Ponte da Arrábida. Há 60 anos a ligar as duas margens do Douro

Ponte da Arrábida. Há 60 anos a ligar as duas margens do Douro
| Porto
Catarina Cunha

Na segunda metade do século XX, a modernidade chegava ao distrito do Porto em forma de ponte. A Arrábida começou a ser construída em 1957 e seis anos depois, a 22 de junho de 1963 estava finalizada. Hoje, completa 60 anos de história.

A segunda ligação rodoviária entre as duas margens do Douro - Porto e Vila Nova de Gaia - foi projetada pelo Engenheiro Edgar Cardoso, que à época era apelidado como o idealista das pontes. A estrutura foi a primeira a ser integralmente concebida, projetada e construída por mão de obra portuguesa, um feito histórico considerando a década em que Portugal se encontrava.

Passados 60 anos da construção da ponte, os portuenses ainda recordam aqueles tempos de martelo na mão, continuando a admirar o seu engenho e arte. Para comprovar isso, o Porto Canal foi ao coração da Afurada “dar duas de letra” com os moradores da zona.

No local, cruzamo-nos com Ana do Mar no auge dos seus 82 anos que conta que “a Ponte da Arrábida foi uma boa construção” e que fazia a travessia a pé com 15 anos de idade, sempre “carregadinha, com coisas à cabeça”. Outra conterrânea, Maria da Glória, relata que “quando a ponte estava a ser construída devia de ter uns 8 anos de idade, porque aos 11 já a atravessava para ir trabalhar”.

Naquele tempo, a ponte em arco de betão armado tinha o maior vão em todo o mundo, 270 metros, sendo, por isso, considerado o maior desafio arquitetónico da Engenharia portuguesa. Devido à sua dimensão, o povo achava que o arco não era estável e que poderia cair a qualquer momento. “O arco está muito seguro. Mas, quem não tinha a quarta classe dizia que o arco ia cair com aquele peso”, comprova Ana do Mar.

A construção da Ponte da Arrábida também esteve envolvida em mitos e rumores. Conta-se que António Oliveira Salazar não veio à inauguração, mas sim dias antes numa visita surpresa. “O Salazar quando veio, a ponte ainda não estava construída, o Salazar veio de noite”, refere a residente Ana do Mar, que admite que gostava de o ter visto. Américo Tomás, na altura Presidente da República, foi o responsável pela inauguração da infraestrutura.

Porto Canal

Créditos: Arquivo Historico da Câmara Municipal do Porto

Obra de relevância para a cidade e país

O Porto Canal também esteve à conversa com o Professor do Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Manuel Matos Fernandes, que também foi o responsável pela formalização do pedido de candidatura da Ponte da Arrábida a Monumento Nacional.

Segundo o especialista na área da engenharia, “com base na nova travessia da Ponte da Arrábida a própria cidade teve um grande desenvolvimento urbano e, portanto, a zona da Boavista, Campo Alegre, Ramalde desenvolveu-se e cresceu a partir daí".

“O Porto é uma coisa antes da Ponte da Arrábida e depois da Ponte da Arrábida”, enaltece o Professor do Departamento de Engenharia Civil da FEUP. 

A infraestrutura “permitiu que a Estrada Nacional N1 deixasse de passar no coração da cidade”, comenta Matos Fernandes. O mesmo diz que nos dias de hoje “a importância utilitária da ponte é a maior possível, uma vez que é o atravessamento mais importante no coração da Área Metropolitana do Porto”.

A “obra de maior relevância para a cidade e para o país” foi classificada como Monumento Nacional em 2013, no quinquagésimo aniversário da Ponte da Arrábida, num pedido que foi desencadeado por Manuel Matos Fernandes.

“A razão mais importante para pedirmos a classificação foi a defesa da ponte (…) em relação a um futuro alargado (…) e ao imediato (…) e o facto de a obra ser classificada impede que qualquer Governo no futuro, mais ao menos longínquo, prescinda da ponte e coloque uma outra ao lado e deite esta abaixo”, afirma o Professor.

A Vizinha da Arrábida que “vai valorizar o estuário do Douro”

Manuel Matos Fernandes revela que o maior presente para os seus 60 anos da Ponte da Arrábida foi “a seleção da nova travessia (…) a companheira que vai ter a 400 metros de distância do lado montante (…) vai valorizar o estuário do Douro”.

 
 
 
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