Fármaco para hiperatividade foi o medicamento mais prescrito na faixa etária dos 10 aos 14 anos
Porto Canal
O metilfenidato, indicado no tratamento da perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA), trata-se de um medicamento comercializado sob a designação de Ritalina, Concerta e Rubifen. Esta foi a substância ativa mais prescrita em 2021 na faixa etária dos 10 aos 14 anos. Num total de quase 170 mil embalagens, metade do total prescrito naquele ano em pediatria até aos 19 anos.
Os dados são da Autoridade Nacional do Medicamento e mostram que, desde o pico registado em 2014, a dispensa total caiu 30%. Segundo o Infarmed, nos 10-14 anos, à prescrição de metilfenidato, segue-se montelecaste (usado para o tratamento da asma) e em terceiro lugar o ibuprofeno.
Em nenhum dos restantes grupos, dos 5 aos 9 anos e dos 15 aos 19 anos, o metilfenidato surge na lista das três principais substâncias ativas mais prescritas. "É o período em que as crianças apresentam mais hipercinesia, que pode tornar-se prejudicial na atividade escolar", afirma Maria do Carmo Santos, diretora da Unidade de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital de São João, ao Jornal de Notícias.
Por outro lado, Maria do Carmo Santos afirma que se trata de uma "medicação de uso diário, durante o período da escola", enquanto o paracetamol ou o ibuprofeno "só se toma quando há um quadro infeccioso". A PHDA tem "um quadro bastante prevalente e frequente, à volta dos 10%". Estes dados não chocam nada o presidente da Sociedade Portuguesa de Défice de Atenção que afirma que "o metilfenidato não se toma três dias do ano".
Ao Jornal de Notícias, José Boavida Fernandes recorda que quando o assunto chegou ao Parlamento, os números indicavam que "não chegavam aos 2% as crianças em idade escolar que estariam medicadas, um "número bastante inferior ao que se verifica na maior parte dos países ocidentais". Para Guiomar Oliveira, presidente da Sociedade de Pediatria do Neurodesenvolvimento, "não é aceitável que se prescreva um psicofármaco com tanta frequência; haverá assim tantos problemas de comportamento?".
Em 2020, por conta da pandemia e do ensino à distância, o confinamento de milhares de crianças levou o consumo a cair 20% face a 2019. "Houve menos necessidade porque havia menos tempo de escola em casa, um ambiente mais controlado, menos fatores de distração e muitas famílias deixaram de sentir que fosse necessário a medicação", explica Maria do Carmo Santos.
