Entre assédio e dificuldades, loja “rigorosamente nacional e do Porto” resiste na mesma família desde 1926
Alexandre Matos
Em pleno coração da Baixa do Porto, na rua de Passos Manuel, a quase centenária Casa Figueiredo é um dos últimos bastiões do comércio tradicional na cidade. De avó para pai, passando pelo tio e ainda a mãe, é agora o neto do fundador original da loja que a gere, de forma solitária. Ricardo Figueiredo tem 74 anos, e não pensa para já em fechar a loja.
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As portas abriram a 26 de novembro de 1926, e desde então o “metier”, como lhe chama Ricardo, foi sempre o mesmo: “papel pintado e tudo o que se refere à decoração e revestimentos”. Mas entre as muitas coisas que se mantêm – os produtos vendidos, a fachada, a grande parte dos interiores e o nome de família -, há também mudanças. A principal é mesmo o número de funcionários. Se hoje em dia é só Ricardo na Casa Figueiredo, noutros tempos chegaram a ser dez.
“Dedico-me só ao particular e mais nada”, diz Ricardo ao Porto Canal. “Não temos instalação, não temos mão de obra para instalar material”, confessa. “A pessoa compra se quer, se não quer, não compra”.
O negócio, por essas razões, não é o que já foi, mas nem isso demove o homem que faz parte da terceira geração da família à frente da loja. O orgulho é grande, e Ricardo tem um grande objetivo - “manter loja de rua” -, num Porto cada vez mais descaracterizado.
Mas apesar de reconhecer grandes alterações à Baixa portuense, com grande efeito nos pequenos comércios locais, Ricardo Figueiredo deixa uma garantia sobre a loja: “é rigorosamente nacional, e do Porto”. “E do Porto”, repete. “Claro que tenho guerra com Lisboa”, brinca o proprietário da loja.

“Fui assediado para me vir embora, logicamente”
Apesar dos 74 anos, Ricardo Figueiredo não vê ainda o tempo de ir para casa. “O que é que eu vou fazer?”, pergunta. “Vou para casa fazer croché? Não, não gosto de fazer croché. Gosto de martelos, ferrugem, de dar cabo das mãos”, admite.
Mas isso não quer dizer que não tenha tido já propostas para abandonar a loja no número 9 da rua de Passos Manuel, um local muito apetecível para outros negócios. “Fui assediado para me vir embora, logicamente”, confessa, revelando que já foi abordado por diversas vezes para sair daquele local. Recusou sempre.
Mas o futuro não augura nada de muito positivo. Ricardo diz que tem um filho que pode, eventualmente, pegar na Casa Figueiredo, mas admite que reconhece as dificuldades de manter um negócio como o seu nos dias de hoje. “É preciso ter muito gosto a isto”, confessa.
