Covid-19: Impreparação para segunda vaga "pode levar a recessão ainda maior" -- Álvaro Santos Pereira

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Porto Canal com Lusa

Lisboa, 17 abr 2020 (Lusa) -- O economista Álvaro Santos Pereira diz que os países têm de estar preparados para uma segunda vaga da pandemia covid-19 porque, se não o fizerem, a recessão económica pode ser ainda maior do que a projetada pelo FMI.

Em entrevista à agência Lusa, o diretor de estudos específicos por país do departamento de Economia da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) diz que as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), que apontam para uma queda em Portugal de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) e uma taxa de desemprego de 13,9% em 2020, vão em linha com o que a OCDE já previa, mas são um cenário central.

"O que os números do FMI mostram claramente é que no melhor dos cenários vamos ter a maior recessão mundial, pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial, talvez mesmo desde a Grande Depressão", sublinha o economista.

Ainda assim, o antigo ministro da Economia no governo liderado por Pedro Passos Coelho alerta para que se não se conseguir arranjar um tratamento eficaz contra o vírus rapidamente "é muito possível que se verifique um cenário de uma segunda vaga [da pandemia] daqui a uns meses em muitos países" e, se for esse o caso, é essencial estar preparado.

"Se isso acontecer, o que interessa é estarmos preparados para minorar o impacto. Se tivermos outra vez os países não tão preparados como deviam, sem os meios de proteção, não só dos profissionais de saúde, mas também das populações, é muito provável que esta pandemia possa causar uma recessão ainda maior", alerta o economista.

Álvaro Santos Pereira diz ainda que a confiança total só regressará aos agentes económicos quando houver uma vacina ou um tratamento eficaz para a pandemia, e que, até lá, a recuperação da atividade económica não será igual em todos os setores.

"Se conseguimos um tratamento eficaz, a confiança vai voltar. E quando isso acontecer vamos reagir de uma forma bastante forte. E a economia vai recuperar", mas enquanto isso não acontecer, haverá setores que "vão continuar com negócios, no mínimo, muito reduzidos", adverte o economista, exemplificando que áreas como a dos cruzeiros, a aviação, o turismo ou a restauração "vão continuar a ser bastante afetadas".

Álvaro Santos Pereira diz esperar que as previsões agora conhecidas estejam erradas e que a realidade mostre uma recessão menos profunda e uma recuperação mais rápida. Mas lembra que os números que vão sendo conhecidos um pouco por todo o mundo "não são animadores".

"Estamos a falar, por exemplo, nos Estados Unidos", refere o economista, que num mês viu mais de 22 milhões de americanos a cair numa situação de desemprego.

"O desemprego em quatro semanas aumentou mais do que a recuperação de toda a criação de emprego nos últimos 10 anos. Em quatro semanas destruíram-se mais empregos do que se criaram em dez anos. E a economia tem estado numa expansão contínua nos últimos dez anos", explica o antigo ministro.

"Estamos a falar de magnitudes e uma rapidez que não conhecíamos até agora, portanto, é muito provável que, quer em Portugal, quer na Europa, ou noutros países, infelizmente, os cenários sejam muito realistas. Ainda há muita incerteza, mas recessões acima de 5% quase de certeza que vão acontecer", lamenta o economista.

O responsável por um dos departamentos da OCDE exemplifica ainda com outros dados: se a recessão em Portugal atingir os 8%, como prevê o FMI, será uma queda maior à registada "durante todo o período da 'troika'".

"Obviamente, também estamos à espera, se tudo correr bem, de uma recuperação da economia muito mais dinâmica. Mas obviamente isto vai gerar muito desemprego, falências de empresas e obviamente vai causar-nos bastantes problemas ao nível do défice e da dívida", conclui.

O "Grande Confinamento" levou o FMI a fazer previsões sem precedentes nos seus quase 75 anos: a economia mundial poderá cair 3% em 2020, arrastada por uma contração de 5,9% nos Estados Unidos, de 7,5% na zona euro e de 5,2% no Japão.

VC // CSJ

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