“Ainda há quem queira ficar?” Resende e Amarante perderam centenas de pessoas nos últimos quatro anos

| Norte
João Pereira

Reportagem especial do Porto Canal visitou os dois concelhos à procura de perceber por que saem tantas pessoas de uma das regiões mais pobres do país. Por causa da perda de população, os dois municípios do Tâmega e Sousa vão perder dois vereadores na Câmara Municipal já nas próximas Eleições Autárquicas.

Em Resende, no norte do distrito de Viseu, foram 469 os eleitores que saíram do concelho desde 2021. O concelho tinha 10 106 eleitores nas últimas autárquicas e a 12 de outubro próximo só vão a votos 9637 pessoas.

De saída da autarquia, o autarca Garcêz Trindade aponta a falta de acessibilidades como a principal causa da perda de população. “Sofremos muito com o facto de estarmos longe das cidades principais. De Coimbra, do Porto, de Lisboa”, lamenta o presidente da Câmara de Resende.

Em entrevista ao Porto Canal, o autarca assume que a perda de dois vereadores já no próximo mandato autárquico “é uma sentença” para o concelho. “Estamos pendentes de uma estrada desde o início do século, há 25 anos à espera”, atira Garcêz Trindade sobre a prometida ligação de Baião à Ponte da Ermida, em Resende.

O autarca critica ainda os sucessivos governos pelo esquecimento do concelho depois de várias promessas. “Esta estrada foi prometida por alguém com responsabilidades governamentais, ministro, e depois ficou para as calendas”, lembrando a promessa feita por Pedro Nuno Santos, enquanto ministro das Infraestruturas.

As acessibilidades são também um problema maior para as poucas empresas do concelho como é o caso da Fábrica de Águas de São Cristóvão, atualmente a única indústria em Resende, localizada na União de Freguesias de Felgueiras e Feirão. Os camiões que transportam a água que nasce ali bem perto, na Serra do Montemuro, têm de percorrer caminhos sinuosos, entre curva e contra-curva.

Isto resulta no aumento do custo de transporte e faz a empresa Muralhas d’Água perder competitividade em relação aos concorrentes do setor, como nos explica o diretor-geral da fábrica. “Os transportadores pedem-nos mais dinheiro pelo transporte, quer para sul, quer para norte”, conta Albino Cardoso.

Ainda assim, há um setor a crescer no concelho, muito por causa das belas paisagens entre o rio Douro e a Serra do Montemuro. O turismo é, neste momento, a salvação de muitos habitantes de Resende, especialmente os mais jovens. É o caso de Nicolau Rabaça que há cerca de dez anos decidiu ficar e investir numa empresa de animação turística, que tem atividades náuticas radicais, mas também proporciona outro tipo de experiências como caminhadas e passeios.

“Os turistas adoram as pessoas e a paisagem, principalmente a paisagem, mas adoram as pessoas, o acolhimento e a hospitalidade. Eles levam sempre o nome Resende para casa e para onde eles estiverem”, conta o responsável pela empresa “Bastião da Natureza”.

Não muito longe daqui, Amarante é outro dos concelhos da sub-região do Tâmega e Sousa que perdeu eleitores no último mandato autárquico, foram quase 200 em apenas quatro anos. Entre junho de 2021 e junho deste ano, os dados do recenseamento revelam que o concelho baixou da ordem dos 50 mil votantes para 49 846, o que lhe vai tirar dois vereadores já a partir de outubro. Em vez de nove, passam a ser sete mandatos autárquicos, incluindo o presidente de Câmara.

Apesar das perdas, o autarca de Amarante acredita que será possível inverter o decréscimo do número de eleitores. “A partir de 2020, a população tem, paulatinamente, aumentado”, explica Jorge Ricardo.

O social-democrata que assumiu a presidência da autarquia apenas em fevereiro reconhece que a perda de mandatos autárquicos vai impactar a vida do município. “Termos menos vereadores com pelouros, traduz-se numa carga de trabalho”, lamenta Jorge Ricardo ao mesmo tempo que pede a alteração à lei eleitoral.

O presidente da Câmara de Amarante recusa estar longe de grandes centros como a cidade do Porto, mas reconhece que o valor das portagens na A4 é negativo para o concelho. “Sabemos que o custo das portagens daqui ao Porto são quatro euros, alguém que tenha aqui uma empresa em termos de contratação tem de pagar um salário superior relativamente à Área Metropolitana”, reconhece o autarca amarantino.

Ainda assim, a Fisher Connectors, uma empresa de produção de conectores e cablagens, escolheu Amarante para se instalar há três anos, muito por causa dos trabalhadores portugueses que integram a fábrica suíça do grupo Conextivity, que tem também presença na Alemanha e nos Estados Unidos.

O diretor de operações em Portugal confirma a dificuldade em atrair talento por causa da localização. “Recrutar algumas funções é um desafio, temos de ir para zonas mais próximas do Porto onde encontrámos estes perfis, mas aí encontrámos um problema significativo. O custo de deslocação é gigantesco por que temos portagens, temos combustível, temos o próprio tempo que a pessoa tem de despender na viagem. Isto tira-nos competitividade quando começamos a falar de empresas que estão mais próximas do Porto”, assume Mauro Pereira.

Ainda assim, a previsão do grupo é fazer crescer a fábrica em Portugal. Neste momento a Fisher Connectors tem 189 trabalhadores, mas o objetivo é chegar aos 300 em Portugal, com a deslocalização da produção de outras unidades do grupo já prevista para a estrutura instalada em Amarante.

Neste concelho, o turismo também cresce a olhos visto e tem sido uma oportunidade para os mais jovens, como João Baptista que arriscou fundar uma empresa de gestão de alojamento turísticos e hoje já gere 14 AL no concelho.

“Temos sentido um aumento bastante grande no número de visitas, já lá vão os tempos em que os meses de novembro, janeiro ou fevereiro eram meses quase de não ter ninguém e, neste momento, os alojamentos turísticos já têm na ordem dos 75, 80% de ocupação durante todo o ano”, revela o diretor da Hostess.

Apesar dos milhares de turistas que passam por aqui todos os anos, são cada vez menos os que escolhem estes dois concelhos da região do Tâmega e Sousa para viver. A partir de outubro, a perda de população terá impacto direto no número de mandatos dos executivos municipais, mas também nos orçamentos das Câmaras de Resende e de Amarante, naquela que continua a ser a região mais pobre de Portugal.

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