"Ainda vão casar hoje?”. Lurdes e Manuel deram o nó a 25 de Abril de 1974 no Porto

"Ainda vão casar hoje?”. Lurdes e Manuel deram o nó a 25 de Abril de 1974 no Porto
| Porto
Ana Francisca Gomes

Em dia de S. Valentim, Lurdes e Manuel Sousa, de 79 e 77 anos, recordam como estavam longe de imaginar que a quinta-feira que escolheram para casar seria um dia histórico para o país. Há mais de meio século juntos, deixam conselhos aos casais mais novos: “É preciso ser tolerante e haver respeito”.

25 de Abril de 1974. O relógio anunciava as 8h30 da manhã quando o telefone tocou.

E: Ó Lurdinhas, ainda vai casar hoje?
L: Eu vou. E estou a contar com a Dona Estela.
E: Mas não sabe que tomaram Lisboa?
L: Não faz mal, eles que venham por aí acima [até Ramalde].

Era uma quinta-feira. Um dia pouco comum para se escolher casar, mas as circunstâncias e a força do destino ditaram que Lurdes e Manuel Sousa subiriam ao altar naquela que estava prestes a tornar-se a data mais importante da história do país.

A meio da manhã Lurdes foi até à Praça da República, na extinta freguesia de Cedofeita, buscar o seu ramo de noiva. Ao fundo, a polícia de choque rodeava o Quartel de Santo Ovídeo. “Pensei logo que à tarde ia haver bombardeamentos”, recorda passados quase 51 anos, “mas de resto a cidade parecia continuar igual”.

O ‘dia inicial inteiro e limpo’ amanheceu de forma tímida no Porto, com muitos a tardar a conseguir perceber o que tinha verdadeiramente acontecido. As notícias que iam chegando da capital davam conta de que um Golpe Militar das Forças Armadas tinha eclodido e estaria no bom caminho.

Os astros pareciam ter-se alinhado para aquilo que Lourdes mais desejava para o seu casamento, que aconteceu às 16h na Igreja de Ramalde. “Não queria que ninguém ligasse muito à cerimónia e realmente ninguém prestou atenção nenhuma, as pessoas estavam com os transistores [pequenos receptores de rádio] para ouvir as notícias do que se passava”.

Já no copo-d´água a preocupação tinha-se tornado outra. Um dos irmãos de Lurdes, José Barbosa, andava na tropa, mas de nada sabia quando os convidados lhe iam contando que tinha estourado uma revolução. Ligou para o seu capitão, que o mandou ir o mais rapidamente possível para Espinho. Todos se juntaram para lhe preparar um lanche para levar para o caminho.

“E depois estávamos aflitos porque não sabíamos se ele tinha passado a Ponte da Arrábida. Ele nem levou o carro dele, que era muito conhecido, levou o meu. E levava a farda escondida. E nós ficámos em pulgas para saber se ele tinha passado ou não, porque as pessoas podiam estar a ser revistadas”.

O certo é que passou. E regressou para a família três dias depois. “Obriguei o Estado a fazer um feriado”, brinca agora Lurdes.

Porto Canal

Agora, com mais de meio século de casamento e com dois filhos e três netos, não escondem qual o (simples) segredo para continuarem juntos: “Entendemo-nos bem”, diz Lurdes, de 79 anos. “Há amizade, há empatia, há respeito. E andámos sempre juntos”, completa Manuel, com 77.

“Um mata, outro esfola”, diz o ditado. Mas o caso do casal septuagenário é diferente. “Onde eu vou, ela vai. E onde ela vai, eu também gosto de ir”, dizem, entre risos.

Em dia de S. Valentim, deixam um conselho aos mais novos: “Às vezes encontrar o parceiro certo não é muito fácil. Mas tem é que haver tolerância. E é preciso manter sempre o respeito”.

 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 

Uma publicação partilhada por Porto Canal (@porto.canal)

 

+ notícias: Porto

Trabalhadores das IPSS manifestaram-se no Porto para exigir retomar das negociações

Cerca de três centenas de trabalhadores de IPSS concentraram-se esta quinta-feira frente à sede da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), no Porto, para exigir o retomar das negociações com os sindicatos afetos à CGTP.

Metrobus do Porto regista média de seis mil viagens por dia

O metrobus do Porto regista uma média de seis mil viagens por dia, anunciou esta quinta-feira a secretária de Estado da Mobilidade, defendendo ser “absolutamente essencial” assegurar medidas que permitam reduzir tempos de viagem em transporte público face ao individual.

IHRU prevê iniciar reconversão de antigo quartel militar do Porto em habitação em 2027

O Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) espera começar a reconversão do antigo Quartel da Manutenção Militar, em Lordelo do Ouro, no Porto, em habitação acessível “no primeiro semestre de 2027”, avançou fonte oficial à Lusa.