Álvaro Domingues com mostra inédita em São João da Madeira sobre paisagem e cacofonia do mundo

Álvaro Domingues com mostra inédita em São João da Madeira sobre paisagem e cacofonia do mundo
Foto: CM São João da Madeira
| Norte
Porto Canal/Agências

O Centro de Arte de São João da Madeira inaugura sábado uma mostra inédita em que o geógrafo Álvaro Domingues analisa “a cacofonia do mundo” em imagens sobre os efeitos da ação humana na paisagem e na memória.

Esse equipamento cultural do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto reúne assim na sua galeria, situada no complexo da Oliva Creative Factory, um conjunto de imagens recentes que o fotógrafo, geógrafo e professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto captou em diferentes territórios de Portugal, Espanha, Brasil e México.

A exposição intitula-se “Todo o mundo é composto de mudança” e propõe o que Aníbal Lemos, diretor do Centro de Arte e cocurador da mostra, considera “uma leitura que ultrapassa a mera contemplação estética, sugerindo que cada imagem funcione como convite à interpretação do espaço e à compreensão da paisagem enquanto construção social”.

“Estas fotografias constituem narrações espaciais: apontam para a transformação dos territórios, destacando permanências e ruturas, e evidenciam as marcas da ação humana e da passagem do tempo. Cada fotografia recusa a neutralidade e instaura perguntas sobre modos de habitar, pertencer e transformar”, declarou esse responsável à Lusa.

Álvaro Domingues admite alguma dificuldade na combinação dos distintos elementos cénicos das suas imagens. “Não é fácil alinhar um fio condutor entre uma cabra que nos observa a partir dos altos da serra do Alvão e as paisagens duras da urbanização no México ou no Brasil, onde a opulência de uns tantos se instala ao lado da maioria dos que vivem com muito pouco”, explicou.

O fotógrafo e geógrafo defende, contudo, que essa diversidade tem o seu próprio significado: “A dissonância, a simultaneidade das coisas que nos surgem pela frente, a contradição, tudo isso faz parte da cacofonia do mundo, definitivamente desarrumado, inquieto, injusto”.

Nesse contexto, não é, portanto, a mudança o que mais inquieta: “É o labirinto por onde ela se dispersa, os muitos abismos por onde se pode despenhar, o grande número dos que são deixados para trás ou apenas usados”.

O curador Nelson Marmelo, que partilhou com Aníbal Lemos a seleção dos trabalhos a expor em “Todo o mundo é composto de mudança”, realça que Álvaro Domingues olha a paisagem “não como cenário, mas como processo – como obra em transformação permanente, em devir”.

“Ele desconstrói a ideia romântica de paisagem: o território surge como resultado de decisões humanas, improvisações e acasos. A paisagem não é uma composição estética idealizada, mas o resultado de ações humanas acumuladas no tempo — campos, muros, bairros de lata e blocos de apartamentos, autoestradas — e de como essas ações se tornam formas visíveis e sensíveis, que traduzem cultura”, afirma.

Aquele que é também diretor da Bienal de Fotografia da Covilhã elogia ainda a forma como Álvaro Domingues consegue motivar uma reflexão social séria a partir de imagens cheias de “humor crítico e despretensioso”, característica que, por sua vez, ajuda a envolver o espectador numa “experiência participativa”.

A mostra “Todo o mundo é composto de mudança” está patente até 10 de janeiro e tem entrada livre. A inauguração está marcada para as 16h30 e prevê a presença do próprio Álvaro Domingues para uma conversa com o público.

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