Cineasta Leonor Noivo coloca migração de mulheres filipinas em foco em “Bulakna”
Porto Canal/Agências
O documentário “Bulakna”, realizado por Leonor Noivo, é exibido sábado no âmbito do festival Porto/Post/Doc, no Cinema Passos Manuel, e coloca em foco a migração de mulheres filipinas para trabalharem como empregadas domésticas no Ocidente.
A produção da Terratreme Filmes retrata duas mulheres filipinas, uma mais jovem que quer sair do país para trabalhar como empregada doméstica, apesar da relutância de colegas e amigos, e uma outra, mais velha, que deixou o trabalho na rádio no país natal para ter esta ocupação, na casa de uma família abastada em Lisboa.
Em entrevista à Lusa, a realizadora explicou que este filme tem uma origem espalhada por vários anos, desde logo a infância em Macau, em que contactou pela primeira vez com a realidade de empregadas domésticas filipinas, “muito presente nos anos 1980”.
“[Era] uma realidade muito distinta, que me fazia alguma confusão, mas era bastante aceite na sociedade. Fazia-me impressão esta vinda das muitas mulheres, sozinhas. Apareciam, umas puxavam outras, e muito jovens. Por vezes, tinham 16, 17 anos. Iam diretamente para casas de pessoas. [...] Como é que estavam sozinhas, longe da família, desde cedo, e abdicavam da sua intimidade, da vida pessoal, para ficar praticamente a vida toda fora?”, questiona.
Mais tarde, em 2010, voltou a Macau quando trabalhava num filme com João Pedro Rodrigues e Rui Guerra da Mata, e voltou a contactar esta realidade - que veio a encontrar em Lisboa.
Reconhecia estas mulheres “aos domingos”, o dia em que têm para estar umas com as outras, e a partir daí, em pesquisa, apercebeu-se de uma indústria assente em agências e empresas que facilitavam a formação destas jovens mulheres e de toda a logística de emigração.
Traçando um paralelismo com o Portugal em que “as criadas vinham das aldeias”, esta “reprodução” intrigava-a, a par da “questão da globalização”, em que “entre o Sul global e o Norte global, há meio mundo a servir outro meio mundo, sem que as metades sejam sequer proporcionais”, decidiu retratar todo este tema sobretudo seguindo duas histórias.
Pelo meio da jornada das duas mulheres, entre o desejo de saída da mais nova e o regresso da mais velha às Filipinas, num Natal, surge também a herança colonial deixada naquele território.
A figura de Fernão de Magalhães, que ali foi morto, ocupa algumas figuras, a começar por um grupo de teatro que coloca em questão esta figura, lhe encena a morte, passando por um ‘videoclip’ sobre o seu legado na região.
“Havia a necessidade de entender outros pontos de vista. Encontrámos vários grupos de teatro, em Mindoro e em Manila, e acabou por se trabalhar com este grupo, que ficou muito entusiasmado. A maior parte deles são filhos de mulheres emigradas. Têm esta dor, isto é um assunto. São ativistas, fazem ‘flash mobs’, questionam o governo. Há ali uma reflexão, sobretudo nos mais jovens, sobre esta condição quase inevitável das mães migrarem”, afirma Leonor Noivo.
Neste plano, a vida de tantas mulheres a viver na sombra, num plano de invisibilidade, de forma a não incomodar na casa dos senhores, vem para a luz e toma papel central - um esforço deliberado, explica a cineasta, para “tornar visível” precisamente esta questão.
“Tem a ver com essa invisibilidade, com a procura da invisibilidade, até incutida pelos lugares de formação destas mulheres, e que eu tentei, no filme, dar-lhes visibilidade. Esta questão do visível e invisível foi uma intenção”, acrescenta.
“Bulakna”, primeira longa-metragem de Leonor Noivo, foi premiado no festival de cinema de Valladolid, como melhor filme da secção Alquimias, já depois de se ter estreado em Marselha, no qual recebeu um prémio especial de compra de direitos pela Cinemateca do Documentário.
Depois de passar no DocLisboa, chega ao Porto/Post/Doc no sábado, integrado numa programação com um foco peculiar no tema das migrações.
É exibido sábado pelas 21h00, no Passos Manuel, e após esta apresentação passará por um festival na Suíça, em 2026, ano em que terá exibição em salas comerciais em Portugal, para já apontada para o segundo trimestre.
Leonor Noivo, nascida em 1976, estudou Arquitetura e Fotografia antes de ingressar na Escola Superior de Teatro e Cinema, e é uma das criadoras da Terratreme Filmes, e a par da realização, tem desenvolvido trabalho como argumentista, produtora, anotadora, assistente de realização, entre outras funções.
O primeiro filme documental da sua autoria, “Macau Aparte”, data de 2001, e em 2005 estreou-se na ficção com “Salitre”, tendo, em 2019, sido premiada no Festival Internacional de Marselha, por “Raposa”.
