Carteiro “é uma profissão em vias de extinção”. José Mota entrega cartas no centro do Porto há mais de 30 anos

Carteiro “é uma profissão em vias de extinção”. José Mota entrega cartas no centro do Porto há mais de 30 anos
Foto: Pedro Benjamim | Porto Canal
| Porto
Pedro Benjamim

“Eu sou daqueles carteiros que já fez os giros todos do centro da cidade”, onde as rondas se fazem a pé. E de mota? Surge a pergunta. “De mota não, isso já sou eu de nome”, responde José. José Mota. Carteiro no Porto desde 1992.

O relógio marca as 7h30 da manhã. É sexta-feira e, depois de dias de sol, as nuvens anunciam a chegada da chuva. Na Areosa, junto à Circunvalação, fica um dos Centros de Distribuição Postal (CDP) dos CTT - Correios de Portugal. Àquela hora já se começa a organizar o correio e encomendas que pouco depois vão sair dentro de sacos, motos e carrinhas até às caixas de correio.

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Anabela Costa é chefe naquele serviço dos CTT no parque empresarial Hipercentro, que faz 44 giros no Porto. “O CDP do Porto foi sempre um dos mais privilegiados”, conta. “São os Portos”, é assim que são conhecidos os carteiros daquele centro por outros colegas, explica Anabela.

“Os Centros de Distribuição Postal do Porto são dos poucos que têm giros apeados”, conta. A cidade, dividida em oito códigos-postais, obedece a formas de entrega adaptadas para cada zona. “A parte da 4000 [do cemitério do Prado do Repouso até à Rua do Almada] sempre foi feita a pé e vai continuar a ser feita a pé porque é uma zona muito concentrada”, explica Anabela Costa, além de destacar que o trânsito é também uma das fortes condicionantes.

José Mota é o capitão da equipa que faz os giros neste código do centro da cidade. Além de comandar os carteiros, faz também o giro na zona da Batalha.

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Da Areosa até o início da ronda a pé precisa de apanhar mais do que um transporte público. “Apanho um autocarro para a Constituição, depois faço a minha parte da zona, depois apanho o metro para a Trindade, depois apanho outro metro para o Bolhão e vou a pé até à Batalha para ir buscar o serviço”, detalha José Mota. Mas este dia foi diferente, porque foi preciso dobrar o serviço. Faltou um carteiro e, como é capitão de equipa, teve de o reorganizar. Acabou por fazer também a zona de São Vítor, no Bonfim, onde também já foi carteiro.

“A mim calha-me tudo, mas isso é porque sou capitão. Eu sou o sapador de serviço”, conta. “Se somos cinco e vamos dobrar cinco pessoas ao mesmo giro, a parte mais complicada calha-me a mim. Eu faço a zona que dá 50 registos e os outros fazem 3 ou 4 registos cada um”.

Há dois anos era ele o carteiro na zona de São Vítor e mudou para o giro atual, na Batalha, quando passou a ser capitão porque, apesar de ser “ fisicamente mais cansativo, tem menos correio e ganho espaço para controlar os meus colegas, que é uma das minhas funções”, explica.

“Eu sou carteiro da velha guarda, eu sou carteiro à moda antiga”

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José Mota cumprimenta dona Antónia, na rua de São Vítor. Foto: Pedro Benjamim 

Para José Mota estar na rua a fazer o giro é o mais importante do seu dia-a-dia. “Para mim o melhor do meu trabalho é o carinho que dou às pessoas e que recebo em troca”. O carinho vem, além dos sorrisos e boa disposição, da proximidade a quem entrega cartas. Dois anos depois, numa das ilhas na rua de São Victor, onde era carteiro voltou a cruzar-se com a dona Antónia. “Quer uma bananinha?”, pergunta. José Mota já esperava a interpelação, já que a oferta se repetia dia após dia quando lá costumava entregar correio.

Recusou a fruta e seguiu caminho, mas essa não foi a única oferta do dia. Horas antes, na zona da Batalha, já lhe tinham oferecido uma garrafa de água. Era um dos seus principais clientes, mas quem são os seus clientes? “Os meus principais clientes são os pobres e agora os estrangeiros”, responde José Mota.

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A oferta surgiu após entregar uma carta onde vinha um cartão de residência. Anos após anos a entregar cartas no centro do Porto, José Mota conhece a vida daqueles a quem distribui o correio. Horas antes, ainda no CDP, o capitão de equipa fazia a leitura dos códigos de barras de correio registado. Com mais de 30 anos de profissão tem visão de raio-x. Só de olhar para as cartas sabe o que lá vem dentro, de contas para pagar a cartões de residência, mas não só.

Uma profissão em vias de extinção

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Com uma vida profissional exclusivamente dedicada aos Correios desde 1992, houve apenas um período em que vestiu outra farda. “O único espaço em que não estive nos Correios foi quando estive na tropa, nos paraquedistas em São Jacinto e depois fui para Tancos”, conta. “Quando saí da tropa fui chamado outra vez, em 1994, e até hoje. Sou efetivo há 30 anos”.

José Mota olha para os carteiros como “uma profissão que está a começar a ficar em vias de extinção, porque já ninguém escreve cartas”. Teve, outrora, um papel muito importante em aproximar pessoas, agora ocupado pelas redes sociais. “O correio passou aquela fase interessante e terrível para alguns portugueses que estavam lá fora na guerra, mas o carteiro tinha uma importância fenomenal. Nas aldeias as pessoas estavam à espera do carteiro para trazer notícias”, conta.

Uma cidade em mutação

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Passo atrás de passo, José Mota calcorreou o seu giro vendo o dia a dia da cidade. Entre obras do metro junto à estação de São Bento a trabalhos de requalificação de habitações no Bonfim, entre ilhas habitadas e outras abandonadas.

Ao longo das três décadas, José Mota já entregou cartas em várias zonas da cidade. “Estive cerca sete anos na zona da maternidade, na rua Miguel Bombarda. Eu era o carteiro quando as galerias começaram a aparecer naquela zona”, lembra em conversa com o Porto Canal.

Na zona da maternidade, “antigamente havia umas ilhas, tinha 50 e tal casas, chamava-se o Bairro de Parceria e Antunes”, conta José Mota. Aquele bairro viria a ser demolido para dar lugar ao Centro Materno-Infantil do Norte, sendo os moradores realojados num novo bairro com o mesmo nome.

“Já saí da zona da Maternidade há 23 anos e depois estive uns 14 ou 15 anos em Miragaia”. Nesse giro “subia 1350 escadas e o mais bonito é que eu saí dessa zona e um mês depois começaram as obras das escadas rolantes”, lembra. Hoje, na zona da Batalha sobe outros degraus e mantém o íngreme Porto, este mais populado por turistas.

“Eu estive muitos anos em Miragaia e moravam muitas pessoas ali, muitos idosos”, conta José Mota lembrando que “quando fazia Miragaia fazia parte da comunidade, ainda hoje se lá for ainda faço parte da comunidade”.

A sua comunidade, expulsa pelo alastrar de habitações registadas como Alojamento Local, foram para outras geografias. Dados que constam do Sistema de Informação Integrado do Alojamento Local, apontam que em Miragaia há 374 estabelecimentos de Alojamento Local e 1630 habitações, o que corresponde a um rácio de 22,9%.

“Agora com o Alojamento Local despacharam as pessoas quase todas. Chego àquela zona e metade das pessoas já não existem lá. Foram principalmente para os bairros da periferia”, lamenta.

 
 
 
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