Na Associação Equiterapêutica do Porto e Matosinhos “o cavalo é a essência e a base de toda a intervenção”
Pedro Benjamim
Faltavam 15 minutos para o dia começar oficialmente na Associação Equiterapêutica do Porto e Matosinhos (AEPM), em Leça do Balio. Alguns elementos da equipa preparavam o arranque da jornada de trabalho. Tomavam café e interagiam com os cães que moram na Quinta do Catassol. “O cavalo é a essência e a base de toda a intervenção”, diz a presidente da associação, Joana Pereira, e este artigo mostra como se concretiza.
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A também psicóloga explica que as terapias desenvolvidas na AEPM não vivem só da “relação direta do montar o cavalo. É tudo o que está à volta do cavalo, tudo o que está inserido no contexto, desde a preparação da alimentação, o banho, a manutenção dos campos, a produção de feno”.
Apesar de o cavalo ter um “fator motivacional muito grande, pela relação que estabelece”, a presidente frisa que “a intervenção é exatamente igual se estivéssemos numa clínica convencional. É fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional, terapia da fala. No entanto, nós utilizamos quer um contexto, quer um interlocutor diferente que é o cavalo”.

O dia no Centro Equestre Integrado começou com o tratamento do feno que é produzido internamente e que vai alimentar os dez cavalos da AEPM. A Zara e o Valongo são os dois que estão há mais tempo na associação, além da Cabriola, que vive no Centro Hípico junto ao Porto de Leixões. A Dourada e a Geada são as adições mais recentes. Chegaram há cerca de dois anos.
Além dos cavalos, a equipa da associação que foi fundada em 2010, soma 16 pessoas, entre eles fisioterapeutas, terapeutas da fala, psicólogos, terapeutas ocupacionais, psicomotricistas, terapeutas de equitação e assistentes operacionais.
Na Quinta do Catassol, morada do Lar do Comércio, é onde se encontram todas as respostas da AEPM. “Temos a parte do desporto adaptado, temos a formação profissional, que a nossa associação também é certificada pela DGERT [Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho], temos a formação profissional, temos a parte das oficinas de vida diária, que é um projeto financiado pelo PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] com o apoio da Câmara Municipal de Matosinhos”, refere a presidente.
“Neste momento contamos com cerca, resposta total, entre os 370 a 380 casos clínicos”, que passam pela associação pelo menos uma vez por semana, complementa Rui Botelho que é psicomotricista e pertence também à direção da AEPM.

Ao mesmo tempo que era tratado o feno, os utentes das oficinas de vida diária iam à horta para apanhar favas para a sopa do dia seguinte. “Estão cá das 9 às 5 a desenvolver tudo o que sejam tarefas, cuidar da casa, da quinta, de animais, que desenvolva competências de funcionalidade e de autonomia, para eles depois, por exemplo, se tiverem que ficar algum período em casa sozinhos, possam estar os pais ou os cuidadores, possam ficar tranquilos, de forma a que se tiverem que ir para um emprego, nem que seja a part-time, consigam-se deslocar autonomamente na comunidade”, explica Joana.
“Já temos muitos jovens integrados no mercado de trabalho como tratador de cavalos”, conta. Dois dos jovens são agora funcionários da associação, mas outros sete são tratadores de cavalos noutros locais.

Já no picadeiro, quando o relógio marcava as 10 horas, arrancava uma aula de equitação terapêutica. Cristiano montava o cavalo e Sara, terapeuta ocupacional, orientava a aula, que começou com duas voltas ao picadeiro. Mais tarde chegava um grupo da Associação do Porto de Paralisia Cerebral, que começou por fazer atividades na mata. Depois, foi tempo de o picadeiro voltar a ser o palco principal, para uma sessão de terapia com cavalos.
A escolha do cavalo não é aleatória e, além da personalidade, a fisionomia do animal é tida em conta. “Os cavalos têm a sua personalidade e que depois nós também conforme o caso clínico que nós temos escolhemos o cavalo mais apropriado se tem um dorso mais largo, se tem um dorso mais fino, se tem um tipo de passada mais curta ou maior e que vai influenciar a informação que vai dar à pessoa que está a montar a cavalo”, conta Rui Botelho.

“Eles têm uma vida santa”, acrescenta Joana Pereira. “Nós temos muitos cavados e eles passam grande parte do dia em ‘paddock’ ou em campo, por isso eles têm uma vida santa, passam o dia no exterior, a pastar”. Os cavalos “são treinados para o efeito e depois são escolhidos também de acordo com as suas características para aquilo que nós queremos”, aponta a presidente. “Há cavalos que nós percebemos que não gostam de determinadas atividades ou não gostam, por exemplo, de muita confusão nas dinâmicas de grupo e nós não os colocamos”, explica.

Passavam poucos minutos do meio dia quando chegou Isabel. Uma idosa com demência, que montava a cavalo quando era mais jovem. Por indicação médica já não monta, mas mantém o contacto, já que a família vê melhorias nos dias em que lá vai.
Descanso do cuidador
Uma das ambições da AEPM passa pelo projeto do descanso do cuidador “em que os pais de pessoas com deficiência deixassem cá os seus filhos e pudessem ir de férias, passar fins de semana descansar”, defende Nuno Botelho.
Mas para o concretizar, complementa Joana, é necessário haver infraestrutura. “Não queríamos que fosse um espaço só para dormir, queríamos que fosse um espaço, lá está, mais uma vez, aproveitando a natureza, aqui a nossa mata, aproveitando o contexto com os animais, e criarmos aqui um espaço em que os pais, quando os pais ou os cuidadores deixassem cá os filhos, por exemplo, para passar o fim de semana, soubessem que eles estão a fazer atividades, que estão em contacto com animais, em contacto com a natureza, que estão a trabalhar na mesma e a aprender, que não seja só o deixar por deixar porque eu quero ir passar o fim de semana”
“Os pais precisam de férias e os filhos também precisam de férias. Então isto não ser só um sítio onde eu deixo o meu filho para eu ir descansar, é um sítio onde o meu filho também vai fazer férias”, conta Joana. “O meu filho vai para um campo de férias, vai para um local onde também vai aprender, onde vai andar a cavalo, onde vai à piscina, onde vai fazer férias também”, termina.
