Lítio é assunto controverso que entra na campanha em Boticas
Porto Canal/Agências
A mina de lítio é tema que entra na campanha em Boticas, onde o PSD se opõe à exploração e CDU e Chega defendem um grupo de trabalho ou comissão independente para avaliar e acompanhar o projeto.
Desde pelo menos 2018 que o lítio é assunto controverso no concelho do norte do distrito de Vila Real.
A mina do Barroso obteve uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) condicionada em 2023, a Savannah prevê iniciar a produção de lítio em 2027, mas o projeto tem sido contestado por populares, autarcas e ambientalistas.
O social-democrata Guilherme Pires é presidente da câmara desde junho, após a saída de Fernando Queiroga, que foi eleito deputado na Assembleia da República, e encabeça também a candidatura do PSD.
À agência Lusa afirmou que é tendencialmente contra a exploração de lítio neste território, apontando motivos que vão desde os impactes ambientais, ecológicos, no turismo rural e de natureza, socioeconómicos, à poluição atmosférica, desvalorização imobiliária, a falta de transparência no processo, questionando ainda a anunciada criação de postos de trabalho no território, já que a mão de obra necessária é qualificada e provavelmente virá de fora.
“Acredito que a exploração de lítio consome quantidades enormes de água, cujo destino e tratamento é duvidoso”, concretizou.
O candidato disse que a mina pode afetar “irreversivelmente a qualidade da água para consumo humano ou agrícola”, bem como levar “à perda irreparável da biodiversidade”, lembrando que a exploração ocorrerá no Barroso Património Agrícola Mundial.
“Vamos estar atentos e utilizaremos todos os meios legais para nos opormos a esse projeto. Nós estamos ao lado da população de Covas do Barroso e isso, só por si, já é um motivo muito forte para a nossa posição se manter irredutível e inalterada", reforçou Guilherme Pires, que está há 12 anos na câmara.
Desde as primeiras eleições livres em Portugal que o PSD ganha neste município, tendo conquistado quatro mandatos em 2021 e o movimento independente um.
Para José Miguel Fernandes, cabeça de lista da CDU (coligação PCP/PEV), um empreendimento desta dimensão, pelos impactos sociais, económicos e ambientais que vai ter na região, não pode ficar sujeito a uma simples resposta de “a favor” ou “contra” a mina, e não pode “satisfazer apenas os interesses de alguns, mas sim da maioria”.
“Uma resposta adequada a toda a problemática do lítio no Barroso não cabe nesta entrevista”, apontou.
Referiu, no entanto, “que a vida tem dado razão” ao posicionamento que o seu partido tem defendido, ou seja, que a “defesa do desenvolvimento económico, do interesse público, do ambiente e dos interesses das populações não é compatível com concessões das reservas de metais básicos ao capital estrangeiro e a sua não valorização no país”.
O “primeiro passo”, defendeu, deveria ter passado pela criação de um grupo de trabalho com representantes da comunidade local, junta de freguesia, câmara, Governo e da empresa”, articulando-se com uma equipa multidisciplinar independente para uma “avaliação técnica rigorosa” dos impactes do projeto.
Isabel da Veiga Cabral encabeça a lista do Chega à câmara e assumiu uma posição de “certa cautela” sobre o lítio, afirmando que “as bandeiras não se fazem à custa das populações”, insistindo por várias vezes que é “preciso respeito”.
A candidata lembrou que a empresa divulgou que confirmou maiores quantidades de lítio e que o projeto poderá vir a superar 100 milhões de toneladas de mineralização de lítio ao longo dos anos, o que, para a cabeça de lista do Chega, pode ser “exponencialmente grave” porque a DIA “não contemplou isto”.
“Se já era pouco transparente, mais opaca está. E portanto o que se deve fazer é tentar rever tudo o que foi feito até agora, mas com seriedade”, defendeu.
Isabel da Veiga Cabral defendeu que “é primordial” a criação de uma comissão independente para acompanhamento do projeto.
“A câmara clama que não foi informada, mas ela também não teve o cuidado de fazer ações de informação absolutamente apolíticas, com técnicos de várias universidades que vão dar à população a informação de que ela necessita para se pronunciar”, afirmou, referindo que será a primeira coisa que fará se for eleita.
A lista do movimento independente, encabeçada por Xavier Barreto, não foi admitida pelo tribunal para as eleições de 12 de outubro.
Em 2021, o partido social-democrata ganhou as eleições à câmara de Boticas com 2.958 votos (73,55%) e elegeu quatro mandatos, enquanto a lista independente conseguiu 643 votos (15,99%) e um mandato.
