O governante que "dormiu" com o povo da Ribeira Quente para transmitir segurança

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Porto Canal com Lusa

Povoação, Açores, 29 out (Lusa) -- O presidente do executivo dos Açores em 1997, Carlos César, ainda não completara um ano de governação quando ocorreu a tragédia da Ribeira Grande, a 31 de outubro, que o pôs à prova.

"Fui acordado pelo segurança do Palácio de Santana [sede da presidência do Governo Regional] que foi à minha casa. Telefonaram-me, eu não atendi de imediato e ele foi lá, ao meu quarto de cama, porque tinha as chaves da casa. Acordou-me e disse que tinha havido um acidente na Ribeira Quente", disse em entrevista à agência Lusa Carlos César, que fizera 41 anos no dia anterior.

Logo depois começou a organização da resposta à catástrofe que deixou a freguesia do concelho da Povoação isolada, como se fosse uma ilha dentro da ilha de São Miguel, à qual só se chegava por via aérea.

Foi assim que Carlos César chegou à Ribeira Quente, onde frequentemente passava férias e, por isso, conhecia muitas das pessoas vítimas da tragédia e respetivas famílias.

No sobrevoo de helicóptero antes da aterragem, o presidente do Governo Regional percebeu a dimensão: "toneladas e toneladas de lama que arrasaram algumas casas" e "cobriram por completo uma área vasta".

"Não só aconteceu essa derrocada, como simultaneamente tivemos uma cheia da ribeira com consequências no acesso à freguesia e também uma tempestade de mar, o que impedia o acesso por via marítima", recordou.

A preocupação imediata foi o acompanhamento das operações, "acautelando que elas fossem feitas com cuidado, visto que estavam ali pessoas soterradas e era necessário ter o respeito que já se impunha nessa ocasião, visto que a improbabilidade de alguém estar com vida era total".

Neste trabalho, Carlos César destacou que foram muito importantes os presidentes da junta, Carlos Moniz, e da câmara, Carlos Ávila, e o pároco, Silvino Amaral, reconhecendo que teve lágrimas, acompanhada de um "sozinho".

"A minha função era assumir a coordenação, estando presente, sem atrapalhar no plano técnico aquilo que tinha de ser decidido, mas ter simultaneamente a frieza necessária para a decisão, a sensibilidade necessária para acompanhar as pessoas e procurei fazer isso com o profissionalismo que se exigia à natureza das minhas funções", salientou.

Carlos César adiantou que nesse dia "havia um grande temor", com as pessoas a querer "sair à força da Ribeira Quente porque, como prosseguia a tempestade", achavam que o que aconteceu naquele talude iria replicar-se.

"Decidi dormir na Ribeira Quente, o que fiz durante toda a semana, isso também num sinal de transmissão de confiança", lembrou.

É de uma dessas ocasiões que guarda, com ternura, uma imagem: "Estava a dormitar numa cadeira acordei sobressaltado quando estavam a pôr uma manta por cima. Uma senhora a dizer 'coitadinho, ele está tão frio'".

E há o inverso: "Uma senhora que protestou aos gritos quando eu lhe fui entregar uma casa nova. Ela vivia numa casa com chão de terra e protestava por não ter o espaço suficiente na casa de banho para uma máquina de lavar roupa e eu fiquei muito zangado com ela e não pude deixar de dizer isso a ela com todo o arsenal verbal de que me lembrei".

Volvidos 20 anos, "curadas as feridas", Carlos César adiantou que "a sensação melhor de todas" é ter sido feita uma reabilitação e renovação de todo o espaço urbano, habitacional, de lazer e das atividades económicas, como o porto.

E a partir da tragédia? "Nunca dei um passo sem um telefone atrás. Inclusive, numa determinada fase dormi com um telefone satélite ao lado da minha cama. E fiz isso até sair do governo, em 2012", contou.

SR // MCL

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