Monica Strømdahl filma crise da habitação norte-americana pelos olhos de uma família

Monica Strømdahl filma crise da habitação norte-americana pelos olhos de uma família
Foto: Pedro Benjamim | Porto Canal
| Porto
Porto Canal/Agências

O filme “Pardieiros Americanos”, da fotógrafa Monica Strømdahl, mostra uma família a viver em condições praticamente subhumanas, pelo olhar do menino, Mikal, mostrando o efeito da crise habitacional nos Estados Unidos para “um grupo particularmente marginalizado”.

“Pardieiros Americanos”, integrado na competição internacional do festival Porto/Post/Doc, é exibido quinta-feira, às 21h30 no Batalha - Centro de Cinema, e no dia seguinte no Passos Manuel, pelas 19h00.

Em entrevista à Lusa, a realizadora explica que começou por contactar com este tipo de hotéis, de quartos minúsculos, sem janelas, com cadeados a servir de fechadura às portas, em condições deploráveis, quando quis “um sítio barato para ficar em Nova Iorque”.

“Descobri que muita gente vivia assim uns cinco, 10, 15 anos, por falta de melhor opção aquilo era o seu lar. Uma solução temporária que se tinha tornado permanente, por ser demasiado difícil subir a escada social numa cidade tão grande”, diz.

Strømdahl foi “fotografando e ouvindo as histórias das pessoas” em várias cidades norte-americanas, retratando vidas humanas de pobreza e miséria no meio do desenvolvimento do centro de grandes cidades e nos subúrbios daquele país.

“Foi numa destas jornadas fotográficas que encontrei Mikal. O meu método foi sempre o mesmo, ir para uma cidade, fazer check in no hotel, ficar lá o tempo que puder, até encontrar quem queira falar comigo, partilhar a história e deixar-se fotografar. E depois mudo-me para outra. Porque em qualquer grande cidade nos EUA há pessoas presas nesta situação”, conta.

Em 2017, conhecer a criança da família que retratou em “Pardieiros Americanos”, então com 11 anos, permitiu-lhe uma porta de entrada para a história - “Mikal não só nasceu na pobreza,mas também na adição dos pais, nasceu já naquela situação, aprendeu a caminhar ali, nos corredores”.

É pelo olhar de Mikal que a obra, filmada ao longo de oito anos, se constrói, não só mostrando a crise habitacional como a jornada dos pais, das necessidades e desejos de uma criança que se torna adolescente, que “quer ser visto”, e pôde contar a história nos seus termos - o filme foi aprovado pelo próprio, depois de fazer 18 anos.

“Apesar de ter conhecido muitas famílias, quando conheci Mikal e a família, vi-o como uma criança extremamente inteligente, com esperteza’, que aprendeu a navegar a sua realidade e a realidade dos pais, de forma muito madura para a sua idade. Queria melhor para si, sabia que merecia melhor, e lutava todos os dias para produzir mudanças na família”, revela.

Segundo a realizadora, a família foi tendo “consciência da sua situação”, uma força que procurou alavancar para colocar no público um sofrimento que interroga: “O que podemos fazer para sermos melhores, como sociedade, como humanos?”.

“Dói mais ao ver o filme. As estatísticas esquecem-se, mas não a cara do Mikal, e a história do Mikal. Espero que as pessoas vejam o filme e sintam isto, para que queiram falar do problema. Só ao mostrá-lo podemos procurar soluções”, acrescenta.

Lembrando que em países como Portugal ou mesmo na sua Noruega natal “a desigualdade tem crescido”, assim como a pobreza, espera que o filme possa alertar para “questões locais que são muito evidentes”, seja por histórias similares ou outros problemas decorrentes do atual rumo da sociedade.

“O efeito da representação é imenso, e tão importante que contemos todo o tipo de histórias, para chegarmos a um entendimento fundo uns dos outros. Não acho que um filme possa mudar coisas, mas é um contributo para a conversa sobre o que fazemos para corrigir estas fendas na nossa sociedade. Como é que apanhamos famílias como as do Mikal? Que serviços podemos oferecer a famílias como esta? O que é que devia estar disponível por escolha, o que é que tem de ser forçado? De quem é a responsabilidade? O vizinho, a escola, a família? Como é que podemos fortalecer o nosso sistema de suporte e redes de segurança?”, questiona.

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