Operações arqueológicas redescobrem passado em castelos do Norte

Operações arqueológicas redescobrem passado em castelos do Norte
| Norte
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A Operação Castelos a Norte durou cinco anos e visou proteger, potenciar e promover os monumentos para a população e para os turistas. Património integrado "num legado da arquitetura militar da Região Norte que importa valorizar e divulgar."

Constituiu uma candidatura ao programa NORTE2020 apresentada pela Direção Regional de Cultura do Norte e pelos municípios de Montalegre e Miranda do Douro, abrangendo cinco castelos: Montalegre, Monforte (Chaves), Outeiro (Bragança), de Miranda do Douro e Mogadouro, relevantes exemplares de património classificado e propriedade do Estado. Estes monumentos com origem medieval contaram com a utilização de armas de fogo a partir do século XVI com a construção de fortificações abaluartadas. O progressivo abandono a partir do século XVIII, com o fim da utilização militar, levou à respetiva degradação. Um conjunto de castelos com valor patrimonial, histórico e artístico relevante, representando estruturas defensivas fundadas na Idade Média, no início da nacionalidade, as quais tiveram um papel relevante na organização territorial e na proteção da fronteira nacional.

O objetivo principal prendeu-se com a conservação, proteção, promoção e o desenvolvimento do património natural e cultural. Uma operação que arrancou a quatro de novembro de 2016, tendo sido concluída a 30 de outubro de 2021, com um custo de mais de dois milhões de euros. A mesma contou com um apoio financeiro da União Europeia a rondar o mesmo valor e outro Público Nacional/Regional de cerca de 300 mil euros. Todas as ações (levantamentos fotográficos, levantamentos topográficos e arquitetónicos, escavações arqueológicas, empreitadas de conservação e restauro, ações de promoção/divulgação) foram realizadas através de subcontratação a empresas especializadas.

Paulo Amaral, Gestor/Coordenador de toda a Operação Castelos a Norte, conta ao Porto Canal que "os castelos de Montalegre, Miranda do Douro e Mogadouro, pela sua localização no centro das atuais povoações, têm ainda hoje um papel estruturador na vida urbana das localidades funcionando, simultaneamente, como principal atração e sala de visitas. Assim, a recuperação e valorização agora realizadas, e que vêm na sequência de intervenções de conservação e restauro desenvolvidas pelas DRCN no âmbito dos anteriores quadros comunitários, são importantes do ponto de vista patrimonial, pelas ações de conservação do património e da sua disponibilização à fruição pública, mas também são relevantes para a requalificação urbana e a qualidade de vida das comunidades".

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Vista aérea do Castelo de Monforte. Foto: DRCN

O responsável acrescenta que "a fortificação de Outeiro (Bragança) e a vila amuralhada e o castelo de Monforte (Chaves) situam-se hoje afastadas das atuais povoações. O castelo e fortificação de Outeiro, sobranceiro à atual povoação, foi destruído no século XVIII, encontrava-se em estado de ruina e nunca tinha sido objeto de intervenções de conservação e restauro pelo que a intervenção realizada pretendeu iniciar a investigação sobre o local e implementar medidas de estabilização e conservação das ruinas, para além de permitir uma melhoria na visita pública em articulação com o santuário de Outeiro (requalificado pela DRCN), situado no atual aglomerado urbano e que constitui com um castelo um conjunto de assinalável valor patrimonial com capacidade de atração do ponto de vista do turismo cultural. A vila amuralhada e castelo de Monforte de Rio Livre foi um concelho medieval e uma povoação com importância na estruturação do território do Alto Tâmega, abandonada no século XVIII, conservando-se as muralhas da vila e o castelo com uma imponente torre de menagem".

Balanço da operação

Os objetivos da operação foram atingidos, diz a organização, com a conservação e valorização dos vários castelos, promovendo a sua atratividade ao público e a melhoria das condições de visitação, bem como realizou atividades de divulgação visando a publicitação destes monumentos.

O que foi feito e principais descobertas obtidas

No Castelo de Outeiro, em Bragança, foi realizada uma limpeza da vegetação, primeiro passo para permitir um levantamento topográfico e fotográfico do monumento, assim como permitir acesso condigno aos visitantes. De seguida, então, deu-se início à Intervenção Arqueológica, direcionada para a exumação de trecho do setor nascente da muralha, e uma Empreitada de consolidação e restauro de estruturas, requalificando trechos dos setores nascente e poente da muralha. Com isso, “foi possível identificar na plataforma superior um conjunto de estruturas correlacionáveis com a torre central que aqui existiria, vestígios da cisterna, correspondendo a uma estrutura escavada no afloramento rochoso, e ainda estruturas representadas nas plantas quinhentista e setecentista. Na plataforma inferior identificaram-se vestígios da Capela Santa Luzia, bem como diversos enterramentos humanos, de ritual cristão, em estruturas sepulcrais de diferentes tipologias. Foram, igualmente, identificados vestígios dos edifícios denominados por "Quartos", porventura associados ao aquartelamento de militares”, conta Paulo Amaral. O mesmo admite que, dado o estado de ruína do castelo, as intervenções não poderiam ser tão a fundo como noutros locais.

