É com baldes que idosos combatem humidade de casa vizinha que pertence à Câmara do Porto
Ana Francisca Gomes
Casal de idosos vive numa habitação contígua a uma casa da Câmara Municipal do Porto, na freguesia do Bonfim, que se encontra devoluta há 15 anos. Já apresentaram diversas queixas à autarquia, que diz ao Porto Canal estar a estudar a possibilidade de realizar obras para mitigar a deterioração e risco de infiltrações. Futuro do imóvel passará pelo mercado de arrendamento acessível.
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Numa zona pacata da freguesia do Bonfim, ultrapassada a azáfama da Avenida Fernão Magalhães, os invernos são uma dor de cabeça para Justino, de 90 anos, e para a sua companheira Irene, de 86. Contígua à casa em que moram há décadas (e da qual são donos) está uma casa devoluta cujo telhado em muito mau estado arrasta água e humidade para estes seus vizinhos. O imóvel em questão é da Câmara do Porto, a quem já apresentaram diversas queixas desde o início de 2023.
A última foi precisamente na reunião de Assembleia Municipal de segunda-feira, dia 29 de julho. Após “continuar sem uma resposta”, Justino expôs a sua situação às forças políticas da cidade. “O que é que eu hei-de fazer? Aguento chuva?”, questionou, relembrando os deputados da sua idade. “A casa onde moro é minha, mas não tenho dinheiro para mandar arranjar a casa dos outros”, atirou.
Sebastião Feyo de Azevedo, presidente da Assembleia, deu-lhe a resposta esperada: disse pretender inquirir a câmara do porquê de ainda não ter existido nenhuma ação. Ao que Justino prontamente esclareceu que, após uma das suas primeiras reclamações, dois técnicos municipais estiveram no imóvel. Mas nem chaves tinham e precisaram de entrar pelas traseiras do seu jardim. Sobre o seguimento que foi dado a este assunto, de nada sabe.

A casa da autarquia. Foto: Ana Francisca Gomes | Porto Canal
Já na sua casa, construída pela Cooperativa Grupo 10 de Maio, os dois idosos explicam como sempre que chove precisam de andar de baldes a aparar a água que cai nos quartos no piso superior e como ainda há pouco precisaram de restaurar todo o telhado.
Ao lado, na casa da autarquia, um gato espreita, alerta, para a rua por um buraco. Para além de um telhado desfeito, a casa do município também já não tem a porta inteira. Vê-se, olhando para dentro, que com o tempo o imóvel se foi transformando num abrigo para dezenas de felinos. À entrada há algumas ervas daninhas - as que sobreviveram à limpeza que Irene vai fazendo. “Se eu não limpasse, ia transformar-se num matagal”, garante.
Questionada pelo Porto Canal, o município liderado por Rui Moreira esclareceu que está a par do “elevado estado de degradação do imóvel” e que está a ser estudada a possibilidade de “serem realizados trabalhos que visem a mitigação da deterioração e risco de infiltrações para as habitações contíguas”. Para já, o imóvel será transferido para a empresa municipal Porto Vivo, SRU, que pretende que o seu destino passe pela reabilitação e afetação a arrendamento acessível.

Foto: Ana Francisca Gomes | Porto Canal
