Um ano depois do novo regulamento, Movida continua a não dar descanso aos moradores da Baixa do Porto

Um ano depois do novo regulamento, Movida continua a não dar descanso aos moradores da Baixa do Porto
| Porto
João Nogueira

“Eles ficam com o dinheiro, e nós ficamos com o barulho”. O desabafo de Paula Amorim perdura há mais de 15 anos, altura em que a vida noturna começou a crescer na Baixa do Porto. A moradora, juntamente com outra, Sara Gonçalves, tem sido o rosto de uma luta que parece não ter fim, nem com um novo regulamento lançado há um ano: “Não desisto porque tenho direito ao descanso”. Câmara admite rever regras.

É com uma camisola vestida com a cara do senhor Agostinho, vizinho falecido recentemente na sequência de um acidente vascular-cerebral, e com a mão ao peito que Paula Amorim fala sobre o problema: “Dois dias antes do segundo AVC, teve que vir à rua implorar que se lhe davam um bocadinho de descanso.” Paula referia-se a Agostinho Botelho, que morava no núcleo da Movida e acabou por morrer “sem um minuto de paz”.

Paula Amorim e Sara Gonçalves têm sido os principais rostos da luta dos moradores do centro do Porto, que, garantem, vivem fustigados pelas festas e pelo ruído noturno dos bares e das ruas.

"Vamos a mais uma noite sem saber de como será essa noite? Isto para mim já nem há separação da noite do dia, porque nós de dia já pensamos que vai acontecer à noite. Por isso o dia já é sacrificado para nós, porque estamos sempre a pensar que à noite vamos ter música", desabafa Paula, revelando o constante estado de tensão em que vivem.

A relação entre os espaços noturnos e os moradores não é feita de mãos dadas, nem depois de, há precisamente um ano, a Câmara do Porto ter lançado um regulamento na tentativa de intervir sobre o problema.

“Isto para nós é uma tortura. ‘Como o tempo da PIDE era torturar as pessoas…”, desabafa Paula Amorim.. “Não é na casa deles, não é com o pai deles. Este senhor que faleceu, se fosse o pai de algum deles, se calhar isto tinha outra solução. Mas não é. Não é o pai, não é o avô, não é a avó, não é um filho. Se não olhavam para nós”, conclui.

Em frente à própria casa de Sara Gonçalves, diante a Cordoaria e junto à reitoria da Universidade do Porto, as concentrações na via pública são diárias e duram até altas horas, mesmo depois do encerramento dos bares da zona do Piolho. Nem o vidro duplo e corte acústico das janelas atenuam o ruído: “Aqui é a zona protegida [pelo ], mas não melhorou nada. Mesmo quando fecham aqui os estabelecimentos, há grupos que vêm com colunas de outros sítios de lojas de conveniência que trazem até de supermercado".

 

 
 
 
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Há menos queixas, mas problema está longe de ser resolvido

O objetivo das novas regras que começaram a vigorar há um ano é garantir o direito ao descanso dos moradores da Movida, mantendo o funcionamento dos estabelecimentos. E apesar do número de queixas ter caído durante este ano, os moradores continuam a viver o mesmo problema e a não distinguir “a noite do dia”.

Aos olhos de Sara, o esforço municipal está a ser feito, mas “falta fiscalização” para controlar o ruído e o incumprimento dos horários por parte dos bares. “Do que são as concentrações na rua, e até porque aqui é um epicentro, não melhorou nada”, disse.

Paula Amorim garante que, mesmo que já tenham passado mais de dez anos desde a primeira vez que se dirigiu à Câmara para reclamar direito ao descanso, não vai desistir: “Não desisto porque eu tenho o direito ao descanso. Eu e os meus dois familiares que vivem aqui. Já consegui algumas vitórias, mas não vou desistir".

Além de considerarem que a fiscalização é a chave para colmatar o problema, as moradoras acreditam que é preciso um trabalho maior de sensibilização junto da comunidade.

Sobre se acreditam que alguma vez o problema seja resolvido, Paula dispara: "Já pensei que sim, que ia estar resolvido alguma coisa, mas hoje em dia acredito que não”.

Câmara admite rever regulamento

Questionada pelo Porto Canal, a Câmara do Porto admitiu “considerar a revisão do regulamento no decurso do presente ano”.

O vereador das Atividades Económicas Ricardo Valente lembrou que “os resultados são deveras positivos em termos de interação com todos os interessados, redução de reclamações e queixas e uma política de comunicação mais próxima”.

No ano anterior ao que o regulamento começou a vigorar, registou-se quase uma centena de queixas de ruído noturno associadas aos agentes económicos da Movida. Com as novas regras, o número caiu para mais da metade, totalizando 41 queixas. A maioria foi avisos e pedidos de intervenção das autoridades, indicou a Câmara do Porto.

 
 
 
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