Especialista alerta que paragem na obra do túnel do Marão levanta problemas técnicos
Porto Canal
O professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto António Topa Gomes defendeu hoje que o avanço da construção do túnel do Marão tem que acautelar os problemas técnicos provocados pela suspensão das obras durante vários anos.
"São problemas técnicos associados ao facto de os suportes [de terras e pedras] serem provisórios e o tempo ter ultrapassado em muito o tempo de um suporte provisório. Naturalmente, o projeto tem que acautelar todos esses problemas técnicos, ou seja, o avanço e a entrada em túnel só podem ser feitos depois de serem executadas medidas de suporte que garantam a segurança dos trabalhadores", disse.
António Topa Gomes, que foi coordenador de projeto de geotecnia e estruturas na Normetro no âmbito da obra do metro do Porto e tem trabalho desenvolvido como consultor na área da intervenção e consolidação de solos, falava à Lusa à margem do 3.º Seminário Internacional da Comissão Portuguesa de Túneis e Obras Subterrâneas (CPT) da Sociedade Portuguesa de Geotecnia (SPG).
O presidente do Sindicato da Construção do Norte, Albano Ribeiro, alertou recentemente em conferência de imprensa para o facto de a obra do túnel do Marão não ter "quaisquer condições de segurança para avançar".
É que, explicou o dirigente do sindicato, "a pregagem feita nos túneis, para sustentar as pedras, foi preparada para meses, não para anos", pelo que, estando a obra parada desde junho de 2011, "não se pode ir trabalhar sem que se consolide a entrada".
"Os túneis não podem começar sem que se tomem medidas para que não haja deslocação de terras e pedras de grande dimensão que possam provocar acidentes mortais", alertou.
Questionado hoje pela Lusa, António Topa Gomes considerou que "a situação em si mesma não é mais difícil do que construir um túnel de raiz, novo".
"Diria que esses problemas existem, mas são problemas associados às dificuldades e ao perigo de construir um túnel, o que hoje em dia se faz com níveis de segurança adequados. Construíram-se, nestes anos todos, quilómetros e quilómetros de túnel sem acidentes de maior", frisou.
Não estando envolvido no projeto, o especialista em geotecnia explicou que "um dos problemas dos tuneis em rocha é precisamente a instabilidade", mas "executam-se medidas de suporte provisórias (na fase de construção e de toda a operação) de forma que os trabalhadores possam fazer os trabalhos com segurança. Isso acontece em qualquer túnel".
"O que acontece é que de facto agora a situação tem de ser corrigida atendendo a uma situação diferente do projeto inicial, mas creio que por isso é que a Estradas de Portugal obrigava os concorrentes a estudarem esta situação e adaptarem o projeto a esta nova realidade. Penso que essa era uma das condições requeridas para a avaliação dos concorrentes nesta fase", acrescentou.
O anúncio do lançamento dos três concursos públicos que vão permitir retomar a construção da Autoestrada do Marão, num valor base de 204 milhões de euros, foi publicado a 28 de fevereiro passado em Diário da República, tendo o prazo para entrega das propostas relativas ao túnel terminado a 20 de maio e as respeitantes aos acessos nascente e poente alguns dias antes.
A construção da Autoestrada do Marão parou a 27 de junho de 2011 e, dois anos depois, a obra foi resgatada pelo Estado, que invocou justa causa fundada no incumprimento por parte da concessionária.
A Somague, que liderava o consórcio responsável pela construção da autoestrada, refutou e disse ter sido a própria concessionária, e não o Estado, a rescindir o contrato "por incumprimentos vários do concedente".
Segundo o Governo, a Autoestrada do Marão deverá abrir em toda a sua extensão no início de 2016, sendo que o projeto permite a conclusão da ligação da autoestrada A4 Porto-Amarante à autoestrada da subconcessão Transmontana Vila Real-Bragança.
