O fantasma da Estação de São Bento: entre a história e a lenda
Inês Saldanha
Reza a lenda que, na Estação de São Bento, as madrugadas são marcadas pelo choro da última freira que habitou o antigo mosteiro ali existente. O historiador Joel Cleto explicou ao Porto Canal que, embora se trate de um conto ficcionado, a narrativa ajuda a compreender a história de “uma das estações mais bonitas do mundo”.
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A lenda do fantasma de São Bento remonta ao final do século XIX, quando, muito antes de se erguer ali uma estação ferroviária, o espaço era ocupado pelo antigo Mosteiro de São Bento de Avé-Maria.
O “mata-frades” que decretou a extinção das ordens religiosas
Após a Guerra Civil, travada em Portugal entre 1832 e 1834, vencida pelos liberais. O então Ministro da Justiça, Joaquim António de Aguiar, conhecido como “mata-frades”, promulgou um decreto que declarava a extinção das ordens religiosas.
“Tudo que são ordens religiosas no nosso país são proibidas e o Estado vai nacionalizar todos os mosteiros e conventos”, contou o historiador e arqueólogo Joel Cleto ao Porto Canal.
A medida teve aplicação imediata nos mosteiros e conventos masculinos, cujos monges receberam poucos dias para abandonar os espaços. Contudo, o mesmo não aconteceu com as congregações femininas.
“As autoridades do país perceberam que iam ter um problema. Se fizessem a mesma coisa, [que fizeram aos monges], iriam ter milhares de mulheres que eram colocadas na rua. Se algumas tinham uma retaguarda familiar, outras não teriam”, explicou o historiador Joel Cleto.
Face a essa realidade, a lei previu uma exceção: embora não pudessem entrar novas religiosas, as freiras que já residiam nestes locais poderiam permanecer até ao fim das suas vidas. Assim, “só quando morresse a última freira, é que o mosteiro ou o convento passava para a posse do Estado”.
“O que significa que, em alguns casos, por exemplo, quando a lei saiu em 1834, uma semana antes, uma jovenzinha de 15 anos tinha tomado o hábito. E se ela vivesse até aos 80 anos, significa que, em boa verdade, o Estado só acabou por tomar conta de ficar com um mosteiro ou com o convento, quando ela morreu, no final do século XIX, ou até mesmo já nos inícios do século XX”, apontou o historiador.

A última freira do Mosteiro de São Bento
Foi precisamente o que aconteceu com o Mosteiro de São Bento. A última freira, Maria da Glória Dias Guimarães, apenas morreu em 1892, 58 anos depois do decreto – um atraso que adiou significativamente o projeto da estação ferroviária, já pensado desde a década de 70.
“Quando morresse a última freira, o mosteiro iria dar lugar a uma estação ferroviária. A ‘Estação Central’ era esse o nome de início pensado, porque seria no centro da cidade. Havia uma grande expectativa de que seria uma grande estação, uma das grandes portas de entrada no norte de Portugal”, considerou Joel Cleto.
Compreende-se assim que os famosos painéis de azulejos da Estação de São Bento não retratam tanto o Porto, mas sim o norte do país – as Vindimas, Nossa Senhora dos Remédios em Lamego, a Batalha de Arcos de Valdevez, entre outras.
Contudo, a última freira demorou “muito tempo a morrer”, e a espera prolongou-se até 1892. Após o seu falecimento, a 17 de maio desse ano, iniciou-se um intenso debate: devia a igreja ser demolida com o mosteiro, ou poupada?
“Havia algumas pessoas dentro da cidade que defendiam a demolição do mosteiro, mas não da igreja. A igreja era uma das mais belas da cidade. Por exemplo, mesmo ao lado, com o Convento dos Congregados, foi demolido todo o mosteiro, mas ficou lá a igreja até hoje”, notou o historiador.
Dois anos depois, e após muita discussão, a decisão foi tomada: demolir tudo. As obras arrancaram, e a Estação de São Bento abriu portas provisoriamente em 1896, sendo inaugurada oficialmente apenas em 1916.
Foi então que nasceu a lenda. Com a nova estação já a funcionar, começaram a correr rumores de que, durante a madrugada, se ouvia um choro vindo das paredes.

Duas versões da lenda
“De madrugada ouvia-se um choro e começou-se a dizer que era o fantasma da última freira chorando amarguradamente pela destruição não só do seu mosteiro, mas também da igreja”, relatou.
Mas há quem conte outra versão. Em vez de soluços, o que se ouve é um riso. A freira ri “por ter conseguido atrasar a obra e por fazer com que São Bento, embora não se tenha tornado uma grande estação, sendo que Campanhã acabou por ficar com esse papel”, uma vez que se desenvolveu enquanto a empreitada não arrancava.
Para Joel Cleto, as lendas têm “sempre alguma coisa de verdade” e, embora adornadas pela imaginação popular, ajudam a preservar a memória coletiva.
“As lendas não deixam de fazer parte da identidade, das tradições, da herança das comunidades. São uma herança imaterial”, considerou.
O historiador disse ainda que, ao longo dos anos, a lenda da freira tem sido recuperada através dos guias turísticos que a contam para “adoçar as visitas dos turistas”.
Hoje, mais de um século depois, a história da freira de São Bento continua viva, sussurrada entre turistas e contadores de histórias, ecoando entre os azulejos e os caminhos férreos.
