Vai nascer um complexo residencial no terreno do antigo centro emissor do Rádio Clube Português, em Gaia
Fábio Lopes
A antiga estação emissora do Rádio Clube Português, em Miramar, na marginal de Vila Nova de Gaia, desativada há vários anos, poderá ter agora nova vida. Foi submetida uma proposta de privados, na Câmara de Gaia, com vista à constituição de 46 lotes destinados a um complexo residencial.
O desaproveitamento e abandono do terreno de 27 mil metros quadrados e do edifício que o compõe não passa despercebido e é motivo de contestação por parte de moradores. Cenário que poderá mudar, visto que a autarquia liderada por Eduardo Vítor Rodrigues refere que já deu entrada uma proposta que prevê a constituição de 46 lotes destinados a habitação unifamiliar, “com dois pisos acima da cota de soleira e terceiro piso eventual".
É também indicada a "cedência ao domínio público de áreas verdes, vias de circulação pedonal, vias de circulação rodoviária e estacionamento público". Recorde-se que o terreno foi vendido pelo Estado, em 2016, ao empresário flaviense António Fontoura por 1,75 milhões de euros para no ano seguinte dar entrada na Câmara de Gaia um pedido de informação prévia (PIP) para a construção de uma unidade hoteleira no local. O pedido acabou recusado, prolongando a incerteza em volta da propriedade.
Mais recentemente, em 2020, a área junto à marginal de Gaia, foi colocada à venda, num site dedicado ao imobiliário por um valor significativamente superior: 12,3 milhões de euros - sete vezes mais do que o preço original.

Contornos do negócio
A disparidade de valores, entre a alienação por parte do Estado e o montante pedido em 2020, causou espanto e a temática foi alvo de escrutínio por parte da Comissão Parlamentar de Cultura e Comunicação, na Assembleia da República.
Gonçalo Reis, à altura presidente do conselho de administração da RTP, sublinhou que a venda daquele terreno foi “um processo de racionalização de imobiliário” e explicou que todos os processos de venda de património e bens da RTP, incluídos nos planos de atividades, foram efetuados “com toda a transparência”.
Contactado pelo Porto Canal, António Fontoura revela os contornos do negócio.
"O terreno foi comprado em leilão em 2016. O terreno estava à venda com um preço base de 900 mil euros, sujeito a ofertas em carta fechada. Nós (Flavigrés) fizemos proposta para comprar a propriedade. Mais tarde, a RTP suspendeu a venda porque percebeu que o valor do terreno estava baixo", explica o construtor civil. Semanas depois o imóvel voltou ao mercado por um preço base de 1,32 milhões de euros e António Fontoura fez a oferta mais alta.
O empresário flaviense salienta, contudo, que o terreno na altura não era urbanizável, por falta de aprovação do Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC), que, entretanto, recebeu luz verde. Ainda assim, António Fontoura defende que o projeto depende ainda do PIP, que de acordo com a Câmara de Gaia se encontra em “tramitação”.
As raízes do edifício
O Rádio Clube Português, fundado em 1931, resultou do crescimento do Rádio Clube da Costa do Sol, CT1DY, propriedade de Jorge Botelho Moniz, oficial do Exército que tomou parte no 28 de maio de 1926.
Durante o Estado Novo, o RCP acabou por tornar-se uma estação de referência, sendo que em 1953, requereu autorização para instalar uma rede de estações de televisão, o que deu origem à Radiotelevisão Portuguesa (RTP). O RCP era o maior acionista da RTP a seguir ao Estado.
Em dezembro de 1955, um novo emissor de ondas médias de 100 quilowatts chegava a Miramar. Nascia então o Centro Emissor Alberto Lima Basto (nome dado como homenagem ao segundo presidente da Rádio Clube Português).
O emissor de Miramar ficava entre as 18 estações de maior potência das 650 existentes na Europa. O seu aparecimento deveu-se ao facto de, até então, as emissões que chegavam ao Norte do país dependiam na sua totalidade de Lisboa. Um importante marco para o Norte do país que aqui teve um importante escudo difusor.
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