Vinis estão na moda e na Maia exporta-se para todo o mundo
João Nogueira e Inês Saldanha
A Audiowax abriu portas há dois meses em Nogueira da Maia e é, neste momento, a única fábrica de produção de vinis a operar no Norte de Portugal. Apesar de jovem, a empresa já soma cerca de “80 edições” produzidas, com uma carteira de clientes maioritariamente internacional, que inclui países como Japão, Argentina, Brasil e Estados Unidos.
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Zé Pedro, um dos sócios da Audiowax, acredita que este crescimento está alinhado com a ascensão global do vinil, que, na sua opinião, “vai continuar a competir diretamente com o digital”.
“O vinil tem ganho muita força atualmente. Às vezes via as pessoas que compravam o vinil e faziam uma história nas redes sociais a segurar o vinil. Eu tinha noção que, muitas vezes, era simplesmente um colecionador que comprava e ficava ali estático. Ultimamente eu tenho visto mais histórias dos vinis a girarem no gira-discos”, referiu Zé Pedro, sublinhando que, hoje, as pessoas “ouvem efetivamente” os discos.
Dentro da fábrica, o processo de fabrico decorre com uma precisão quase artesanal. Em poucos minutos, pequenos fragmentos de PVC ganham nova vida e transformam-se numa obra sonora.
Tudo começa com o plástico vinílico introduzido numa máquina que os aquece e comprime até formarem uma massa densa. Essa pasta é moldada num disco espesso, que será, depois, prensado até atingir as clássicas 12 polegadas de diâmetro – o tamanho ideal para acomodar as faixas de um LP.
É nesse momento que o som ganha forma: as ranhuras são gravadas através da pressão de um molde, deixando impresso no vinil o conteúdo sonoro. A seguir, o disco é aparado para garantir um círculo perfeito. Sempre que o cliente o solicite, o material excedente pode ser reutilizado.
“Parte da rebarba do que sai do corte, do excesso do disco, nós podemos fazer a incorporação num novo disco”, explicou Jorge Álvares, também sócio da empresa.
A sustentabilidade tem sido uma preocupação desde o início. Na produção, é utilizada uma mistura composta por “70% de PVC virgem” e “30% de PVC reciclado” – sem qualquer “perda de qualidade”, garante Jorge Álvares.
Para o empresário, a base do processo pouco mudou desde as décadas de 1960 a 1980. No entanto, sublinha que hoje há avanços significativos “ao nível da qualidade, controlo, software e de melhores equipamentos”.
Na opinião de Pedro Junqueiro, também sócio da Audiowax, o vinil vai muito além do som: “um disco de vinil, ao contrário de um CD, é um objeto de arte”.
“Apreciamos o artwork, as imagens, o próprio ato de colocar o disco e pô-lo a tocar e a parte sonora”, considerou.
Junqueiro fala com paixão. É também colecionador e tem “milhares de discos” na sua coleção pessoal. Conta que tudo começou em 1988, quando descobriu o seu fascínio pela música.
“Uma pessoa tinha um, dois ou três discos e devorava aquilo de uma ponta à outra. Ouvia o disco vezes sem conta, lia as letras todas, cantava, decorava – isso faz tudo parte do meu crescimento enquanto apreciador de música”, recordou.
Atualmente, Portugal conta com duas fábricas de produção de vinil: a Audiowax, em Nogueira da Maia, e a Grama Pressing, que foi criada no Porto mas, após ser vendida no ano passado, transferiu a sua operação para Leiria.
Curiosamente, foi nessa primeira fábrica que Jorge Álvares conheceu Zé Pedro e Pedro Junqueiro, na altura ainda clientes. Da relação comercial nasceu uma nova sociedade – e com ela, um novo espaço dedicado ao renascimento do vinil no Norte do país.
