“Uma Brancura Luminosa” propõe em palco reflexão existencialista a partir de Jon Fosse

“Uma Brancura Luminosa” propõe em palco reflexão existencialista a partir de Jon Fosse
| Norte
Porto Canal/Agências

A peça “Uma Brancura Luminosa”, adaptada e encenada por Sandra Barata Belo a partir da obra de Jon Fosse, propõe uma imersão existencialista pelo universo poético do Nobel, com interpretações da própria atriz e de Ricardo Pereira.

A escolha desta obra do Prémio Nobel da Literatura em 2023 “marcante” assenta, como descreve à Lusa Sandra Barata Belo, no fascínio por uma escrita simultaneamente simples e profundamente existencialista, onde “a cadência e a musicalidade” faz o leitor querer saber como se desvendam lugares tão profundos da alma e da existência.

Em “Uma Brancura Luminosa” Fosse não dá as respostas, conta a encenadora e atriz, que antecipa que, no final, o espectador fica sem saber quem é a brancura.

“Não há o concreto, e achei isso muito importante de passar para o palco — essa liberdade para o público pensar sobre as suas próprias vidas.”, acrescentou.

Para a também atriz, os maiores desafios da adaptação deste texto para o teatro prenderam-se sobretudo com o corte de texto — tarefa sensível devido à natureza repetitiva da escrita de Fosse — e a transposição das várias camadas temporais do texto para a dinâmica cénica.

“Há sempre uma mudança subtil de perspetiva que faz toda a diferença”, explica Sandra, salientando que literatura e teatro têm linguagens próprias e, como tal, a dificuldade residiu em respeitar a essência do autor norueguês.

A peça, detalha ainda Sandra Barata Belo, reflete sobre temas como a solidão, a morte e a família, situando-se num “lugar estranho onde os tempos se cruzam” e onde o público é chamado a participar ativamente com as suas próprias perguntas.

Mais do que uma narrativa sobre a morte, a encenadora vê “Uma Brancura Luminosa” como uma reflexão existencialista sobre a vida, as relações familiares e o papel social do teatro enquanto veículo de pensamento e liberdade.

“Às vezes parece que é uma viagem para a morte, mas não é só isso, é sobre a vida e sobre a solidão, sobre uma certa paz que encontramos também na vida. Nunca é só aquilo que está a acontecer em cena. O espetáculo tem muitas camadas”, descreve.

Para Ricardo Pereira, com quem Sandra Barata Belo partilha o palco, a construção desta personagem tem sido “um mergulho contínuo e muito exigente”.

Ao longo da sua carreira, o ator foi-se cruzando com a obra de Jon Fosse, muitas vezes sem se dar conta de imediato de que era o mesmo autor a marcar presença em diferentes palcos e textos, quase como se o dramaturgo norueguês dialogasse com ele de forma silenciosa e persistente.

Nesta produção, Ricardo Pereira depara-se com o desafio acrescido de interpretar uma escrita simultaneamente descritiva e repetitiva, onde a fronteira entre o real e o insondável é constantemente posta à prova.

“Transpor a mensagem de Fosse exige uma compreensão íntegra e profunda”, afirma o ator, para quem a recorrência de certas estruturas e tempos verbais confere à peça uma exigência particular, tornando o exercício de representação intenso e singular.

A peça, que descreve como uma viagem pelo tempo – presente, passado e até futuro, não oferece um final “fechado”, permite antes, sublinha, múltiplas observações e compreensões, o que a faz crescer com a participação do público, que partilha as suas experiências nas conversas que seguem ao espetáculo.

O espetáculo, que se estreou em Ovar este mês e já passou pela Lousã, sobe ao palco do Centro Cultural de Paredes no sábado, pelas 21h30, seguindo depois num périplo por várias cidades - Covilhã (29 de novembro), Vale de Cambra (6 de dezembro), Lisboa (Teatro Variedades, 14 a 25 de dezembro), Vila Nova de Famalicão (Casa das Artes, 31 de dezembro), Ourém (Teatro Municipal, 7 de fevereiro), e Loulé (Cineteatro, 22 de fevereiro).

O peça teve o apoio de uma rede de coproduções municipais, consideradas pela encenadora como “essencial não só para a viabilidade financeira, mas para a democratização do acesso à cultura, a par da saúde e da educação”.

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