Clube de Teatro Ativista estreia-se no Coliseu do Porto com reflexão sobre o medo
Porto Canal/Agências
O Clube de Teatro Ativista, um projeto do Serviço Educativo do Coliseu do Porto, estreia-se, no domingo, com “Há Quem Tenha Medo que o Medo Acabe”, um convite à "reflexão" sobre o medo como ferramenta de manipulação social.
A apresentação, marcada para o Salão Ático do Coliseu do Porto, assinala as comemorações dos 30 anos da Associação Amigos do Coliseu do Porto, cuja criação se deu por um movimento espontâneo de ativismo popular.
A peça, com encenação e direção artística de Pedro Lamares - assistido pelos atores e músicos Carolina Rocha e Carlos Correia - é o resultado de um trabalho coletivo que reuniu 25 participantes, com idades entre os 18 e os 82 anos, de diferentes profissões e origens.
O espetáculo baseia-se em textos poéticos da autoria de Alexandre O’Neill, Sophia de Mello Breyner ou Jorge Sena, entre outros, recortes de imprensa e numa reflexão de Mia Couto a que chamou de “Morar o Medo” e que inspirou o título da peça.
À Lusa, Pedro Lamares explicou que a dramaturgia, construída em conjunto com os 25 participantes, "não é linear", não contando uma história de forma tradicional.
A peça, explicou o encenador, aborda temas como "a guerra, o medo, o silêncio, a opressão, a violência contra as mulheres, a violência contra as crianças", criando uma "espécie de amálgama" de questões sociais.
“Aliás, o espetáculo começa mais ou menos pelo fim”, contou, detalhando que o texto de abertura é da autoria de Alexandre O'Neill - "Perfilados de medo" - musicado por José Mário Branco cuja música surge em outros momentos da peça.
A obra de Eduardo Alves da Costa, poeta brasileiro ainda vivo, é outras das que sobe ao palco, através de um poema escrito durante a ditadura militar brasileira, e que antecede um momento de explosão onde há a perceção que houve uma guerra.
"Depois começamos tudo do início, começamos o nascimento", contou.
Para o encenador, que vem trabalhando o tema há pelo menos 10 anos, o uso do medo como ferramenta de manipulação social está cada vez mais atual, repetindo ciclos históricos onde o medo era uma ferramenta de domínio da população em "todos os regimes tirânicos, autocráticos, ditatoriais".
Lamares traça um paralelo com a atualidade, referindo que se assiste, por todo o Ocidente, a um "projeto concertado com uma agenda política que tem sempre um tema comum, que é a ignição e a geração do caos através do medo", mesmo que a partir de "narrativas falsas", de são exemplo o crescimento da extrema-direita em países como Itália, Polónia, Turquia ou Suécia, a eleição de Jair Bolsonaro, no Brasil, e de Donald Trump, nos Estados Unidos da América.
“Sendo isto um grupo que se propõe a refletir sobre a atualidade, questões políticas, desigualdades, injustiças, pareceu-me bastante lógico começarmos o primeiro projeto pela base desta estrutura de caos que é o medo”, explicou.
O encenador sublinha, no entanto, que a peça não pretende ter uma função "doutrinadora", mas "provocar uma reflexão".
A entrada é gratuita, mas sujeita a levantamento prévio de bilhete, tendo lotação limitada.
Dinamizado pelo Serviço Educativo do Coliseu, e com direção artística, formação e dramaturgia de Pedro Lamares, o Clube de Teatro Ativista (CTA) nasceu em novembro de 2024 como parte das comemorações dos 30 anos da Associação Amigos do Coliseu do Porto
O projeto, assinala o presidente do Coliseu, Miguel Guedes, numa nota à imprensa, “mantém viva a memória de um espaço que a todos pertence” e “reforça a missão de promoção da arte como veículo de mudança e consciência social”.
