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"Lulu", a tragédia de uma mulher livre, em cena no Teatro Carlos Alberto no Porto

| Norte
Porto Canal com Lusa

Porto, 13 jun (Lusa) -- "Lulu", uma peça de teatro criada a partir de duas peças do dramaturgo alemão Frank Wedekind, explora a história trágica de uma mulher livre ao longo da vida, e estreia-se hoje, no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

Inserida na programação do Festival Internacional de Teatro Ibérico (FITEI), que decorre até dia 22 de junho, no Porto, a peça estreia-se hoje, pelas 21:00, e coloca em cena a "monstruosa" obra de Wedekind, como foi descrita, com a história de "ascensão e queda" de Lulu, uma mulher cuja liberdade confronta o patriarcado, a sociedade vigente e o capitalismo.

Wedekind, conhecido também por "O Despertar da Primavera", escreveu duas peças centradas na personagem de Lulu - "Espírito da Terra" (1903) e "A Caixa de Pandora" (1904) -, e a encenação de Nuno M Cardoso coloca em cena cinco dos sete atos deste ciclo, a partir da tradução de Aires Graça.

A produção do Teatro Nacional São João (TNSJ) assenta numa versão dramatúrgica própria das muitas existentes, uma vez que o alemão as reescreveu várias vezes, além de também ter sido alvo de censura. E mostra "uma história de ascensão e queda, uma tragédia, tanto nas várias formas que a peça tem, como na vida de Lulu", descreveu à Lusa o encenador.

A jovem alemã começa na rua, antes de ser acolhida por Dr. Schon, que lhe dá comida, albergue e educação, lançando a personagem para uma vida em que confronta a própria liberdade, com a vontade dos vários homens com quem se cruza.

"Aí começa a sua ascensão social e de vivência, e Lulu vai casando com vários homens e continuando a ascender. Cada homem vai morrendo, o primeiro por ataque cardíaco, o segundo por suicídio e, depois, é condenada pelo homicídio de Dr. Schon", continuou Nuno M Cardoso.

Escapa da prisão para viver, então, em Paris, no seio da alta burguesia, com o apoio de uma condessa que por ela se apaixonou, mas, devido a um "grupo de hienas e abutres a fazer-lhe chantagem contínua, Lulu tem de fugir novamente".

Chega a Londres sem meios e acaba por ter de se prostituir nas ruas da capital londrina, sendo assassinada pelo infame Jack, o Estripador, quando trabalhava para alimentar dois homens, um deles o filho do Dr.Schon.

A história, que o dramaturgo inglês Edward Bond descreveu como sendo "sobre sexo, dinheiro e morte", reflete de forma particular como "o capitalismo se vai alimentando de todas as personagens", e apresenta momentos de previsão.

"Em Paris, a bolsa [de valores] cai e leva à ruína quase todos os que estão na alta burguesia e na aristocracia, o que é uma previsão do Wedekind da queda das bolsas, que veio depois a acontecer", reforçou o encenador, numa alusão à crise dos mercados financeiros, de 1929, que levou à Grande Depressão.

A história trágica de Lulu mostra ainda "a necessidade de a sociedade capitalista destruir esta mulher, porque representa a liberdade de existir, a liberdade sexual e a liberdade da própria mulher".

A encenação divide a peça em "três blocos formais", atravessando as cidades de Berlim, Paris e Londres, com três intérpretes diferentes para as distintas fases da vida da personagem principal.

"A nível de estilo, interpretação, cenografia, luz, som, é quase como se fossem três espetáculos diferentes. São três momentos distintos na idade e na história da Lulu, e o texto em si é também diverso. Por outro lado, queria representar a Lulu não como personagem mítica, mas como podendo ser qualquer mulher, refletindo essa liberdade", disse Nuno M Cardoso à Lusa.

Por outro lado, "o próprio Wedekind propõe alguma fragmentação", já trazendo influências que viriam a marcar o teatro pós-dramático e o expressionismo, posteriores à sua primeira encenação.

A violência e questões da liberdade sexual e da mulher estão refletidas na própria forma como o espetáculo é encenado, com Nuno M Cardoso a assumir um papel na própria encenação, à semelhança de Wedeking, que interpretou Jack, o Estripador, na produção original.

Há em "Lulu" um "discurso feminista que Wedekind já afirmava no final do século XIX, bem como várias lutas do século XX e XXI, do género ao estatuto da mulher e o seu lugar na sociedade, bem como os discursos misóginos de algumas personagens".

A morte dos vários maridos, todos com posições de poder na sociedade, de diretores de jornais a artistas e membros da alta burguesia, mostram igualmente "uma representação do patriarcado enquanto poder", a influenciar uma Lulu "mais jovem e natural", antes da destruição que o capitalismo traz sobre ela.

No primeiro momento, em Berlim, Catarina Gomes interpreta uma Lulu mais jovem, antes de Vera Kolodzig mostrar "o momento festivo e de aristocracia" em Paris, seguindo-se a bailarina Sara Garcia, que "traz o corpo expressivo", mesmo que, por vezes, surjam "momentos" em que as três intérpretes contracenem "o mesmo momento", oferecendo camadas adicionais de expressão, "da linha do passado, presente e futuro".

"Lulu" encerra ainda uma trilogia de Nuno M Cardoso, dedicada a dramaturgos alemães, depois de "Gretchen", de Goethe, e de "Emilia Galotti", de Lessing, todas a "evocar três personagens trágicas femininas" e a sua emancipação perante o poder.

A segunda produção própria do TNSJ para a presente temporada, "Lulu", estará em cena até dia 22, inserida no FITEI, e até 30 de junho, como parte da programação daquele teatro nacional, antes de rumar ao festival de teatro de Almada, em 05 e 06 de julho.

SIYF // MAG

Lusa/fim

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