Óbito/Eduardo dos Santos: Um "revolucionário" que facilitou apoio militar ao ANC - PR sul-africano

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Porto Canal / Agências

O ativista Rafael Marques disse hoje que a governação de José Eduardo dos Santos ficou marcada pela destruição do tecido social, através da corrupção e da repressão, e considerou que Angola precisa de um governo que sirva o povo.

Rafael Marques de Morais foi um dos mais conhecidos opositores ao regime angolano liderado pelo ex-presidente Jose Eduardo dos Santos, que hoje morreu aos 79 anos, tendo sido várias vezes condenado pela justiça por denunciar escândalos de corrupção, alguns envolvendo generais do regime.

O jornalista e diretor do portal Maka Angola, defensor dos direitos humanos, lamentou a perda de um cidadão angolano que marcou várias gerações no país ao qual presidiu por 38 anos, salientando que "deve ser feita uma análise séria" ao seu legado para fechar "um capítulo da história de Angola, o de que o governo não serve o povo".

"É preciso vermos como criar um governo que seja do povo e para o povo. Nunca tivemos em Angola um governo que trabalhasse exclusivamente para o bem dos angolanos e para o desenvolvimento de Angola e é isto que falta", reforçou, em declarações à Lusa.

Para tal é necessário, "um governo competente, de pessoas com capacidade e engajamento e estrutura moral suficientes para ajudar também a educar a população".

"O que nós tivemos durante os anos de Dos Santos foi um processo de destruição do tecido social angolano por via da corrupção e da repressão, mas sobretudo pelo abandono das funções sociais do Estado", apontou Rafael Marques.

Questionado pela Lusa sobre as manifestações de dor e exaltação da figura do antigo presidente que alguns populares exibiram em Luanda e noutros pontos do país, o ativista considerou que a morte de José Eduardo dos Santos é também um momento para o povo mostrar o seu descontentamento com o atual Presidente, João Lourenço.

"São sentimentos normais numa sociedade onde hoje existe uma pluralidade de ideias, em que as pessoas têm maior liberdade de manifestação e, de forma inteligente e irónica, usando até a própria morte de José Eduardo dos Santos, utilizam todos os elementos ao seu dispor para protestarem também contra o governo atual do Presidente", destacou o investigador.

São manifestações "que devem ser levadas em conta porque revelam sentimentos" de angolanos, como as 'zungueiras', que usam agora a morte de Jose Eduardo dos Santos para projetar o seu descontentamento contra o seu sucessor.

Sobre um eventual impacto negativo na campanha do MPLA, partido do poder desde 1975 e que concorre às eleições gerais marcadas para 24 de agosto, com uma lista encabeçada pelo seu presidente e atual Presidente de Angola, João Lourenço, considerou que o sentido de voto dos eleitores não vai ser influenciado: "Simplesmente vem complicar", comentou.

"Como agora teremos um período de luto, eventualmente não haverá manifestações políticas, mas tirando isso - e eventualmente o dia do funeral, em que não se sabe se o corpo vem ou não vem, mas espera-se uma cerimónia de Estado - não vejo alteração significativa ao processo de campanha eleitoral", prevê Rafael Marques.

Para o ativista, "as pessoas já têm a sua orientação de voto e não será certamente a morte de José Eduardo dos Santos que alterará o seu sentido de voto".

Sobre se o funeral vai ser tratado como um facto político, salientou que "seria sempre".

"Ele foi Presidente da República de Angola por 38 anos. Há toda uma carga emocional, política e social à volta do seu passamento físico, porque é um homem que marcou várias gerações de angolanos. Mas tentar agora passar a ideia de que não haveria carga política na morte de José Eduardo dos Santos não faz qualquer sentido", declarou à Lusa.

E concluiu: "Como angolanos temos de ganhar a consciência de que, se não educarmos o povo, continuaremos sempre a depender de indivíduos, e não de instituições, e nunca realizaremos o sonho da nação, de um Estado angolano que seja para todos os angolanos".

José Eduardo dos Santos morreu hoje aos 79 anos numa clínica em Barcelona, Espanha, após semanas de internamento, anunciou a presidência angolana, que decretou sete dias de luto nacional.

