Ligação Porto-Vigo passa a ter transbordo a partir deste domingo. O que está em causa?
João Nogueira com Lusa
A partir deste domingo o comboio internacional Celta, que liga o Porto a Vigo diretamente desde 2013, passará a obrigar os passageiros a fazer transbordo na estação de Viana do Castelo. Esta mudança surge para garantir a continuidade do serviço e as empresas envolvidas, CP e Renfe, afirmam tratar-se de algo temporário e que não irá causar transtornos. Contudo, a medida tem gerado reações de preocupação, com autarcas e políticos a questionarem se esta alteração pode ser um sinal de desinvestimento na ferrovia a Norte e com ligação à Galiza.
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A Comboios de Portugal (CP) anunciou que se trata de uma “medida excecional e temporária”, sem indicar uma data para a retoma direta do serviço.
A partir deste domingo, o transbordo será realizado entre dois tipos diferentes de automotoras: as UTE 2240, que operarão entre Porto-Campanhã e Viana do Castelo, e as UTD 592, que seguirão de Viana do Castelo até Vigo.
Em resposta ao Porto Canal, a CP garantiu que a alteração não implicará supressão de comboios e que os horários não serão alterados. A viagem continua a ser feita em 2h20, sensivelmente.
A empresa portuguesa em conjunto com a Renfe, responsável pela parte espanhola do serviço, assegura que, apesar do transbordo, a viagem continuará a decorrer como habitual em termos de horários. “Trata-se de um
transbordo simples entre comboios. O serviço continuará com os mesmos horários”, declarou a Renfe, explicando que a alteração se deve a motivos operacionais.
Preocupações de Autarcas e Entidades
Apesar das garantias, a medida gerou reações negativas de políticos e autarcas. O deputado do PCP Alfredo Maia alertou, esta quinta-feira, que a ligação direta entre o Porto e Vigo não pode ser comprometida e criticou o que considera ser uma “degradação do serviço” devido ao desinvestimento ferroviário.
O presidente da Câmara de Viana do Castelo, que acompanha de perto a implementação do transbordo, afirmou compreender que se trata de uma medida temporária, mas garantiu que continuará a monitorizar o cumprimento dos prazos e exigiu mais investimentos na Linha do Minho, essencial para a conectividade entre o Norte de Portugal e a Galiza.
Filipe Araújo, candidato à Câmara do Porto, acusou a CP de estar a desinvestir na ligação Porto-Vigo e de não ter dialogado com os autarcas nem com os cidadãos sobre as alterações. “Esta alteração é feita de forma pouco transparente, sem explicação clara sobre a sua necessidade”, afirmou.
Por outro lado, Sérgio Aires, candidato do Bloco de Esquerda, também criticou a CP, dizendo que a medida é um reflexo do “desinvestimento contínuo” nas linhas ferroviárias em Portugal.
É uma decisão tomada “às escondidas”, acusou o candidato Manuel Pizarro, afirmando que a região sai prejudicada e é, em parte, um desrespeito aos cidadãos. "Eu acho que é muito preocupante que a CP, que é uma empresa pública com tutela direta por parte do Governo, tome uma decisão destas, eu diria que às escondidas, a meio do mês de agosto, sem dar uma explicação clara sobre porque é que ela é necessária", disse o socialista.
Também a comunista Diana Ferreira não ficou indiferente, “Estamos a falar aqui, no setor da ferrovia, numa responsabilidade que é do Governo central. Há, do ponto de vista da mobilidade, na cidade do Porto mas também no distrito e na região, um alargado conjunto de problemas que importa resolver",declarou a candidata da CDU à autarquia portuense.
Alta Velocidade e o Futuro da Ligação Porto-Vigo
Enquanto as preocupações sobre o transbordo temporário persistem, o Governo tem planos para uma ligação ferroviária de alta velocidade entre Porto e Vigo, prevista para 2032.
O ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, já sublinhou anteriormente que este projeto não é apenas um estudo, mas uma realidade concreta com conclusão agendada para o final da década, o que irá melhorar significativamente a conectividade entre o Norte de Portugal e a Galiza.
A nova linha de alta velocidade promete transformar a região numa "posição geoestratégica única", com um tempo de viagem reduzido.
Embora a CP tenha garantido que a medida de transbordo será temporária e não afetará significativamente a experiência dos passageiros, a mudança gerou apreensão entre políticos e autarquias que temem que esta alteração seja apenas o reflexo de um desinvestimento nas infraestruturas ferroviárias.
