Os "filhos" da Afurada. Como é viver num dos bairros mais emblemáticos de Vila Nova de Gaia?

| Norte
Catarina Cunha

São 15h00. Cheira a mar e a tradição. É sinal que chegamos à Afurada, a Vila Piscatória em Vila Nova de Gaia, que tem paisagem para a outra margem do Douro, a Ribeira do Porto.

O Porto Canal parou para conhecer as gentes desta terra, aqueles que vivem há décadas neste canto à beira rio plantado.

 
 
 
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Logo no início de uma rua estreita, ainda decorada com cartazes da festa do São Pedro da Afurada, festejados dias antes, e preenchida com os mais velhos sentados à porta de casa a apreciar quem lá passa, batemos à porta de Maria Esmeralda.

Do outro lado, ouvimos rapidamente um “quem é”, muito desconfiado, mas, mal a porta se abre, somos recibos com um rasgado sorriso.

Antigamente a vida na Afurada “era dura”

A afuradense que estava entretida nos afazeres domésticos aceitou partilhar as memórias de uma vida, naquela terra. Com um pé fora e outro dentro de casa, Maria Esmeralda começa por dizer que vive na Afurada “há 71 anos, vou fazer 72 para o próximo mês”.

A residente que trabalhou mais de 20 anos na fábrica da conserva admite que a vida antigamente “era um bocadinho dura e havia fome, não tínhamos certas regalias como temos agora”.

“O meu pai era bacalhoeiro, ele ia para o bacalhau e quando vinda de lá pouco ou nada trazia. Nós estávamos seis meses sem o ver e quando ele regressava, se tivesse sorte de regressar, trazia pouco, mas isso tinha que dar para comermos”, comenta.

Logo em frente, cruzámo-nos com a vizinha de Maria Esmeralda. No alto dos seus 85 anos de idade, Ermelinda dos Santos relata que “tinha oito anos” quando chegou à Afurada e até hoje “nunca saí daqui”, tal é o gosto de viver nesta região.

Questionada sobre o auge da sua infância na Afurada, a habitante confessa que “era pobre e que se comia [apenas] caldo de farinha, contudo, depois a vida endireitou e melhorou para alguns, outros continuaram pobres”.

Deixámos Ermelinda descansar numa sombra, do outro lado da rua e fomos à procura de mais histórias. Andámos pouco mais de 500 metros e encontrámos um grupo de pessoas a conversar e a recordar as memórias de uma vida.

Depois de alguma insistência, Francisco Neto aceitou conservar connosco. Hoje, intitula-se como “cidadão da terra”, visto que vive na Afurada “desde que nasci, até hoje”, há mais de 70 anos. O morador refere que, antigamente, a vila era “pobre” e que mesmo nos dias de hoje “uns têm mais possibilidades do que outros”.

O afuradense que também foi sacristão da Igreja da Afurada durante 50 anos admite que apesar da metamorfose da vila “gosto de viver aqui”. “Há uma coisa boa aqui, nunca se morre sem peixe”, ressalva Francisco Neto.

Não podíamos dizer adeus, por enquanto, à Afurada, sem antes darmos ‘duas de letra’ com a emblemática Ana do Mar, a Ana mais conhecida da terra e arredores, tal como nos confidencia. Estava, como de costume, de avental ao xadrez e a fazer renda, em frente ao seu estabelecimento “Casa Ana”, apreciado pelos locais e turistas pelas iscas de bacalhau e os rojões à moda do Porto, disponível todos os sábados.

Quase sem levantar os olhos do pedaço de pano que estava a “construir”, divulga que vive na mesma casa na Afurada há praticamente 82 anos e que dantes na vila “era tudo pobrezinho (…) mas agora estamos bem, graças ao Pai do céu. Vivemos limpos e temos liberdade”.

Já no final da conversa com Ana do Mar, juntou-se José Moreira, antigo pescador. “Eu nasci aqui no bairro dos pescadores e fui criado aqui, trabalhei sempre na pesca, ia à noite e só se vinha de manhã.” Também na mesmo grupo de vizinhos estava Zulmira Gomes, residente na Afurada há 63 anos.

“Aqui somos uma família, em que todos se dão bem. Se virmos alguém desconhecido, ‘pomo-nos a toques’ para ver quem é. Assim, passamos os dias”, explica

Zulmira Gomes, que também trabalhou na fábrica de conservas antes da reforma, assume que no passado “nunca passei fome, mas não tinha fartura como a gente tem agora, em que damos tudo aos netos e eles até abusam”.

A nova Afurada recheada de turistas

Os filhos da terra que pisam a calçada da Afurada, muitos deles, há mais de 50 anos não são indiferentes à diferença notória na terra, com o crescimento do turismo e o investimento em imobiliário de luxo, mas garantem que a essência permanece nas suas gentes.

“A Afurada é muito visitada. Já não vejo a Afurada a ser visitada como agora. Eles [turistas] gostam do nosso falar e de ver-nos a fazer o nosso trabalho, ficam espantados”, afirma Ana do Mar, imitando os gestos.

José Moreira também concorda com a conterrânea. “A Afurada está muito desenvolvida, são espanhóis, franceses, italianos e ingleses”, completa.

“Vêm muito aqui para comer peixe”, acrescenta o morador Francisco Neto.

Os moradores não concordam que a massificação do inglês apague a tradição.

“A Afurada nunca muda, temos tudo”, comunica o ex-pescador José.

Antes de deixarmos os a vila piscatória e remarmos a outros destinos, Zulmira Gomes não deixou de dizer, relativamente, emocionada que “gosto da minha terra e um dia vou morrer aqui”.

 

 

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