A "tia Nanda da Sé", a mais conhecida vendedora de Santa Catarina

A "tia Nanda da Sé", a mais conhecida vendedora de Santa Catarina
Foto: Pedro Benjamim | Porto Canal
| Porto
Pedro Benjamim

Maria Fernanda da Silva, a conhecida ‘tia Nanda da Sé’, é uma das mais antigas moradoras daquele bairro tradicional do centro do Porto, mas é presença assídua na rua de Santa Catarina.

Vive no bairro da Sé desde que nasceu, a 27 de setembro de 1953. “Nasci aqui na travessa de Santana”, diz ao Porto Canal.

Porto Canal

Mais tarde viria a mudar-se para a Rua de Santana, a escassos metros da casa onde nasceu. A poucos dias de celebrar os 70 anos, que está a festejar esta quarta-feira, esteve à conversa com o Porto Canal. “Vou passear com o meu careca”, o marido da tia Nanda, com quem vive, além dos seus dois gatos, “o Salvador e o Vicente”.

Tia Nanda, como é carinhosamente chamada por quem a conhece, começou desde cedo a vender na rua. Porquê? “A miséria filho”, responde.

“Eu tenho a minha idade e não tenho reforma, porque nunca descontei, sempre vendi na rua”, conta Maria Fernanda.

É hoje presença assídua na rua de Santa Catarina, mas já vendeu noutras geografias do Porto. “Comecei a vender esticadores para os colarinhos, que se metia nas camisas”, afirma. “Eu vendia preservativos, sem saber o que eram preservativos. Era uma prata amarela e eu era uma menina, mas depois comecei e fiz-me mulher e não estou nada arrependida” diz a vendedora que celebra esta quarta-feira 70 anos.

“Eu trago sempre dinheirinho para a comida”

Em conversa com o Porto Canal, Nanda da Sé revela que já teve ofertas de emprego, mas nunca abandonou a venda ambulante. “Muita gente me metia a trabalhar, mas eu pensava que precisava de dinheiro todos os dias e a trabalhar não tinha dinheiro todos os dias e a vender eu tinha dinheiro todos os dias”, conta.

“Quando vinha o 1º de Maio eu ia para o Covelo arrancar maias, amarrava aquilo tudo no lençol e vinha com aquilo tudo às costas para Santa Catarina a pé. Passava noites assim a arrancar e vendia as maias. É que fazia dinheiro”, lembra a vendedora.

Uma tradição antiga que leva os portugueses a colocar estas flores, na noite de 30 de abril para o dia 1 de maio, nas portas ou janelas das suas casas para afastar o mal. “As maias é aquilo que se bota nas portas no 1º de maio”, explica. “São umas flores que nascem no monte, que nascem na rua… amarelas”, diz Nanda.

“Vendia cada bocadinho a um euro. É que fazia dinheiro”, recorda a mulher que vende nas ruas do Porto há várias décadas.

Porto Canal

Há mais de três décadas a vender em Santa Catarina, Nanda da Sé já passou por outros pontos de referência do Porto. “Já vendi na estação de São Bento, quando era fruta. Morangos, outro dia vendia uvas, bananas”, lembra.

“Já estou em Santa Catarina há mais de 30 anos, já me deu as dores do meu filho mais novo que tem 39 anos em Santa Catarina”, refere Maria Fernanda, mãe de quatro filhos. “Vivos tenho três, faleceu-me um, tinha quatro”.

Hoje em dia vende de tudo um pouco. “Quando chove é guarda-chuvas. É meias, é boxers, panos de cozinhas é fatos de treino, meias de desporto, toalhas de mesa, toalhas de banho. É o que me pedirem”, enumera.

“O cliente? É Português. O estrangeiro [compra mais] guarda-chuvas. Quem me compra são as meninas que trabalham nas lojas, as meninas que trabalham nos cafés”, refere Nanda da Sé que vende em Santa Catarina.

Alguma vez pensou deixar de ir vender a Santa Catarina? “Nunca na vida”, responde Maria Fernanda sem hesitar.

