Albano Jerónimo revisita "Veneno" em versão "crua" a olhar para crescimento da extrema-direita
Porto Canal/Agências
O ator e encenador Albano Jerónimo decidiu revisitar a peça “Veneno”, sobre a falência da família, numa digressão que arranca no Porto sexta-feira, em parte devido ao crescimento da extrema-direita pelo mundo.
“Queremos falar de forma muito concreta de todos os pequenos ‘Andrés’ que vamos vendo por aí. Daí a necessidade de trazer à superfície este texto com o crescimento, agora, da extrema-direita um pouco por todo o mundo”, explicou o ator e encenador da peça Albano Jerónimo, em entrevista à Lusa a propósito da revisitação da peça, 10 anos após a sua estreia em Vila Nova de Famalicão.
O ator assume que quando a peça se estreou há dez anos ainda se estava longe de “uma conjuntura política e social” como a que se vive hoje.
Albano Jerónimo explicou que o retomar de “Veneno” tem a ver com a temática do próprio texto, escrito por Cláudia Lucas Chéu, que parte de um caso concreto de violência doméstica sobre um pai de família que mata os três filhos e a mulher, mantendo-os em casa durante uma semana enquanto faz a vida normal.
“Partindo deste exemplo muito concreto ampliamos o discurso, trazendo à superfície toda uma figura grotesca, sexista, homofóbica, racista, toda ela muito musculada nesta violência que de certa forma é um mecanismo para expor todos estes ecos ácidos ou corrosivos, que estão presentes no nosso dia”, afirmou.
A proposta de revisitação de “Veneno” tem também a ver uma certa realidade suburbana e que reflete uma cidade a partir dos seus subúrbios. Albano Jerónimo dá como exemplo uma cidade de Lisboa que não tem lisboetas: “Tudo o que é lisboeta está nos subúrbios ou está nos arredores de Lisboa”.
No final da peça, “o homem, a besta, o ser grotesco” ganha um fato e uma gravata, porque os criadores da peça querem “expor estes mecanismos de violência, esta boçalidade que está ora num debate político, ora numa Assembleia da República”.
“Queremos expor, queremos mostrar este ‘modus operandis’ destas ‘personas’ que o que difere de um indivíduo que vive no subúrbio para um indivíduo que habita uma Assembleia da República é exatamente um fato. E este diálogo que quisemos estabelecer e trazer a palco”, observa o ator Albano Jerónimo.
A peça vai ter algumas diferenças em relação à primeira versão, pois o cenário inicial de "Veneno" era composto por um cão de loiça, um sofá, um lustre no teto e uma tela de projeção. Na revisitação, o palco vai ter um despojamento total de qualquer mecanismo cénico.
“Estamos a falar de uma cadeira, três projetores e duas garrafas de vinho – obviamente o vinho é falso”, conta Albano Jerónimo, explicando que a revisitação da peça tem o intuito de dar destaque ao corpo e à voz do ator e à palavra escrita.
Albano Jerónimo diz que o desafio é estar em palco “uma hora e 15 minutos somente acompanhado por palavras” e “reduzir ao máximo todo e qualquer artifício teatral, seja de luz, seja cénico”.
“Todo este ‘Veneno 2.0’ é uma versão crua daquilo que fizemos há 10 anos. É um espetáculo cru, de exposição tremenda para mim, enquanto ator, artista e para a companhia também. É uma forma de nos reciclarmos na forma de fazer e na forma de nos apresentarmos ao público e no fundo de comunicar palavras”, acrescenta.
Depois de ser revisitada sexta-feira e sábado, no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, a peça vai estar em Loulé, na Madeira, ilha Terceira (Açores), Resende, Amarante, Lamego, entre outros locais.
“Tentamos estar sempre em zonas onde partidos de extrema-direita tenham grande presença. O Algarve, Madeira, Açores não tanto, são geografias que carecem de diálogo e de comunicação e este espetáculo e a nossa estrutura – o Teatronacional 21 – pretende exatamente levar o diálogo através desta arte que é o teatro para as pessoas”, afirmou.
