Ponte medieval "encanada" por mudanças urbanísticas "redescoberta" em Amarante
Porto Canal/Agências
A antiga ponte medieval de Santa Luzia, em Amarante, foi “agora redescoberta”, depois de “ter sido encanada” pelas mudanças urbanísticas naquele concelho ao “longo dos séculos”, estando em “admirável estado de conservação”, disse esta quinta-feira à Lusa fonte da autarquia.
Em declarações à Lusa, o arqueólogo da Câmara Municipal de Amarante, no distrito do Porto, Daniel Ribeiro, explicou que aquele monumento, que “apresenta características próprias do século XIV”, já tinha sido referenciado em 1934 pelo arqueólogo José de Pinho e que “foi agora redescoberto” em finais de setembro.
“Era uma prática muito comum nos inícios do século XX que pequenos regatos, ou ribeiras sem grande relevância, fossem encanados para dar lugar a espaços urbanos. Foi o crescimento urbano que levou à encanação da ponte e da ribeira de Santa Luzia (ou de Real, como era conhecida), abrindo caminho àquele que é hoje o Largo de Santa Luzia e às atuais ruas João Pinto Ribeiro e Manuel Monterroso”, disse.
A Ponte, explicou, “foi sendo soterrada no decorrer das mudanças urbanísticas na área e acabou transformada quase numa manilha das condutas de água e é nesse estado que ela se encontra”.
Segundo explicou o arqueólogo, “em 2017, aquando do levantamento do património arqueológico da cidade de Amarante, foram feitas buscas em fontes bibliográficas, iconográficas e orais e tudo levava a crer que ali pudesse estar algum vestígio desta ponte”.
“Mas, desconhecíamos por completo é que ela estava neste admirável estado de conservação, quase intacto, embora não tenhamos ainda acesso às guardas da ponte, nem ao tabuleiro, apenas conseguimos visualizar o arco”, disse Daniel Rodrigues.
Os trabalhos que levaram à redescoberta da Ponte de Santa Luzia aconteceram em finais do mês de setembro, “aproveitando o final do verão, período em que o leito da ribeira está mais baixo” e foram realizados “com a ajuda da equipa técnica da manutenção dos serviços ligados ao saneamento”.
A existência e o estado do monumento já foram comunicados às Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) e à Património Cultural I.P: “agora haverá toda uma série de trabalhos de peritagem e pesquisas, nomeadamente as medições, estudo de alvenarias, levantamento das marcas de canteiro, tentar verificar o estado de conservação do tabuleiro e das próprias guardas”.
E continuou: “Estes trabalhos queremos fazê-los de uma forma não invasiva, isto é, tentar fazer isto sem escavar e depois partir para o processo de classificação”, apontou.
Os planos da autarquia passam ainda por “criar medidas e iniciativas que permitam a visita e o usufruto da ponte pela população”.
A Ponte de Santa Luzia, segundo informação da autarquia, ligava as ruas do Seixedo e Carlos Amarante (antiga Rua da Ordem), sobre a Ribeira de Real e é caracterizada por um arco de volta perfeita, onde se observam marcas de canteiro nomeadamente, cruciformes, liras e “S”.
Aquele monumento é muito semelhante à Ponte do Arquinho, também em Amarante, sendo que estas duas pontes – a par dos alicerces da antiga Ponte de Amarante – constituem, até hoje, os únicos vestígios medievais conhecidos na cidade, evidenciando a sua génese e vocação viária de Amarante.
