Em São João da Pesqueira ardeu castanha, maçã e alimento de animais

Em São João da Pesqueira ardeu castanha, maçã e alimento de animais
Foto: Lusa
| Norte
Porto Canal/Agências

Castanha, maçã e alimento para os animais foram do que mais ardeu nos incêndios dos últimos dias em lugares como Trevões ou Paredes da Beira, em São João da Pesqueira, onde se contam prejuízos e também se teme pelo futuro.

“Quer a lista? Mais de 1800 fardos de palha, uma enfardadeira, um reboque de trator, três toneladas de silagem [milho triturado para os animais], uns 100 metros de mangueira de rega, uns 30 metros de vedação e 12 reboques de lenha para o inverno”, contou António Fonseca à Lusa.

Apesar de ter outra profissão, o estrago tem peso: “Tudo isto era fruto do trabalho das 16h00 às 22h00, 23h00, e era muito, um trabalho duro que foi todo assim, num ápice.”

“O que ficou foi que nós aqui conseguimos salvar”, acrescentou.

António Fonseca disse ainda que um amigo perdeu 40 hectares de árvores de fruta, entre castanha e maçã – “não foi tudo, mas o prejuízo é mesmo grande” - na zona de Paredes da Beira, Riodades e Penela da Beira, já no concelho de Penedono, também no distrito de Viseu.

Nestes lugares onde os dois concelhos se unem, as falhas de comunicação ainda “são grandes, só esta quinta-feira é que já começou a haver alguma coisa, de telemóvel, porque internet ainda não há nada”.

Também em Paredes da Beira Sofia Quintal e o marido têm andado a investir em castanha e maçã, mas agora “o fogo veio e levou tudo”. “Foram 1500 macieiras, 20 castanheiros e ainda não sei quantos metros de mangueira de rega gota a gota. Ardeu tudo”, indicou.

A paisagem entre Trevões, Paredes da Beira e Penela da Beira forma como que um mosaico, entre umas parcelas verdes e castanhas onde as chamas não entraram e o negro do que foi devorado pelas chamas.

“Olhe para aquela serra. Tenho 92 anos e nunca vi aquilo assim, daquela cor”, apontou Aníbal Martinho, a quem ardeu, “que saiba, 15 hectares de soutos”. Ainda falta ir ver se os 30 hectares de árvores de fruto, castanha e maçã, foram todos destruídos ou só parte.

Até aos 20 anos, Aníbal cresceu a criar o gado. “Hoje já ninguém faz isso, hoje não há pastagem, não há quem cultive as terras com batata e centeio, e isto vai piorar ainda mais”, lamentou.

“Quando nós, os mais velhos, morrermos, isto vai ficar deserto e depois então é que fica tudo aí ao abandono para as chamas. E quanto mais arde, mais vai arder, porque deixa de haver árvores e vegetação”, considerou.

Os próprios filhos saíram e estão entre Lisboa e o Porto. Na sua perspetiva, “não se pode condenar quem quer uma vida melhor”, já que “a vida de capo é dura e é por isso que já não se encontra ninguém” por estas terras.

“E é também por isso que os políticos fazem estas guerras no interior do país, porque isto, ninguém me tira da ideia, é tudo uma guerra política por terras que mais dia, menos dia não terão ninguém”, referiu.

O fogo que chegou a São João da Pesqueira teve origem em dois incêndios – um deflagrou no dia 13, em Sátão (distrito de Viseu) e outro no dia 9, em Trancoso (distrito da Guarda), e na sexta-feira (dia 15) tornaram-se num só, que afetou um total de 11 municípios.

Sátão, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Penedono e São João da Pesqueira (distrito de Viseu); e Aguiar da Beira, Trancoso, Fornos de Algodres, Mêda, Celorico da Beira e Vila Nova de Foz Côa (distrito da Guarda) foram os concelhos atingidos.

Este incêndio entrou em resolução pelas 22h00 de domingo, 17 de agosto.

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