“Eu tenho ali as minhas raízes todas, as minhas amizades, os meus amigos. O meu São João é mais com pessoas de Santa Catarina do que aqui da Sé”, atira.

Acarinhada por muitos em Santa Catarina, Nanda da Sé destaca a relação com o café Majestic. “Vou sempre de manhã tomar um cafezinho com eles, que são muito meus amigos”, mas se houver um dia em que não apareça “passado uma hora estão-me a ligar: Tia Nanda onde está?”

“Como vês eu era muito bonita! Agora sou velhota”

Maria Fernanda nasceu e vive a poucos metros do Convento dos Grilos, zona por onde passou muitos dias da infância. O dia da comunhão foi um dos que lhe ficou gravado na memória. No bairro da Sé lembra uma vizinha com a mesma idade, a São, “fizemos a comunhão juntas, aqui nos Grilos”.

“Nós tínhamos missa todos os domingos e quando morria alguém a missa do sétimo dia era aqui, a missa do mês e a missa do ano. Eu fiz a do meu filho aí também”, lembra Maria Fernanda.

Apesar de ter vivido naquela igreja um dos dias mais escuros, é também daquele lugar que traz memórias ainda mais antigas que recorda com saudade.

“Tínhamos aqui um ATL para estudar, já no meu tempo. Onde é este largo [Largo do Colégio] tínhamos um ATL para estudar quando vínhamos da escola e o padre Coelho dava-nos um leite em pó com pão com queijo amarelo. Era o padre Coelho que nos dava isso tudo e o padre Justino, os dois padres que foram muito amigos aqui da Sé”, conta ao Porto Canal acrescentando: “Tu não vês filho, que eu sou tão feliz”.

“Quando foi a minha comunhão a minha mãe não tinha dinheiro para o vestido”, lembra. Foi, juntamente com uma amiga que já faleceu, “Deus a tenha no céu!”, desabafa Maria Fernanda, enquanto partilha a história da infância.

“Fomos a pé até ao Perpétuo Socorro na Costa Cabral, buscar um vestido emprestado. Fui para o fontanário lavá-lo, fui comprar três tostões de farinha para fazer na bacia para engomar com o ferro” lembra uma das mais antigas moradoras da Sé e uma das mais conhecidas figuras da cidade do Porto.

Porto Canal

“Depois arranjou-se meias brancas, arranjaram-me o cabelinho, que eu tinha o cabelo muito aos caracóis, muito grandes”, diz a conhecida Nanda da Sé. “Como vês eu era muito bonita! Agora sou velhota”, diz.

A busca pelos sapatos foi uma outra peripécia. Maria Fernanda foi ao encontro da madrinha porque não tinha sapatos para a comunhão. A madrinha era mãe da ‘Zira’, uma vizinha de longa data, mais velha dois anos.

“Eu fui ter com a minha madrinha e disse-lhe: Madrinha eu não tenho sapatos para ir à comunhão. E ela disse: não faz mal, tenho os da comunhão da Zira do ano passado, estão novinhos na caixa e vou-tos emprestar”, contou ao Porto Canal.

No dia da comunhão lembra um momento que não esqueceu e que ditou o futuro de uma relação. A ‘Zira’, dona dos sapatos disse: “Oh menina Nanda dá-me os sapatos que são meus”, conta Nanda. “Tirei os sapatos e fiz a comunhão de meias, mas doeu. Deixei de ser amiga dela por completo”, desabafa ao Porto Canal.

“A mãe dela era minha madrinha, como a minha mãe morreu eu apoiei-me um bocadinho na mãe dela e na minha avó”, conta.

“As minhas amigas de pequena são as minhas amigas atualmente, que me respeitam e gostam de mim. Eu sei que tenho um feitio atravessado, mas sou muito correta naquilo que digo, sou muito sincera naquilo que digo. Tenho os maiores amigos do mundo”, termina Nanda da Sé.

 
 
 
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