“Afurada não está linda, porque não tem transportes”. Moradores queixam-se de isolamento
Catarina Cunha e Ana Francisca Gomes
Os habitantes da Afurada, em Vila Nova de Gaia, dizem-se esquecidos e isolados devido à falta de transportes naquela zona plantada à beira rio, para a cidade do Porto, seja por terra, ou pelo rio.
O isolamento deve-se ao facto que desde novembro de 2020 deixou de existir a centenária ligação fluvial, entre o Cais do Ouro, no Porto, e o Cais da Afurada, em Gaia, em tempos atravessada por centenas de locais, essencialmente varinas e pescadores, e turistas, diariamente.
No coração da Afurada, o Porto Canal cruzou-se com alguns moradores revoltados com esta situação. Maria da Glória, nascida e criada nesta freguesia, afirma revoltada, que “a Afurada não está linda, porque não tem transportes”.
“Agora não temos lancha. Tínhamos a carreira da marginal para o Porto, já não temos. Tínhamos a carreira que ia para a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e depois ia para o Porto, também já não temos, só temos aquela que vai para a Câmara. Tínhamos a carreira para a Boavista, também não temos”, descreve a moradora.
Ver esta publicação no Instagram
Maria da Glória e a sua vizinha da frente, Ermelinda Lapa, revelam que, atualmente, se quiserem ir para o Porto têm que chamar um táxi, visto não terem veículo próprio, uma solução pouco sustentável a nível económico. “Nós somos pobres, fica-nos caro [chamar um táxi]”, ressalva Maria da Glória.
Em 2022 uma leve esperança surgiu para os habitantes daquela zona histórica. Nesse ano, a Área Metropolitana do Porto (AMP) aprovou delegar ao Município do Porto e de Vila Nova de Gaia as competências para o transporte entre margens, permitindo à STCP Serviços lançar um concurso público.
Dois anos depois desse «passar a pasta», o Porto Canal contactou a entidade em questão em busca de razões para o adiamento da celebração do contrato. Por escrito, a STCP Serviços ressalva que “em termos legais a competência do transporte fluvial intermunicipal [ainda] é da AMP”, portanto não têm capacitações para efetuar o lançamento do concurso.
O Porto Canal tentou ainda obter respostas junto da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, que «atirou» a responsabilidade para a AMP.
Independentemente do responsável, e deste «diz que disse», a verdade é que o concurso continua por arrancar.
Neste momento, só em ocasiões festivas é que a embarcação volta a cruzar as margens do Douro, por um certo período de tempo, o que indigna quem lá vive. Segundo Maria da Glória, habitualmente, “a lancha apenas é colocada nas festas do São Pedro da Afurada”.
A habitante exaltada com a circunstância em que vive, até vai mais longe no discurso: “se toda a gente fosse como eu, a lancha não parava aí [no cais], porque eu à pedrada tirava-os de lá [do cais], porque se não há lancha durante a semana, também escusa de vir para as festas”.
A falta que os elevadores da Arrábida fazem-se aos moradores da Afurada
O distanciamento para o Porto também se agravou com a desativação dos elevadores da Ponte da Arrábida, na altura argumentada por questões de segurança. Passados anos desse sucedido, os moradores ainda anseiam pela retoma da ligação.
“Os elevadores deviam de estar ativados há muito tempo, sempre ajudava mais”, diz o morador Francisco Rodrigues. Maria da Glória, também concorda com a opinião do conterrâneo: “Se colocassem os elevadores a funcionar, para a Afurada era muito bom”.
Em 2017, a à época vereadora da Mobilidade da Câmara Municipal do Porto, Cristina Pimentel referiu numa reunião pública, que a autarquia e a Infraestruturas de Portugal estavam a “tentar encontrar soluções” para reativar os elevadores da Arrábida, em segurança.
Sete anos depois de «lançada» a esperança, o Porto Canal contactou o Executivo do Porto, responsável por esta «pasta», de forma a conhecer os avanços do processo, contudo até ao fecho desta reportagem a Câmara não prestou qualquer esclarecimento.
Os residentes da Afurada confirmam que as queixas acerca da falta de transportes já foram «entregues» ao Presidente da Junta da União de Freguesias de Santa Marinha e São Pedro da Afurada, Mário Santos, e ao Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues.
“Agradecia ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Gaia que lutasse por nós, porque precisámos de transportes”, finaliza, descontente, a moradora Maria da Glória.
