“Transmissão de história e memória” é foco no cinema de Lina Soualem
Porto Canal/Agências
A realizadora de ascendência palestiniana e argelina Lina Soualem, uma das artistas em foco do festival Porto/Post/Doc, destaca, em entrevista à Lusa, o poder da “transmissão de história e memória” como afirmação de existência para povos oprimidos.
O foco em Lina Soualem, a par do que é colocado em Andrei Ujica, faz com que o Porto/Post/Doc programe, no Porto, dois filmes que realizou, assim como a série “Oussekine”, em que trabalhou, destacando o papel do arquivo, da memória e da transmissão de histórias de forma intergeracional para uma construção da História em que povos oprimidos tenham direito à existência, a começar pelas suas raízes palestinas e argelinas.
Os dois filmes que compõem a sua filmografia, “Bye Bye Tiberias” e “Their Algeria”, contam a história da sua família, no primeiro do lado palestiniano, da parte da mãe, a atriz Hiam Abass (conhecida pelo papel na série “Succession”), e no segundo do lado argelino, do pai.
“São histórias marcadas pelo deslocamento, trauma colonial, relações intergeracionais entre familiares, e transmissão. São sobre manter a memória dos nossos antepassados viva e a memória do que foi perdido, e do que foi mantido vivo. Também para dar voz a quem nunca pôde contar a sua história, sejam argelinos, palestinianos, ou outras pessoas de contextos de exílio e colonialismo. Pessoas que foram desapossadas dos seus direitos, privados de identidade, que nunca puderam falar das suas histórias pelas suas próprias palavras. Queria contar as histórias das minhas famílias, dando-lhes de volta o direito à complexidade, à memória, para que pudessem existir no espaço público”, explica.
Em 2018, quando começou o projeto “Bye Bye Tiberias”, em que aproveita material do arquivo familiar e embarca numa viagem à aldeia natal, na Palestina, com a mãe, seguindo o rasto da saída da família de Tibérias durante a ‘nakba’, já então falava “sobre como os palestinianos são desumanizados”, numa atuação que acontece há muito e “não mudou” com a ofensiva militar que Israel desencadeou em Gaza, diz a cineasta.
“Estou muito feliz que este filme exista, para poder mostrar a realidade de uma família palestiniana, contrariando a propaganda de desumanização que está em curso contra o povo palestiniano. Como as suas histórias são atiradas ao esquecimento… é vital transmitir a nossa história para podermos existir”, afirma.
Soualem insere esta obra “num ‘corpus’ maior de filmes palestinianos que são vitais para a representação do povo no mundo”, vendo-o como “um corpo de trabalho coletivo”.
“Ainda há quem nos desumanize, mas há muita gente que quer saber mais sobre palestinianos, que vê os nossos filmes e lê os nossos livros, que quer aproximar-se desta realidade e cultura, e expressar solidariedade e apoio”, nota.
A raiz do seu cinema vem da sua família, em que “a transmissão de história e memória sempre foi vital”.
“Na Palestina, tudo o que filmas pode acabar por ser um arquivo, porque não sabes o que restará no dia a seguir, e no dia a seguir… se estarão lá as mesmas casas, as mesmas pessoas. A memória é vital, é a prova da nossa existência, e por isso o arquivo é tão importante no cinema palestiniano. Toda a imagem é a prova de uma existência negada”, lembra.
Nascida em Paris em 1990, com duas ascendências diferentes, sente não ter “outra opção que não seja ser uma ponte” cultural e identitária, podendo “tornar acessível histórias que não o seriam” para espectadores europeus, por exemplo.
Soualem orientará ainda uma aula, na quarta-feira, na Universidade Católica do Porto, e refere gostar de se “dirigir a jovens cineastas e alunos”, para poder transmitir-lhes “que não há uma ou outra forma de fazer cinema, mas muitas formas”.
“É preciso confiar nos teus instintos e subjetividade. Não há regras, inventamos a nossa linguagem. [...] É muito trabalho. Em qualquer ato criativo, é preciso muito foco, muita ética. Ao filmar pessoas, temos impacto nas vidas delas, e ao mostrarmos isso num ecrã, igual. É preciso ser consciencioso com o que se faz”, nota.
Na carta branca que o festival deixou a seu cargo, a cineasta escolheu filmes de Theo Panagopoulos, Valentin Noujaim, Larissa Sansour, Mona Benyamin, Meriem Bennani, Mohamed Bourouissa e Jumana Manna, exibidos de 26 a 28 de novembro.
Esta seleção coloca o foco não só sobre novas linguagens e práticas, mas sobretudo sobre “pessoas que foram, e ainda são, oprimidas, desumanizadas, marginalizadas, esquecidas ou mesmo apagadas”.
Estes trabalhos dão voz a quem não a tem. São sobre manter viva a memória, mergulhar em arquivos, manter vivas as vozes. É o que me interessa no cinema, trazer à luz o que está enterrado, escondido ou desaparecido”, reflete.
Lina Soualem estudou História e Ciência Política na Universidade La Sorbonne, em Paris, e trabalhou como programadora no Festival Internacional de Direitos Humanos de Buenos Aires, antes de se estrear com “Their Algeria”, em 2020, estreado no Visions du Réel.
“Bye Bye Tiberias”, de 2023, integrou já a programação do Porto/Post/Doc nesse ano, tendo sido premiado em Marraquexe e Londres, além de ser a escolha da Palestina para a indicação aos Óscares.
A cineasta nasceu no seio de uma família ligada ao cinema, uma vez que além da mãe, Hiam Abass, também o pai, Zinedine Soualem, é ator, assim como a irmã de Lina, Mouna Soualem.