Eduardo dos Santos sucedeu a Agostinho Neto como Presidente de Angola em 1979 e deixou o cargo em 2017, cumprindo uma das mais longas presidências no mundo, marcada por acusações de corrupção e nepotismo.

Em 2017, renunciou a recandidatar-se e o atual Presidente, João Lourenço, sucedeu-lhe no cargo, tendo sido eleito também pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que governa no país desde a independência de Portugal, em 1975.

O Presidente sul-africano considerou hoje o ex-presidente de Angola José Eduardo dos Santos como um "revolucionário", que facilitou apoio material e militar ao Congresso Nacional Africano (ANC) na luta de libertação contra o regime de segregação racial do 'apartheid'.

"Ofereço, em nome do nosso Governo e da nação, as nossas mais sinceras condolências à República de Angola pelo falecimento de um destacado revolucionário e líder de uma nação", salientou Cyril Ramaphosa.

Num comunicado, divulgado pela Presidência da República sul-africana e a que a Lusa teve acesso, Ramaphosa, que é também presidente do ANC, partido no poder desde 1994 na África do Sul, sublinhou que o "percurso" e a "militância" do ex-presidente angolano, assim como a sua formação na antiga União Soviética, "identificam-se com a jornada de muitos sul-africanos no seu próprio movimento de libertação".

"De facto, José Eduardo dos Santos e o MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola], que ele liderou, estenderam a sua solidariedade revolucionária e apoio material e militar ao nosso movimento de libertação", salientou o Presidente sul-africano.

"Este apoio fez com que o regime do 'apartheid' e os seus aliados violassem a República soberana de Angola, transformando Angola num campo de batalha pela preservação do regime do 'apartheid'", refere-se na nota.

Na ótica de Ramaphosa, "no fim, através dos sacrifícios do povo angolano e da liderança inabalável do Presidente Dos Santos, a liberdade surgiu numa África do Sul democrática".

"Hoje, as nossas duas nações estão unidas no luto como estávamos em luta, e a África do Sul continuará a honrar a contribuição que o Presidente Dos Santos fez para construir a República de Angola e trazer a paz à nossa região", frisou o Presidente sul-africano.

José Eduardo dos Santos morreu hoje aos 79 anos em Barcelona, após doença prolongada, anunciou a Presidência da República de Angola.

O ex-presidente angolano, que governou de 1979 a 2017, fez a sua primeira visita de Estado à África do Sul em dezembro de 2010, acompanhado por uma dezena de ministros.

A visita oficial seguiu-se a uma visita de Estado do então presidente Jacob Zuma a Angola, em 2009, após décadas de relacionamento difícil durante o regime do 'apartheid' e os primeiros anos do governo de maioria negra na África do Sul, liderado pelos ex-presidentes Nelson Mandela e Thabo Mbeki.

Durante o 'apartheid', a África do Sul apoiou militarmente a União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA), até 1989, na guerra civil contra o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) de José Eduardo dos Santos.

Entre 1976 e 1989, centenas de guerrilheiros da ala armada do ANC, Umkhonto we Sizwe (MK), treinaram em campos militares em Angola durante a guerra civil de mais de 20 anos, segundo uma biografia do académico sul-africano Thula Simpson.

Após o fim do 'apartheid' em 1994, Nelson Mandela e Thabo Mbeki favoreceram um acordo negociado para a guerra civil angolana, que José Eduardo dos Santos rejeitou até ao fim do conflito armado com a morte do líder da UNITA, Jonas Savimbi, em 2002.

José Eduardo dos Santos morreu hoje aos 79 anos numa clínica em Barcelona, Espanha, após semanas de internamento, anunciou a presidência angolana, que decretou cinco dias de luto nacional e que posteriormente aumentou para sete.

Eduardo dos Santos sucedeu a Agostinho Neto como Presidente de Angola em 1979 e deixou o cargo em 2017, cumprindo uma das mais longas presidências no mundo, marcada por acusações de corrupção e nepotismo.

Em 2017, renunciou a recandidatar-se e o atual Presidente, João Lourenço, sucedeu-lhe no cargo, tendo sido eleito também pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que governa no país desde a independência de Portugal, em 1975.

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