"Falta sensibilidade na manutenção do betão brutalista" do Porto, alertam arquitetos

"Falta sensibilidade na manutenção do betão brutalista" do Porto, alertam arquitetos
| Porto
Porto Canal \ Agências

Os arquitetos Magda Seifert e Pedro Baía, editores do livro Porto Brutalista, alertaram para a falta de sensibilidade na manutenção do betão na região, salientando que projetos como a requalificação da escola Pires de Lima devem respeitar aquela estética.

"Quando trabalhámos no livro sentimos, ao falar com os arquitetos e ao visitar as obras, que se faziam modificações na obra, ou até reparações feitas com a maior das boas vontades no sentido de estar a recuperar, mas não havia uma sensibilidade de respeitar a recuperação, o tratamento do betão", disse à Lusa Pedro Baía, em entrevista conjunta com Magda Seifert.

A arquiteta considera que neste tipo de edifícios "há uma estética do edifício que não deveria ser desvirtuada", e "não se pode ir lá tapar uma fissura da mesma forma que se o faz noutros edifícios".

Os dois arquitetos são diretores e fundadores da editora Circo de Ideias, tendo editado o livro Porto Brutalista em 2019, e falaram à Lusa a propósito do Mercado de São Sebastião, na Sé, considerando que a possibilidade de demolição, já avançada pela Câmara do Porto, "não choca", mas "tem de haver uma estratégia" para o local.

Sobre outro edifício que entrou recentemente para o debate público no Porto, a escola Pires de Lima, que a autarquia já sugeriu como possibilidade para substituir o centro comercial Stop para acolher músicos, Magda Seifert considera-o "um edifício brutalista incrível".

"Fica o alerta que na escola tem que haver esse respeito e essa sensibilidade para com a estrutura em betão, para com a espacialidade, para com os pormenores, e não começar a desvirtuar um edifício que é uma marca, um testemunho de uma determinada forma de fazer", acrescentou Pedro Baía.

Para o também professor universitário, o "essencial é respeitar a estrutura, a linguagem, os pormenores", independentemente do uso diferente do original.

O arquiteto lamenta que, por vezes, seja "difícil as pessoas que não têm essa formação, ou que não estão habituadas a pensar nisso, perceberem" aquela estética.

"Também porque em Portugal, especificamente, acho eu, não há um trabalho de manutenção dos edifícios. Ou seja, só se faz uma intervenção quando eles já estão efetivamente muito degradados, e tem que se fazer uma recuperação profunda", acrescentou Magda Seifert, pairando o espectro da demolição, até por motivos estético-políticos de uniformização.

"Berlim é um caso paradigmático deste tipo de situações em que, ao longo dos anos, consoante quem estava no poder, decidia demolir coisas mais associadas à ideologia comunista, ao nacional-socialismo [nazismo], ao império prussiano, e de repente demolem-se grandes quarteirões", disse Pedro Baía.

Para o arquiteto, é "mais interessante a ideia de palimpsesto urbano, com vários registos, com várias marcas, e poder ler também a história com base nestas marcas que vão ficando no tempo, tentando adaptá-las e não congelá-las".

Questionado sobre as contrapropostas de um grupo de arquitetos belgas para a Biblioteca Municipal do Porto, noticiadas pela Lusa em julho, em que classificavam o projeto de Eduardo Souto de Moura escolhido para o local como "pseudo-brutalista" e "fora de contexto", Pedro Baía disse que "há tendências e grupos de arquitetos que defendem que se deve fazer igual a um determinado século (...) e que se deve desenhar com essa tradição".

"Eu acho que será minoritário no panorama contemporâneo", disse Pedro Baía, reconhecendo, porém, que "têm voz", mas "quando se constrói de raiz, como ali no caso da biblioteca perto das Belas Artes, há sempre uma infinidade de possibilidades de hipóteses de projeto".

Para o académico, "fazer um edifício igual a outro parece a [hipótese] menos interessante delas todas, quando há a possibilidade de construir com as tecnologias atuais, com novas linguagens".

Pedro Baía considera que seria "estranho" se o município tivesse, por exemplo, "uma cultura de gosto em que as construções de raiz tinham que obedecer ao tempo dos Almadas", os planeadores urbanísticos do Porto no século XVIII, João de Almada e Melo e Francisco de Almada e Mendonça.

Como exemplo mais recente, o académico recorda a requalificação da Avenida dos Aliados aquando da construção do Metro do Porto, reconhecendo que "há um conjunto de pessoas que valoriza os arbustos e os canteiros que existiam".

"Compreendo que para muita gente haja ali uma ligação nostálgica e afetiva da sua infância, mas é muito mais interessante hoje, na contemporaneidade, o espaço que existe poder albergar concertos, eventos e manifestações do que canteiros, que é uma conceção de jardim que hoje já não faz sentido", defendeu.

Pedro Baía defende que "mais vale ter um Parque da Cidade com espaços de natureza ampla", e Magda Seifert completa que "as pessoas, de uma forma geral, retraem-se muito à mudança", mas "é preciso entendê-la como um processo de transformação que melhora os espaços".

A investigadora realça um exemplo da mesma época, a Casa da Música, que "se calhar no início era um objeto estranho na cidade, mas hoje já não o é", tal como a Casa dos 24, na Sé, acrescentando Pedro Baía as oficinas do Teatro Nacional São João, "um edifício que respeita o lote do Porto, em que o betão já tem musgo, e portanto está muito associado também ao granito", pelo que "já levou com a patine da cidade".

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