Ballet Contemporâneo do Norte celebra 30 anos com projeto para nova dinâmica em casa fixa
Porto Canal/Agências
O Ballet Contemporâneo do Norte (BCN) celebra em 2025 os seus 30 anos de atividade e, após cerca de 60 produções de autor, tem agora como meta instalar-se numa morada fixa que lhe permita novas dinâmicas de trabalho.
A pretensão revelada à Lusa pela diretora artística da companhia, Susana Otero, prende-se com o facto de, embora instalada em Santa Maria da Feira, a estrutura não ter sede própria e repartir ensaios e restante trabalho por diferentes espaços desse município do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto, entre os quais o Cineteatro António Lamoso, o Museu de Santa Maria de Lamas, o Pavilhão Desportivo das Lavandeiras e o Centro Cultural de Milheirós de Poiares.
“Ao fim de 30 anos, é tempo de termos casa própria”, declara Susana Otero. “Fazemos duas grandes produções por ano, mas há muita instabilidade no financiamento e ter um espaço nosso, fixo, permitir-nos-ia desenvolver projetos mais pequenos, residências artísticas, formação regular e atividades paralelas como exposições – coisas que nem sempre têm muita visibilidade, mas que são úteis e ajudam a formar públicos”, explica.
O imóvel com as condições desejadas ainda não foi encontrado, mas o BCN já tem projeto para o que antecipa como “um centro efervescente de várias práticas artísticas, residências e apresentações informais”: chamar-se-á “Devoluto” e pretende criar uma nova comunidade em torno da dança.
“Pode ser uma escola inativa, um antigo armazém, um terreno em desuso ou mesmo algum edifício a que possamos dar uma nova função. O que interessa é que o imóvel tenha condições para receber uma ‘black box’, duas áreas de ensaios e espaços informais de encontro, com vista a desenvolvermos quatro residências e 16 apresentações por mês – entre elas não apenas dança, mas também concertos, espetáculos de teatro, conferências e cursos em domínios menos desenvolvidos”, adianta Susana Otero.
O Devoluto deve assim combinar as valências de serviço educativo com as de laboratório para experimentação de novos modelos de companhia, programação curatorial rotativa e “processos de trabalho colaborativos que desafiem as hierarquias tradicionais e valorizem a pluralidade de saberes”.
Se isso se puder concretizar com rentabilidade financeira, tanto melhor, e não apenas porque todos os espetáculos e atividades do BCN são de entrada livre (o que invalida receitas de bilheteira e aumenta a dependência face aos apoios de Direção-Geral das Artes e do Município da Feira), mas sobretudo porque uma das prioridades da companhia é “assegurar condições de trabalho dignas para os artistas, combatendo a precariedade e promovendo relações laborais éticas”.
Diretora do coletivo desde 2011, Susana Otero realça, aliás, que a companhia com apenas dois outros elementos no seu quadro permanente – em concreto Filipa Duarte e Liliana Claro – contrata com frequência outros profissionais, mas prefere levar à cena “menos produções por ano e pagar condignamente a todos os envolvidos do que cortar nos salários para poder financiar mais atuações”.
O BCN recruta assim cerca de 20 pessoas para cada uma das suas grandes produções, o que, em média, representa três meses consecutivos de remuneração e honorários adicionais por cada reposição de espetáculo.
Especificamente no que se refere aos bailarinos, essa valorização profissional da carreira é algo de que Susana Otero se orgulha no percurso do coletivo fundado por Elisa Worm em 1995 – então ainda como grupo amador de Estarreja, embora profissionalizado logo em 1997, bem antes da sua deslocalização para a Feira em 2007.
“Já nos anos 90 o BCN era muito inovador e, para mim, entrar na companhia foi um sonho realizado”, recorda. “Estávamos em 2002, eu só tinha 18 anos e naquela altura não havia companhias no Norte do país, portanto eu mal conseguia acreditar que, afinal, ia podia viver da profissão de bailarina! Sou a prova de que o elevador social se deve realmente à educação!”, afirma.
A passagem de 30 anos teve, contudo, efeitos negativos nesse otimismo, sendo o mais evidente de ordem laboral. “Naquele tempo tínhamos 10 contratos de trabalho para dar e ninguém os queria. Toda a gente preferia ser 'freelancer', achava que isso era garantia de liberdade. Agora todos sonham com um contrato, mas a instabilidade é tanta que isso é cada vez mais raro e, com guerras e populismos, não me parece que vá melhorar”, defende a bailarina e coreógrafa.
Quanto à arte em si, ao fim de três décadas persistem preconceitos, mas o BCN trabalha frequentemente com escolas e Susana Otero tem esperança nesses contactos: “Quando nos perguntam o que é a dança contemporânea e dizemos que é a forma como dançamos hoje, nos tempos atuais, os adultos não ficam satisfeitos com essa resposta. Já as crianças, percebem imediatamente. Não precisam de mais nada”.
