Investigadores do Porto lutam para travar tuberculose em Portugal e no mundo

Investigadores do Porto lutam para travar tuberculose em Portugal e no mundo
Foto: Pedro Benjamim | Porto Canal
| Porto
Catarina Cunha

É no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (I3S) que Margarida Saraiva e a sua equipa, composta por dez elementos, estudam desde 2015 “como é que a bactéria que provoca a tuberculose se adapta e escapa ao sistema imune”. No Dia Mundial da Tuberculose conheça os investigadores que trabalham para reduzir a mortalidade de uma das doenças infecciosas mais fatais do mundo.

 
 
 
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É no BSL-3, laboratório de biossegurança de nível 3, que a portuense Margarida Saraiva e os seus investigadores encontram-se a atacar a tuberculose. Estão fechados naquele espaço de contenção, utilizado para trabalhar com agentes de risco biológico, durante “três a quatro horas”. Antes de ali entrar, têm que vestir um pijama cirúrgico e um vasto equipamento de proteção pessoal, composto por uma máscara, touca, bata, dois pares de luvas e proteção para o calçado. Este processo pode demorar entre 25 a 30 minutos e ser repetido sempre que tiverem que abandonar o local para beber água ou ir à casa de banho.

“Nós estudamos um grupo superior a 650 pacientes que tinham sido seguidos com tuberculose no Hospital São João. Conseguimos categorizar os doentes, de acordo com a severidade da doença e recuperar as bactérias que os estavam a infectar. Depois, começamos a fazer estudos in vitro (...) e a tentar perceber como é que aquelas células que tinham sido isoladas de indivíduos com uma tuberculose mais ou menos severa interagiam de forma diferente com células do sistema imune. Assim, percebemos que havia de facto diferenças e que as bactérias por si só, têm uma espécie de uma capacidade de diferenciar a resposta imune, que depois permite uma severidade maior ou menor no indivíduo infectado”, explica a coordenadora.

Os dez anos de estudo possibilitaram à equipa de “Immune Regulation” do I3S concluir que as bactérias que provocam a tuberculose, pertencentes à espécie designada Mycobacterium Tuberculosis, “não são exatamente iguais”.

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 Antes de entrar no BSL-3, investigadores têm que vestir um pijama cirúrgico e um vasto equipamento de proteção pessoal. Fotografia: Pedro Benjamim| Porto Canal

Questionada sobre as razões para o longo período de investigação, a investigadora justifica-se com o facto de a doença em estudo ser de instalação lenta. “Algumas bactérias crescem no seu meio adaptado de um dia para o outro, mas no caso da Mycobacterium Tuberculosis demora três semanas. [Para além disso] trabalhamos com grupos de pacientes, o que implica fazer recrutamento, algo que leva o seu tempo”, exemplifica.

Anualmente, a tuberculose provoca mais de 1.25 milhões de mortes e 10 milhões de novos casos. Os números em Portugal “não são tão baixos como seria desejável e expectável” pela opinião pública. Tem se verificado uma tendência crescente que só deverá normalizar “nos próximos três a quatro anos”. O atraso na testagem durante a pandemia covid-19, há precisamente cinco anos, é um dos motivos dados pela especialista para o recente pico de casos no país.

Ainda neste capítulo, realça a similaridade dos sintomas da tuberculose (tosse, fadiga e febre) para com outras patologias também adia o diagnóstico. “Muitas vezes o que acontece é que não é a primeira suspeita sobretudo em locais de baixa incidência (...) É uma doença de instalação lenta, não é uma doença aguda (...) Numa fase inicial, os sintomas não são tão óbvios”, sintetiza.

Norte com locais de grande incidência em tuberculose

Margarida Saraiva esclarece que o nível de “incidência da tuberculose em cada país depende das condições de vida” e elucida que, normalmente, em locais fechados ou aglomerados familiares existe uma propensão para a subida dos casos. O mesmo acontece com certas regiões do país. “No caso do Norte de Portugal, também há alguns locais que têm incidência superiores a outros, tal como acontece no Sul” (...) por exemplo “Penafiel é uma zona com muitos casos, Viana do Castelo também acumula alguns, tal como o Porto que tem regiões com elevado número”, especifica.

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 Habitualmente, investigadores permanecem em laboratório durante “três a quatro horas”. Fotografia: Pedro Benjamim | Porto Canal

“A pobreza é um perpetuador da tuberculose”

Neste seguimento, a bioquímica salienta que a pobreza é um dos principais problemas associados à erradicação desta doença infecciosa. “A tuberculose é um perpetuador da pobreza e a pobreza é um perpetuador da tuberculose. Este ciclo vicioso é muito difícil de quebrar, porque não conseguimos acabar com a pobreza no mundo, logo, provavelmente não conseguiremos facilmente acabar com a tuberculose”, divulga, enfatizando também que o estigma associado à patologia ainda é significativo.

“Não há uma carreira de investigação em Portugal”

Margarida Saraiva dedicou toda a sua vida profissional às bactérias e à imunologia. Depois de concluir a Licenciatura em Bioquímica pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), viajou para o Reino Unido onde fez um doutoramento em Virologia. Em 2007, regressou a Portugal para integrar-se ao Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS) da Universidade do Minho. Só passado oito anos é que voltou à cidade de onde é natural, o Porto, para liderar o grupo de investigação do I3S.

Familiarizada com área, sublinha com segurança os entraves em constituir uma carreira em investigação. Salienta sobretudo a instabilidade em estabilizar um grupo de trabalho. Ao seu encargo, tem cerca de dez pessoas “muito diferenciadas e com os seus próprios projetos”. “Temos pessoas numa fase pós-doutoral, alunos em doutoramento e também em mestrado”, a etapa de ensino mais baixa que integra em ambiente de laboratório.

 

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