“A ponte é a nossa vida”. Jovens da Ribeira fazem as delícias dos turistas ao saltar da Ponte Luís I
Maria Leonor Coelho
Costuma dizer-se que é de pequenino que se torce o pepino e, naquele que é um dos locais mais conhecidos do Porto, o ditado assenta que nem uma luva. É por volta dos 12 anos que os jovens da Ribeira, encorajados pelo exemplo dos pais, empurram o medo para trás das costas e abraçam a aventura de saltar para as águas gélidas do Rio Douro a partir da Ponte Luís I. “Incrível, brutal e desafiante” são palavras de ordem na hora de descrever o momento que guardam eternamente na memória: o primeiro salto.
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Com os termómetros a aumentar e o calor a atrair milhares de pessoas para as ruas da Invicta, a Ribeira tem sido um dos locais mais concorridos durante as tardes de verão. Num passeio enriquecido pela melodia dos artistas de rua e pelos costumes das gentes do Norte, o olhar daqueles que caminham na calçada junto ao Douro rapidamente se desvia para os jovens empoleirados num dos principais ex-líbris da cidade portuense.
O burburinho invade a cidade pela voz dos turistas que sussurram palavras de inquietação e, num ápice, os telemóveis saltam do bolso traseiro das calças para as mãos, numa tentativa apressada de registar o momento. Lá no alto da ponte, onde o medo e a fé andam de mãos dadas, os murmúrios são outros. Um Pai-Nosso e uma Avé-Maria depois, o primeiro miúdo já mergulhou.
“É incrível a sensação de saltar da ponte, nós passamos a vida a saltar daqui”, confessou ao Porto Canal, Leonor, uma das jovens mais destemidas da Ribeira, que desvendou ainda o mistério por trás de uma das mais ilustres tradições da cidade. “Os nossos pais quando eram pequenos também já saltavam, isto passa de geração em geração”, começa por contar. Foi com os mais velhos que estes jovens aprenderam a trepar a infraestrutura, a grande maioria nunca percebeu como se volta para trás, portanto mesmo que se venham a arrepender da decisão que tomaram, só lhes resta uma alternativa: saltar.
Antes de serem dignos de pular do tabuleiro inferior, os jovens completam várias etapas. “É um processo, não dá para ir à ponte assim logo de primeira, é muita adrenalina, começámos por saltar do muro, depois do castelo e só no fim da ponte”, explicam.
No auge do verão, ainda há espaço para estreias. Foi o caso da novata Fabiana que tinha saltado pela primeira vez há pouco mais de 24 horas quando explicou ao Porto Canal a sensação. “Primeiro estava com medo, mas depois cheguei lá abaixo e correu bem, foi uma adrenalina diferente”, recorda. Sentimento partilhado também por Marisol, que deu o primeiro passo no verão passado e nunca mais conseguiu olvidar a adrenalina sentida, “estava nervosa, mas saltei, por isso agora vou sempre”, conta.
Sentados na fila da frente estão os turistas, os maiores apreciadores deste espetáculo. A cada mergulho “batem palmas, assobiam e dão-nos dinheiro”, os valores costumam variar entre os cinco e os 50 euros, contudo ninguém é obrigado a pagar, fica ao critério de cada um. “Há gente que sai daqui com 200 euros numa tarde”, contam, reforçando que não é apenas o dinheiro que os move. “É incrível a sensação de saltar da ponte, pela adrenalina e pela diversão”. No final do dia, com os bolsos mais ou menos cheios, todos asseguram o mesmo: “a ponte é a nossa vida”.
