Na Junta de Freguesia do Bonfim ganha-se vida a dançar
Catarina Cunha
Às terças e quintas-feiras, o salão nobre da Junta de Freguesia do Bonfim, no Porto, enche-se de dança. Os responsáveis pelo “bailarico” são seniores com mais de 50 anos de idade, que “arrastam o pé” devido ao “AtivaMente”, um projeto da autarquia, em conjunto com a Universidade Lusófona do Porto, que tem como objetivo promover a integração social dos mais idosos, mas também o seu envelhecimento ativo.
A iniciativa tem aproximadamente dois anos de existência, tendo começado com apenas 20 alunos, mas hoje ultrapassa os 60 e até já há uma lista de espera. “Portanto, isto é para continuar”, promete ao Porto Canal o professor da turma.
Os sorrisos e a concentração dos alunos começam quando Simão Costa aumenta o som da coluna e dá as primeiras instruções para os passos de dança. Num espaço grandioso, com grandes portadas para o exterior, o que permite ver a azáfama do Campo 24 de Agosto, dança-se em pares ou sozinho e qualquer estilo, desde as latinas, às clássicas e até músicas populares.
“Eu habituei-os a gostarem um bocadinho de tudo. Mas, neste momento estão a aprender merengue e bachata. Às vezes, passo música popular e até músicas do TikTok que eles ouvem com os netos e depois sugerem-me colocar nas aulas”, afirma o coreógrafo.
As coreografias são adaptadas às capacidades motoras dos idosos, para facilitar a integração dos mesmos, seguindo a ideia de que a dança é para todos, ou seja, não existe um limite de idade.
Fotografia: Maria Leonor Coelho
O “professor Simão”, como é carinhosamente chamado pela turma, refere que há dois tipos de alunos nas suas aulas: os mais tímidos que com o convívio rapidamente se tornam sociáveis e os naturais comunicativos que “animam a sala de aula”.
O mesmo revela que as mulheres aderem em maioria a estas aulas de dança, contudo o grupo já conta com cinco homens, sendo que alguns deles foram “arrastados” pelas respetivas esposas, como comprova uma das alunas, Lucília Fonseca de 73 anos: “Consegui convencer o meu marido a vir às aulas comigo e ele está a gostar”.
Segundo o coreógrafo, a tendência para o público masculino dar uns “pezinhos de dança” tem vindo aumentar. Tal como diz o ditado popular português, "primeiro estranha-se, depois entranha-se".
Os benefícios da dança
Alguns "dançarinos" frequentam as aulas de dança para manter “um corpo são numa mente sã” e outros pelo sonho da arte dos movimentos. Apesar de rodopiarem por motivos diferentes, todos eles partilham o bem-estar que a modalidade lhes traz e o ambiente alegre vivido no “palco”.
“A dança para mim é felicidade, sempre foi algo que me seduziu, desde pequenina, ajuda-nos a passar melhor o tempo e desperta-nos uma vontade de viver, durante mais tempo”, refere a aluna Lucília Fonseca.
“Há medida que o tempo passa sinto-me cada vez melhor. Aqui, trabalhamos o equilíbrio e a flexibilidade, o que é muito importante para a nossa idade”, frisa outra aluna, Maria Inês França, também na casa dos 70 anos de idade.
Na fila do lado encontramos Fernando Sousa de 68 anos a dançar com a sua esposa, que tem a mesma opinião que as duas colegas:“é uma atividade essencial para a nossa idade. Eu tenho diabetes tipo 2 e sei que a dança ajuda-me e muito, a ver se duro mais tempo”.
Para o professor Simão Costa, o combate à solidão é um dos maiores contributos da dança. “Houve pessoas que me dizerem que antes da dança não saíam de casa e agora só esperam que chegue o dia de dançar. Para eles, todos os dias, existia esta atividade”, complementa.
O bichinho é tal, que após as quatro horas de aulas semanais, há quem faça da sala de estar de casa o seu espaço de ensaio, é o caso da aluna Carolina Pinto, de 71 anos. “Às vezes danço pelo meio da sala, o sofá não nos faz bem, todos os movimentos que possamos fazer só nos prolonga a vida”, sublinha.
Fotografia: Maria Leonor Coelho
Professor “paciente e jovem”
Simão Costa, bailarino profissional e professor de dança há quase uma década confessa que iniciou o projeto “AtivaMente” com algum receio, mas hoje adora aquilo que faz. Os alunos também expressam largos elogios ao "mestre". Lucília Fonseca revela que “o professor é ótimo. Nunca conheci ninguém como ele. Além de ser jovem, é uma pessoa que tem muita paciência para os velhotes”.
Em nome do Dia Mundial da Dança, celebrado no dia 29 de abril, os seniores sugerem a outros idosos arriscarem a entrar neste mundo e abandonarem o desânimo e a preguiça natural da idade e da rotina diária.
Notícia editada por Francisco Graça