Nany Petrova é a “avó” das Drag Queens no Porto
Inês Saldanha
Nasceu nas Fontainhas, no Porto, uma cidade onde, nos anos 60 e 70, “ainda não havia a palavra homossexual”. Fernando Soares, de 77 anos, reformado do trabalho como metalúrgico, deu vida a uma das figuras mais icónicas do transformismo em Portugal: Nany Petrova.
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Quem o vê preparar-se para mais um espetáculo no Bar Invictus, no Porto, apenas acompanhado pelo cigarro e pelas cores intensas da maquilhagem, percebe de imediato os mais de 50 anos de carreira que carrega.
Nos gestos firmes e ensaiados, há a experiência de quem não pede licença para ser quem é. Contudo, a vida de Fernando nem sempre se desenhou com a mesma segurança que hoje transparece no reflexo do espelho.
Após cumprir o serviço militar obrigatório, em 1972, regressou a casa e teve de enfrentar um pai austero que não aceitava a sua orientação sexual.
“Recebi uma carta de um namorado com uma fotografia nossa a beijarmo-nos. O meu pai viu aquilo e pôs-me fora da porta”, contou ao Porto Canal.
Houve um período em que vagueou pelas ruas, sem abrigo, sustento ou rumo.
“Não tinha onde ficar. Nunca me prostitui, nem me meti nas drogas, mas estive quase porque não tinha o que comer”, confessou.
Ainda guarda na memória a dureza do ambiente familiar: “O meu pai batia na minha mãe, era muito difícil.”
Dois anos mais tarde, em 1974, reencontrou-se nos palcos de vários bares do cidade. Entre vestidos, perucas e o brilho das luzes da noite, Fernando Soares redescobriu-se.
“Trabalhava à noite, fazia ‘boates’, os bares ‘gays’, e segui a minha vida”, reiterou.

O nome do seu alter-ego, Nany Petrova, surgiu no contexto da sua profissão diurna de metalúrgico, inspirado pela associação dos trabalhadores do setor à esquerda e pela sonoridade russa que evocava essa ligação.
“Os metalúrgicos eram de esquerda e uma amiga minha deu-me a ideia para o nome que parecia russo”, recordou.
Se durante grande parte da vida conjugou as duas profissões, hoje está reformado e apenas sobe ao palco às sextas-feiras e sábados.
Apesar do cansaço e da vontade de parar, reconhece que “as pessoas pedem para continuar”.
“Dizem-me que se eu parar o Porto fica mais cinzento”, disse.
E não é difícil perceber o porquê: a sua atuação distingue-se, marcada por um humor que salta à vista de quem assiste.
Ao longo das décadas, deu corpo a figuras como Carmen Miranda e Fafá de Belém, sempre mantendo a mesma essência: a comédia.
“Aquilo que eu faço é muito difícil porque eu sou cómico. Fazer rir custa muito. É preciso ter imaginação”, considerou.
Mal a cortina que separa o bar do camarim se abre, o riso irrompe na plateia, provocado tanto pelas indumentárias caricatas como pela antecipação do que está por vir.
Como um comediante de stand-up, faz do microfone uma ponte com o público, guiado por uma capacidade de improviso que lhe é inata.
“Eu tenho um poder de improviso muito grande. Quando eu vou trabalhar, não sei o que vou dizer, é tudo improviso”, sublinhou.

Foi o olhar exigente do público ‘gay’ que, ao longo do tempo, moldou e impulsionou o seu percurso artístico.
“O público ‘gay’ pode ser malicioso, mas é bastante crítico e eu gosto disso”, admitiu em tom juncoso.
Essa entrega valeu-lhe reconhecimento, como o Prémio Carreira, em Lisboa, entregue pelo “falecido Carlos Castro”, e uma menção de honra quando o Porto foi Capital Europeia da Cultura: “A Câmara fez um livro com artistas e eu apareci enquanto transformista”, recordou.
No entanto, nem tudo aquilo que conquistou foi partilhado em casa. A mãe, por exemplo, nunca assistiu a um espetáculo seu.
“O meu pai faleceu e fiquei eu a tomar conta da minha mãe. Nunca lhe contei o que eu fazia, mas ela desconfiava. Uma vez ela viu roupas de mulher nos guarda-fatos e perguntou o que eu fazia, mas eu disse que era de amigas minhas, ela não acreditou. Eu contei-lhe a verdade e ela disse-me para seguir a minha vida”, relembrou.
Entre lembranças guardadas na mente, fotografias e objetos que ainda ecoam histórias, o transformista reflete sobre o futuro. Pensa em retirar-se, mas mantém-se disponível para regressar sempre que sentir vontade.
Ícone incontornável do transformismo, é hoje considerada a “avó” de muitas drag queens do Porto. Um legado de humor que resiste ao tempo, mas que arrisca perder-se numa geração, que, na sua opinião, está mais centrada “na sensualidade” do que na arte de fazer rir.
