“Fui ao mar buscar água para lavar a louça”. 14 pessoas vivem sem água e luz no parque de campismo de Cortegaça

“Fui ao mar buscar água para lavar a louça”. 14 pessoas vivem sem água e luz no parque de campismo de Cortegaça
| Norte
Catarina Cunha e Alexandre Matos

Sem acesso a água potável e eletricidade. É assim que 14 pessoas ainda vivem no parque de campismo de Cortegaça, no concelho de Ovar. Dívidas contraídas pela anterior gestão da infraestrutura estão na origem de um problema cuja solução, mais de meio ano depois, poderá chegar já no final do mês de abril.

 
 
 
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“Nunca vivi uma guerra, mas se existisse uma em Portugal já estava preparado. Cheguei a ir buscar água ao mar para lavar a louça”. O desabafo de José Folha paira no ar e só é interrompido pelo miar dos seus dois gatos que por ali passeiam à espera de colo.

Indignado, continua a relatar a sua experiência diária em busca de dois bens essenciais: água e eletricidade. “Tenho que ir comprar água e buscar gasolina para alimentar um gerador. Além do dinheiro que gasto, tira-me um certo conforto”, conta-nos o idoso de 71 anos, recordando as centenas de euros gastas em combustível.

Este conjunto de ações tornou-se rotina para as 14 pessoas que vivem no parque de campismo de Cortegaça, em Ovar. Tal como o Porto Canal noticiou em julho do ano passado, o espaço foi gerido durante dez anos por uma administração provisória que contraiu dívidas na ordem dos milhares de euros, o que levou aos corte no abastecimento de água e luz. Em setembro de 2023, a Junta de Freguesia de Cortegaça passou a ser a entidade responsável pela infraestrutura, altura em que encerrou o espaço para obras de reabilitação.

Desde aí, os campistas procuram formas de viver com dignidade em pleno século XXI. E a mãe- natureza dá “uma ajuda”. Por isso, José Folha, natural de Espinho, recorre à água da chuva para “lavar a louça”.

À porta da sua caravana, a que apelida de “casa” e partilha com a sua companheira, praticamente “24 horas por dia”, veem-se antigos caixotes de lixo a serem convertidos em baldes repletos de “água limpa” e garrafões de água a ladear os “corredores” como se de decoração se tratasse. Há ainda, couves e flores da época a nascer numa pequena horta, que dão cor e camuflam o sentimento que por ali reside.

Porto Canal

As escassas condições que o parque oferece obrigaram o septuagenário a levantar paredes para “construir” uma cozinha que está apetrechada com um grelhador e um fogão portátil, que funcionam com recurso a um gerador. Esse equipamento só é ligado para confeccionar as refeições e para abastecer uma pequena arca frigorífica, onde o “Sr. Folha” guarda os alimentos. A higiene pessoal é feita à moda antiga, “de baldes com água aquecida”.

Quando cai a noite, a solidão instala-se. Ligar a televisão ou navegar pela internet são atos impensáveis, com a falta de eletricidade a ter até impossibilitado José de ver o seu conterrâneo Luís Montenegro a tomar posse como primeiro-ministro. “O primeiro-ministro é da minha terra e nem sabia que tinha sido empossado. E, porquê? Porque não tenho condições”, atirou, revoltado.

Por vezes a única opção é desligar o telemóvel durante o dia, apenas para poupar bateria e assim conseguir “ver um pouco televisão, ou estar nas redes sociais, antes de ir dormir”.

“Não tenho condições de viver numa casa”

José Folha faz do Parque de Campismo de Cortegaça o seu “código postal” desde janeiro de 2023, já que a escassa reforma não lhe permite ter condições económicas para “viver numa casa”. Apesar das circunstâncias, o idoso garante ter os requisitos mínimos de habitabilidade.

“Não estou aqui como um coitadinho. Estou com um stress (...) a única coisa que queria era pagar” para ter acesso a água e luz, confessa, lembrando que aquelas ‘quatro-paredes’ são a sua vida e não tem hipóteses para movê-las.

Sem acesso a dois bens essenciais, o campista paga apenas a taxa de ocupação do espaço, no valor de 102 euros.

Perante este cenário, José Folha assegura que as respostas da Junta de Freguesia têm sido nulas. Até ao momento recebeu apenas uma visita de uma assistente social, que lhe apresentou “promessas” de um possível arrendamento.

O Porto Canal chegou à fala com outros residentes, que não quiseram partilhar o seu testemunho por medo de represálias.

“Não somos um albergue, isto é um parque de campismo”

Em declarações ao Porto Canal, Sérgio Vicente, Presidente da Junta de Freguesia de Cortegaça, confirmou ter conhecimento das circunstâncias em que residem os 14 campistas que já foram sinalizados pela divisão de ação social da Câmara Municipal de Ovar, para que “possamos tentar realojá-los, onde for possível”.

O responsável pelo espaço defende que não é permitido por lei habitar num parque de campismo e reforça o comportamento “tolerante” da junta. “Podíamos ter encerrado o parque e colocar toda a gente na rua, mas não o fizemos, porque tivemos a consciência e sensibilidade que havia pessoas que não tinham para onde ir”, justifica.

O governante estima que o abastecimento de água e eletricidade fique resolvido “até ao final do mês de abril, ou início de maio, o mais tardar”. A junta local realça ainda que o Centro Comunitário de Esmoriz tem prestado apoio social aos 14 habitantes.

José Folha despede-se da equipa do Porto Canal com um dos seus ‘bichos’ aos pés, sem esperanças que as condições em vive sejam rapidamente resolvidas. Segue sozinho para o interior do seu “lar ao ar livre” para lavar a louça do almoço.

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