Cruz Vermelha do Porto promoveu discussão provocadora sobre o fim de vida com seniores
Porto Canal/Agências
Duas dezenas de idosos participaram esta segunda-feira, na Cruz Vermelha, no Porto, numa sessão intitulada “E se falássemos sobre a morte” que, através de um jogo de cartas com frases repetidas por quem se aproxima da hora da morte, provocou o debate.
A palestra, que foi sugerida por idosos acompanhados por várias instituições da cidade do Porto, esteve a cargo da presidente da Compassio - Associação para a Construção de Comunidades Compassivas, entidade parceira com reconhecida experiência na abordagem compassiva da morte e do luto.
Mariana Abranches Pinto iniciou a sessão com uma canção de um autor brasileiro que diz “Não tenho medo da morte, mas tenho medo de morrer”, seguida de uma espécie de jogo de cartas com frases ditas por quem se aproxima da morte.
Perante o conjunto de frases de outros, cada um falou do que seria importante para si nesse momento.
As respostas variaram entre “Doar o corpo à ciência e ir bonitinha”, “Não quero nenhuma cerimónia, morro e vou diretinha para a Faculdade [de Medicina da Universidade do Porto], porque já doei o meu corpo à ciência”, “Tomar um comprimido e morrer serena”, “Quero confiar nos profissionais”, “Ir limpa e cuidada”, “Não quero ver a família a sofrer” ou “Não quero preto, quero que se vistam normal”.
“Preparamos o nascimento, mas para a morte não preparamos nada”, o que, no entender de Mariana Abranches Pinto, é “errado”.
Citando a sua própria experiência, a morte de uma filha há dois anos, com leucemia, a presidente da Compassio contou que foi mais fácil lidar com a perda, porque houve conversas sobre o tema entre mãe e filha: “A Nini ajudou-nos, deu-nos paz”.
“Não tenho medo de morrer, mas tenho medo do sofrimento e de dar trabalho aos outros”, sintetizou uma das idosas.
Em declarações à Lusa, Mariana Abranches Pinto disse que “as pessoas fogem ao tema, mas, à medida que se aproximam do momento da morte, querem falar, só que não há na nossa sociedade espaços para que isso possa acontecer”.
Então, “vamos criar esse espaço aqui, através da discussão provocada por um jogo de cartas, mas seja lá como for provocado, o que interessa é falar e as pessoas dizerem do que é que têm medo, porque é que têm medo, ou o que é que gostavam e o que não gostavam”, afirmou.
“Não queremos uma sociedade que foge ao sofrimento. Porque ele existe, a doença existe, a morte existe. E nós vamos passar por isso, quem nós amamos também. E, portanto, vamos falar para nos capacitar, para não fugirmos, para nos aproximarmos da pessoa, percebermos melhor o que dizer e, sobretudo, o que não dizer”, acrescentou.
A meio da sessão eram já muitas as dúvidas sobre Testamento Vital, o que fazer para doar o corpo à ciência e o que fazer para doar órgãos, pelo que ficou a promessa de organizar outras sessões de esclarecimento.
Esta sessão de reflexão, com o mote provocador “E se falássemos sobre a morte?”, foi promovida pela Cruz Vermelha Portuguesa – Delegação do Porto, no âmbito do programa Sempre Acompanhados, em parceria com a Fundação “la Caixa”.
Em declarações à Lusa, a coordenadora do programa, Ângela Ferraz, disse que o objetivo é abrir espaço a uma reflexão informada sobre um tema tantas vezes tabu na cultura portuguesa, e que tem despertado “um interesse genuíno” por parte dos participantes do programa Sempre Acompanhados, com mais de 65 anos.
No âmbito do programa Sempre Acompanhados, decorrem neste período de verão as “Conversas Com Sol”, que oferecem durante todo o mês de agosto um conjunto diversificado de atividades à comunidade, com especial atenção à população sénior.
Entre as atividades estão ações de sensibilização, como a que esta segunda-feira se realizou, momentos de partilha e convívio e até introdução à robótica.
Um dos momentos mais simbólicos desta edição acontece na sexta-feira, com a realização da “Merenda Acompanhada”, uma ação conjunta entre as duas entidades promotoras do programa no concelho – a Cruz Vermelha do Porto e a Santa Casa da Misericórdia do Porto – que, pela primeira vez, juntarão os seus participantes num encontro entre freguesias como o Centro Histórico, Paranhos, Lordelo do Ouro, Massarelos e Bonfim.
As iniciativas terminam a 29 de agosto com uma festa dos anos 60 e 70, intitulada “Disco, Franja & Bigode”.
Apesar de centrado na população com mais de 65 anos, o programa é gratuito e aberto a toda a comunidade, sendo que familiares, vizinhos e amigos são convidados a participar, numa lógica de proximidade, inclusão e bem-estar coletivo, acrescentou Ângela Ferraz.
