Nuno Carinhas põe Walser em palco no São João como "teatro que vale a pena"
Porto Canal/Agências
A “Gata Borralheira”, a “Branca de Neve” e a “Bela Adormecida” de Robert Walser apresentam-se no Teatro Nacional São João, no Porto, num espetáculo de Nuno Carinhas em que o Conto conta um conto que “de linear nada tem”.
“Branca de Neve & outros Dramalhetes” é a nova produção própria do Teatro Nacional São Joao (TNSJ), com encenação e dramaturgia do antigo diretor artístico da sala Nuno Carinhas, que se estreia quinta-feira e apresenta uma versão “subversiva e despretensiosa” dos versos em que Walser reinventa as personagens criadas pelos irmãos Grimm.
Uma Cinderela que afinal não era infeliz enquanto Gata Borralheira, uma Branca de Neve que é amiga da Madrasta e uma Bela Adormecida que não queria acordar, três personagens a que se juntam príncipes, reis, pajens e o Conto.
“Achei que valia a pena desenhar uma dramaturgia onde fosse possível fazer as três peças, com as três personagens. […] Foi um desafio juntar três universos tão particulares em menos de duas horas e com um elenco tão curto que teve de se desdobrar, e esse desdobramento para mim é muito interessante porque me lembra que o teatro é feito de companhias de atores”, afirmou o encenador Nuno Carinhas, depois de um ensaio para jornalistas.
Em palco, surge a personagem Conto: “O Conto aparece, não era esperado ele aparecer. Sendo ele o Conto, tem imensa liberdade e ele próprio corporiza essa oferta que deixa, o deslumbre, e ela, a Gata Borralheira, não o identifica, não identifica o seu criador […] temos aqui algo que de linear não tem nada”, apontou.
E se no conto tradicional a Gata Borralheira se deixa deslumbrar pelo vestido e pelos sapatos de prata, que na dramaturgia de Nuno Carinhas lhe são dadas pelo Conto, a Gata Borralheira que vai ao palco do São João descobre que não era assim tão infeliz e que o paraíso que o Príncipe lhe oferece vem com grilhões de prata e dever de obediência.
“Walser combate sempre a adversidade criando anticorpos para ela. Portanto, se ela [a Gata Borralheira] não era livre antes continua a não ser livre. Mas esta personagem, e as outras, de linear não têm nada. Defendem uma coisa e depois o seu contrário e isso também é belo”, explicou.
Dos príncipes dos contos espera-se que sejam belos, com uma personalidade cativante e sempre prontos a salvar a donzela, mas em “Branca de Neve & outros Dramalhetes” nem tanto: “O Príncipe está em conflito com ele próprio, é imaturo. Não se sabe explicar muito bem, mas há um movimento de crescimento. O Príncipe está num estado de iniciação, como se fosse um estado de aprendizagem”.
E sem fazer parte dos contos, também a pintora Paula Rego marca o espetáculo, que conta com figurinos de Letícia dos Santos (e do próprio Carinhas) e cenografia de Pedro Tudela: “Os figurinos foram surgindo de forma intuitiva […] por exemplo, as irmãs [da Gata Borralheira] aparecem como bailarinas negras, perversas, intemporais, essas bailarinas do Punk e é engraçado porque a Paula Rego também revisita uma série de contos na sua pintura e que também são versões alternativas”, explicou Letícia dos Santos.
Ao longo de duas horas, três contos, ligados por dois poemas inéditos, são revividos e recontados num momento de “teatro que vale a pena”.
“O teatro que me retira dos meios que hoje em dia nos contaminam quotidianamente, esse é o teatro que vale a pena ser visto. O teatro que faça com que nós, ao deixarmos as nossas parafernálias, os nossos telemóveis, os nossos computadores, os nossos ‘tiktoks’, nos percamos um pouco e que ganhemos, outra vez, aquilo que é importância do sonho, o que é isso da magia, dos prodígios, dessa capacidade imaginativa do qual nos somos parte, esse é o teatro que vale apena”, considerou o encenador.
O “teatro que vale a pena ser visto” de “Branca de Neve & outros Dramalhetes” estreia-se quinta-feira e estará em cena até dia 14 de dezembro no TNSJ, com interpretação de Alberto Magassela, Joana Carvalho, Lisa Reis, Luísa Cruz, Patrícia Queirós, Paulo Freixinho e Pedro Almendra.