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Ruínas do Castelo de Outeiro. Foto: DRCN

 

No Castelo de Miranda do Douro a escavação arqueológica permitiu encontrar várias estruturas defensivas medievais e modernas, "subjacentes a aterros posteriores ao rebentamento do paiol de pólvora em 1762. Refira-se que, delineada entre a barbacã e a muralha medieval, se registou uma calçada medieval/moderna de acesso à vila", salienta.

Foi identificada, mais próximo do castelo, a muralha secundária erguida no reinado de D. Dinis. A sul da Muralha Medieval está “uma estrutura de época Moderna, interpretada como Bancada de Tiro, apresentando pequenos orifícios de 20cmx20cm, em espaçamentos de 3,25m em 3,25m, tendo como possível função o disparo de armas de fogo”, acrescentou.

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Interior do Castelo de Miranda do Douro. Foto: DRCN

No Castelo de Montalegre, foi “incluído um adequado acolhimento do visitante ao monumento, com espaços de receção, de controle de acessos e de interpretação, proporcionando um serviço qualificado de fruição através de um circuito de visita ao monumento, recuperando espaços anteriormente não acessíveis e revelando, através da musealização das Torres, a longa diacronia desta estrutura defensiva de fronteira, até à data insuficientemente divulgada.

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Vista aérea do Castelo de Montalegre. Foto: DRCN

Conta Paulo Amaral que, no Castelo de Monforte, foi necessário realizar uma limpeza da vegetação, para permitir os levantamentos topográficos, arquitetónicos e fotográficos do monumento, bem como para permitir um acesso condigno aos visitantes. De seguida, fez-se um "levantamento das várias estruturas que compõem o monumento, uma Intervenção Arqueológica, relativa a sondagens prévias para salvaguarda da sensibilidade arqueológica no interior da Praça de Armas e o subsequente acompanhamento arqueológico da empreitada de restauro da muralha, requalificando o setor poente da muralha, assim como dotar a Torre de Menagem de acesso vertical".

Em Mogadouro "foi realizada uma Intervenção Arqueológica, referente ao acompanhamento arqueológico da empreitada de reconstrução da muralha, e a uma Empreitada de Reabilitação da Muralha Sul, na qual se realizou consolidação de trecho em ruína no setor sul das muralhas", sendo o castelo com menos intervenção.

Impacto da operação para os municípios

A localização, em zonas predominantemente rurais, destes castelos ganha importância como elemento agregador e de diferenciação, contribuindo para o aumento da capacidade de atração turística da área, refere Paulo Amaral. Estes servem de dinamizadores das áreas, especialmente ao nível do turismo, colocando o território no mapa, juntamente com outros pontos de interesse que saltem mais depressa à vista nas primeiras pesquisas de atrações nos diversos locais.

"Também por essas caraterísticas de dispersão na região e em locais quase sempre longe dos grandes centros urbanos, mas próximos de áreas de grande relevância do ponto de vista do património natural, é possível articular os seus principais ativos e recursos, com o património natural existente nestas regiões, nomeadamente o Parque Nacional da Peneda Gerês, o Parque Natural de Montesinho e o Parque Natural do Douro Internacional (…) é possível programar e promover uma visita global a estes recursos patrimoniais em 2 a 3 dias ou realizar visitas mais direcionadas, tendo como base um dos principais centros urbanos da região (Montalegre, Chaves, Bragança, Mogadouro ou Miranda do Douro)" , acrescenta.

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Interior do Castelo de Montalegre. Foto: DRCN

"A forte ligação emocional e identitária das populações locais a cada um dos castelos geram, sempre, grandes expectativas quanto às intervenções nos monumentos. Por interesse, e também natural curiosidade, as populações foram acompanhando, de perto, o desenvolvimento das intervenções e manifestando a sua satisfação, não só pela sua recuperação, mas também pela promoção que a imagem renovada dos monumentos proporcionaria às localidades em que estes se implantam", completa.

A Direção Regional de Cultura do Norte está focada, neste momento, no PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), que tem prazos apertados. Paulo Amaral explica que se tratam de intervenções de salvaguarda imediata. A Direção irá ainda esperar pelo Portugal 2030 para avançar para outros projetos, de todas as tipologias de monumentos.

Foto de capa: Castelo de Mogadouro/DRCN

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