandaram-me tirar (...) pronto, e eu tirei. Em dezembro, apareceu-me uma multa em casa. 150 euros para pagar… foi a minha prenda de Natal”, lamentou.
Há quem também deixe outras recomendações: “Cada vez mais o português vai à distribuição moderna, não vem ao mercado, até porque não temos parte de estacionamento e as pessoas não estão para andar a carregar”, declarou Rosa Gonçalves, acrescentando “Se eu não estivesse aqui, eu não vinha aqui às compras”.
A falta de estacionamento “é uma das razões pelas quais as pessoas não vão ao mercado” e, por isso, a comerciante sugere um esforço para que as pessoas tenham estacionamento gratuito perto durante o período das compras no mercado.
Turismo marca nova vida do Mercado

A cidade do Porto está a mudar e o Bolhão não é exceção. A memória do antigo mercado traz à evidência que, entre os sons e os cheiros que compõem o Bolhão, há ares de mudança.
“É muito lindo, mas gostava que fosse um pouco mais ‘artesanal.’ Vejo-o demasiado turístico, e para o ser falta-lhe um pouco de sabor local”. As palavras são do argentino Edoardo, turista de visita ao Porto, acompanhado pela mulher.
Mas o ‘novo’ Bolhão não obriga a uma descaracterização do mercado, sublinha Cátia Meirinhos, que realça que, embora haja mais turistas, o edifício tem as portas abertas para todos. “ O Mercado de Bolhão sempre teve a sua alma e teve as portas abertas para todos os clientes, sejam eles a nível nacional, sejam turistas. E, portanto, todos são bem-vindos e não há descaracterização”, defendeu a responsável da GO Porto.
“Nós temos os comerciantes, sabemos que as vendas correm bastante bem. Não há aqui qualquer questão com a aceitação ou não de turismo. Nós estamos de portas abertas e, portanto, todos convivem aqui”, acrescenta ainda Cátia Meirinhos, referindo-se aos níveis elevados de satisfação, resultados de inquéritos realizados pela organização.
A satisfação é geral e sente-se pelos comerciantes de todo o mercado. De mãos dadas anda o sentimento de que a tradição tem agora de partilhar a casa com os novos conceitos, tendências e gerações.
“As vendas melhoraram bastante. O espaço é bonito, é apelativo. E temos de tudo! Não temos só turismo”, reconhece Rosa Gonçalves, com uma banca de bebidas alcoólicas. “Não podemos ficar agarrados ao passado, temos de evoluir”, Ermelinda Gertrudes, que vende ali há 45 anos.
Antes das obras, a falta de condições era evidente e as intervenções eram urgentes. Nuno Lopes, vendedor de leitões na zona dos restaurantes, evoca o mercado antigo e reconhece a transformação do equipamento: “Antigamente parecia uma aldeia aqui dentro, com casinhas. Já está com outro conceito mais moderno”.
“Perdem-se um bocadinho as raízes, aquelas tradições que se tinha de apregoar, por exemplo”, continuou.
Segundo dados da Câmara do Porto, mais de 70% dos comerciantes do Mercado do Bolhão são históricos, ou seja, 79 entre os 125. Apesar de todos os desafios e incertezas, garantem que, enquanto ali venderem, o “Bolhão não vira um supermercado”.
“Antigamente era raro ver algum estrangeiro aqui, agora está cheio”, assinala a portuense, assídua do mercado, Daniela Pinto, que ao mesmo tempo lamenta que o Bolhão corra o risco de ter um destino idêntico ao do Mercado do Bom Sucesso, onde “agora só se vê restaurantes e um supermercado”. “Só o tempo dirá”, concluiu a cliente.
Centro comercial chegou a estar em cima da mesa

Quando a passagem do tempo ditar a saída do mercado de todos os comerciantes antigos, há quem tema que o espaço possa virar um centro comercial. O risco da descaracterização e da perda de raízes locais é real e não é preciso recuar muito para lembrar que um projeto dessa natureza já esteve mesmo em cima da mesa.
Desde 1984, altura em que a autarquia identificou pela primeira vez a necessidade de reabilitação do mercado, foram muitas as ideias e novos projetos propostos para o equipamento. Um dos primeiros projetos de reabilitação do mercado remonta aos anos 90 e era da autoria do arquiteto Joaquim Massena.
Em 2008, assumia Rui Rio a presidência da Câmara do Porto, uma nova proposta instalou a polémica, quando a empresa holandesa 'TramCrone' apresentou um projeto que previa a demolição integral do interior do mercado (preservando apenas as fachadas do edifício) para dar lugar a habitações de luxo, a um centro comercial, com áreas no subsolo. Apenas uma pequena percentagem do espaço seria destinado ao mercado de frescos. A proposta gerou alarme na comunidade, que se mobilizou para bloquear o seu avanço.
Manifestações, protestos de comerciantes e debates públicos deram corpo à resistência à ao que se considerou ser o risco de destruição do Bolhão. A comunidade académica também se mobilizou, organizando um seminário promovido, contando com a presença de Rui Moreira, na altura presidente da Associação Comercial do Porto, e Manuel Correia Fernandes, que viria a ser o vereador do urbanismo do primeiro executivo de Moreira e, juntamente com o presidente da Câmara, um dos responsáveis pelo lançamento do projeto do Bolhão que viria a concretizar-se.
