Na Foz do Douro que o viu crescer, o Senhor Batatinha é agora eterno
Ana Francisca Gomes e Catarina Cunha
Junto ao Mercado da Foz do Douro, na Rua de Diu, todos param para observar o novo mural que se ergueu em tons de azul. Desde esta quinta-feira que o olhar de José Alves, mais conhecido por Senhor Batatinha, ficou eternizado numa obra que servirá de lembrança para quem conheceu aquele que se tornou um marco na história daquelas praias.
Há mesmo quem estacione o carro de propósito só para tirar uma fotografia - aconteceu pelo menos três vezes no espaço de cinco minutos. Mas ainda antes de serem retirados, esta quinta-feira, os andaimes que davam suporte ao material de pintura, a azáfama não era diferente da de agora.

“O feedback que recebi foi bastante positivo durante todo o processo da obra, até fiquei surpreendido porque houve mesmo muita interação dos locais”, conta ao Porto Canal MrKas, o artista urbano responsável pela homenagem, a quem as memórias de infância não se desfazem do homem de cabelos brancos que durante mais de 70 anos caminhou pelas praias do Porto e de Matosinhos a vender batatas fritas.
“Nas últimas semanas tenho vindo aqui à Foz e dou por mim a olhar para a praia e a reparar que falta ali qualquer coisa. Para mim a Foz do Douro nunca mais será a mesma”, partilha.
Foi na quinta-feira, depois de quatro dias de trabalho, que ficou terminado o mural que faz parte do Programa de Arte Urbana do Porto, pertencente à autarquia.
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Tiago Andrade, diretor de entretenimento da Ágora, explica que nos últimos 10 anos a empresa municipal tem tentado desmistificar uma ideia marginal sobre a arte urbana e que, ao longo da sua programação, têm falado muito de trabalhar o legado. “E o legado não tem que ser apenas de pessoas que, de alguma forma, são reconhecidas pelo seu trabalho académico ou profissional. É também estes anónimos que tanto contribuem para aquilo que é a identidade de uma cidade”.
Este é já o segundo mural dedicado ao Senhor Batatinha e nasceu de um “casamento perfeito” entre a vontade do artista MrKas, da autarquia e ainda do presidente da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, Tiago Mayan.
Já em 2023, na primeira edição da Baluarte – Exposição de Arte Urbana, José Alves tinha ficado eternizado num mural do mesmo artista no Monte Pedral, no Centro Histórico da cidade. Mas como uma nova operação urbanística prevista para este território, que deverá erguer cerca de 390 fogos de habitação acessível, a autarquia não sabe se conseguirá preservar a pintura.

Sete décadas a calcorrear as praias
José Alves Leocádio, conhecido carinhosamente como "Batatinha", faleceu aos 82 anos em março. Nascido em Santiago de Figueiró, em Amarante, o vendedor mudou-se para a cidade do Porto aos oito anos. Aos 12, já demonstrava seu espírito empreendedor ao vender caramelos. Posteriormente, junto com sua esposa, começou a sua jornada como vendedor ambulante de batatas fritas à inglesa nas praias da Foz do Porto e de Matosinhos.
A sua presença era inconfundível: vestido de branco, com uma boina na cabeça e um saco de papel recheado com batatas fritas. Por norma, anunciava a sua chegada com uma buzina que ecoava pelo areal.
Mesmo nos meses mais frios, após o término da época balnear, José Alves não desistia. Vendia castanhas assadas na Rotunda da Anémona, em Matosinhos. A sua marca durou por mais de sete décadas e rendeu-lhe um lugar especial no coração dos habitantes locais e dos veraneantes.
