Estudantes muçulmanos do Porto celebraram o fim do Ramadão
Porto Canal/Agências
Estudantes muçulmanos a viver no Porto assinalaram esta sexta-feira o Eid al-Fitr, a celebração do final do Ramadão, que durante o último mês os levou a cumprir jejum e a orar, em casa ou na mesquita, virados para Meca.
“No início é sempre um pouco mais difícil, não é? É sempre desafiante e é uma coisa nova na nossa vida. Agora já é mais tranquilo.”, disse à Lusa Ayoub Leghrissi, estudante de engenharia mecânica no Instituto Superior de Engenharia do Porto, que aos 20 anos cumpriu o seu quinto Ramadão.
Para Ayoub, estar de jejum não afeta muito a sua rotina, mas considera-se sortudo por este ano o Ramadão não calhar em período de avaliações na faculdade.
“Se fosse numa época de exames talvez notasse diferença, porque o estudo é mais difícil. Não se bebe água, não se come… É sempre mais difícil estudar porque vontade não há mesmo”, apontou.
É também com o termo “sorte” que Nazmul Hazari, estudante de engenharia informática na Universidade Lusófona, se referiu à época de exames.
Para já, tem muitos trabalhos e pensa na possibilidade “de adiar alguns”, mas não é algo que o vá “afetar muito”.
Nazmul falou à Lusa na quinta-feira e último dia do Ramadão, à porta da mesquita improvisada Hazrat Hamza, no último andar de uma casa na travessa do Loureiro, onde muitos crentes o iam cumprimentando e entrando para o local de culto, já de chinelos para facilitar o processo de tirar os sapatos no meio da confusão das pessoas.
“O Ramadão, embora que pareça ser bastante complicado e algo difícil, é simples. É só uma pessoa mudar a intenção para o dia. (…) Quando temos uma boa intenção, fazemos boas coisas. E aqui é a mesma coisa. Se nós tivermos a intenção de aguentar todo o dia sem comer, sem beber, sem fazer coisas más, a fazer tudo bem, o dia vai correr bem”, contou o estudante de 19 anos, com o tom próprio de quem fala sobre o que acredita.
Apesar das circunstâncias, Nazmul sente que durante o Ramadão a sua rotina até melhora e, por vezes, pode ser mais produtivo.
“Temos aquelas horas do pequeno-almoço, almoço e jantar… e em vez de estarmos a comer, estamos a trabalhar. Por isso, é uma vantagem”, explicou.
Já Esha, que tem 17 anos e aos 4 veio do Bangladesh para Portugal, falava à Lusa na quinta-feira, quando na loja dos pais, junto à mesquita, esperava pela hora do Iftar, a refeição com que se quebra o jejum.
Para a jovem estudante, a pior parte deste período é não poder faltar às aulas no dia de celebração do Eid-al-Fitr, ainda que, o artigo 16.º, alínea h do Estatuto do Aluno e Ética Escolar, publicado em Diário da Républica e consultado pela Lusa, refira que é possível justificar faltas devido a questões religiosas, desde que esta seja uma “prática comummente reconhecida como própria dessa religião”.
“Como aqui nós não temos aquele feriado, é muito mau no dia do Eid ir para a escola. Nem existe a justificação para dar na escola por ter faltado, é muito mau.”, explicou.
Esha tem a ideia de que “decerto” muitos dos seus colegas nem sabem que é muçulmana, visto que na escola foi aconselhada a não usar o hijab (véu islâmico), que evidencia a sua religião.
“Na escola não é muito permissível. A minha DT [diretora de turma] disse que podia usar. Mas a outra professora disse que não podia usar, porque como estou aqui num país católico tenho de me habituar e adaptar aos costumes deste país”, acrescentou.
Esta situação não é única, tendo em conta que já na antiga escola que Esha frequentou não a deixavam usar o véu. “Era não e ponto final”, descreveu.
Tanto Ayoub, como Nazmul consideram que os seus amigos e colegas estão bastante “cientes” de que fazem jejum e têm sempre essa situação em atenção.
“No início, no primeiro dia, eles [os colegas] até pensaram que eu não vinha às aulas, porque tinha de acordar às quatro da manhã”, disse, entre risos, concluindo que essa questão nunca se colocou.
Centenas de mulçumanos concentraram-se esta manhã no jardim da cobertura da estação do metro da Trindade, no Porto, para marcar o fim do Ramadão, nono mês do calendário islâmico – que se baseia nas fases da lua e tem 354 ou 355 dias –, período durante o qual, desde a aurora até ao pôr do sol, os fiéis praticam o ritual do jejum, não sendo permitido comer, beber, fumar ou ter relações sexuais.
