Moradores reúnem-se para contestar construção de torres na Nun’Álvares
Inês Saldanha
Um grupo de moradores reuniu-se esta quarta-feira, numa sessão privada, para discutir o projeto urbanístico da futura Avenida Nun’Álvares, que prevê a construção de três torres com cerca de 100 metros de altura. A reunião surge na sequência de crescentes preocupações com o impacto urbanístico, ambiental e social do empreendimento, aprovado pela Câmara Municipal do Porto.
Miguel Aroso, um dos moradores pertencente ao movimento cívico que contesta a proposta, sublinha que o projeto está "completamente desenquadrado da envolvente" e critica a forma como foi apresentado à cidade.
“Isto era um projeto estruturante para a cidade. Eu acho que é de bom tom que a democracia se faça dos cidadãos para os políticos, não é os políticos serem eleitos e depois apresentarem os projetos como dados adquiridos”, lamentou o residente, em declarações ao Porto Canal.
Na opinião de Miguel Aroso, o plano atual representa uma rutura com a proposta inicial, que previa edifícios mais baixos, amplos espaços verdes e integração com a linha de metro planeada entre a Praça do Império e Boavista.
“Eu pergunto, neste triângulo delimitado entre Avenida da Boavista, Avenida Marechal Gomes da Costa e as Avenidas Atlânticas, como é que o metrobus a fazer a Praça do Império e Boavista vai escoar mais 5 mil pessoas aqui”, inquiriu.
Miguel Aroso questionou ainda de que forma a zona estará preparada para responder às exigências nas áreas da “saúde, do ensino e da segurança”, tendo em conta o aumento significativo de população previsto com o novo projeto.
O morador defendeu ainda que o projeto deve ser suspenso de forma a permitir uma reavaliação com o envolvimento da população.
“Nós o que queremos é que o projeto seja suspenso para poder ser reavaliado com os portuenses, com o envolvimento de equipas pluridisciplinares, para que se encontre uma solução verdadeiramente vencedora para todas as partes”, reiterou.
Miguel Aroso defendeu ainda que a concretização da “avenida deve avançar”, sublinhando, no entanto, que isso deve acontecer “com uma solução de médio e longo prazo, do ponto de vista da mobilidade”.
Helena Pinheiro Torres, também moradora na zona, manifestou-se contra a construção das torres, considerando que estas representam uma “aberração” que irá descaracterizar por a área.
A residente alertou ainda para o aumento do trânsito e da densidade populacional, questionando a preservação dos espaços verdes existentes.
“Tem lá uns senhores que cultivam as hortas, há 40 e tal anos. Tem um caminho que faço desde pequenina, nasci aqui e vivi aqui sempre e agora acho que vai ser uma coisa horrível”, referiu.
O projeto da nova Avenida Nun’Álvares, relançado em 2023, foi aprovado por unanimidade em maio deste ano pela Câmara Municipal do Porto, com a abstenção da CDU.
A futura via, com 1,5 quilómetros de extensão, ligará a Praça do Império à Avenida da Boavista e está dividida em três unidades de execução (UE1, UE2 e UE3), que preveem a construção de habitação, comércio e serviços, num total superior a 1.600 fogos.
O plano inclui ainda a criação de dois parques junto às ribeiras de Nevogilde e da Ervilha, duas praças, ciclovias, vias para autocarros e automóveis, e passeios amplos.
Pedro Baganha, vereador do Urbanismo, sublinhou que a aprovação dos “loteamentos vai permitir, finalmente, concretizar uma aspiração de mais de 100 anos do município do Porto”, cujo processo urbanístico poderá ficar concluído “antes do verão de 2026”, após a finalização dos projetos técnicos e do Estudo de Impacto Ambiental.
O projeto tem sido envolto em polémica, devido a alegadas interferências no traçado que levaram à abertura de um inquérito por parte da Procuradoria-Geral da República (PGR). A investigação surgiu na sequência de uma edição da revista Sábado, que referia que o traçado agora proposto "salva parte do terreno da casa e também do jardim arrendado pelo presidente da Câmara Municipal do Porto".
