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Nobel: Peter Handke, polémico e inovador, para quem "não escrever é muito importante"

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Porto Canal com Lusa

Lisboa, 10 out 2019 (Lusa) - Romancista, dramaturgo, poeta, realizador, o escritor austríaco Peter Handke, que venceu hoje o Nobel da Literatura 2019, chegou a definir-se como um prosador para quem "não escrever é muito importante".

Nascido em 1942 em Griffen, na Áustria, Peter Handke é apresentado pela Academia Sueca como "um dos mais influentes escritores da Europa depois da Segunda Guerra Mundial", não isento de polémica, por ter tido uma postura pró-Sérvia na guerra dos Balcãs, nos anos 1990.

Handke cresceu com a mãe, de minoria eslovena, e com o padrasto, tendo conhecido o pai biológico - um militar alemão - só na idade adulta.

Estudou Direito, mas abandonou o curso quando publicou o primeiro romance, "Die Hornissen" ("As vespas"), aos 22 anos, em 1966, ao qual se seguiu a peça "Offending the audience" (""Insulto ao público", 1969). Com ambos "marcou uma posição no panorama literário", escreve a Academia Sueca.

Em 1995, meses depois do massacre de Srebrenica, Peter Handke publicou um livro controverso que regista a viagem à região, intitulado "Voyage hivernal vers le Danube, la Save, la Morava et la Drina" ("Viagem de Inverno aos rios Danúbio, Save, Morava e Drina", em tradução livre), e em 2006 esteve presente no funeral do ex-presidente jugoslavo Slobodan Milosevic, acusado de genocídio.

Peter Handke vive, que desde a década de 1990, em Chaville, perto de Paris, escreveu prosa, poesia, ensaio, teatro, argumentos para cinema, e a obra é marcada por um "forte desejo de descobrir e dar vida a essas descobertas através de novas expressões literárias", lê-se na biografia divulgada pela academia.

Numa entrevista à agência Lusa em 2009, quando esteve em Portugal a convite do Estoril Film Festival, Peter Handke apresentava-se, na altura, como um "escritor de prosa" que escreveu poesia quando era jovem e que gostaria de voltar a escrevê-la.

O autor, atualmente com 76 anos e que tem mais de uma dezena de obras publicadas em Portugal, entre as quais "A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty", "A Mulher Canhota" e "Poema à Duração", afirmava ser um "feliz prisioneiro da literatura" e admitia que era "normal não escrever absolutamente nada durante meses e meses".

"Não escrever é muito importante para mim", sublinhou na mesma entrevista à agência Lusa.

"Não fico nada infeliz quando não estou a escrever. Mas escrever pode tornar-se uma necessidade. Quando não faço nada durante meses, a vida perde o sentido para mim. E então tento encontrar algum tipo de luz ou de escuridão, escrevendo. É uma forma de expedição: como um explorador que inicia uma viagem para ir ao centro de África, eu vou ao centro de mim mesmo. É como que uma viagem interior", descreveu.

Peter Handke tem uma forte ligação ao cinema, como realizador de quatro filmes e como argumentista, em colaboração, por exemplo, com Wim Wenders.

É dele a história de "Movimento em falso" (1975), "As Asas do Desejo" (1987) e "Os Belos Dias de Aranjuez" (2016), deste cineasta alemão.

Este último texto tinha já sido encenado em 2014 em Portugal por Tiago Guedes, altura em que a tradução também chegou às livrarias portuguesas.

Em 2009 em entrevista à agência Lusa, Peter Handke dizia que a literatura tem sido toda a sua vida. "Interrogo-me sobre se a literatura me tornou uma pessoa melhor... Um pouco melhor, não muito, mas um bocadinho. É suficiente, talvez", disse.

Observando que é míope por ter lido muito, o escritor defendeu que "qualquer autor que escreva um livro, mesmo um livro pequeno, mesmo uma só página que nos abra o mundo, é um bom escritor".

Sobre literatura portuguesa mencionou Fernando Pessoa. Quanto a prosadores, acrescentou: "Tentei ler Saramago e Lobo Antunes mas não cheguei a acabar. Saramago parece-me muito inteligente, demasiado inteligente para mim. Existe um raciocínio por detrás do seu olhar... Para mim, ele não é suficientemente inocente".

Autor reconhecido e premiado, Handke considera que a melhor recompensa que um escritor pode ter é "uma recompensa pequena, uma recompensa [a uma escala] regional, de pessoas que conseguem realmente ler a língua do país de que ele é originário, dos seus verdadeiros leitores".

"Eu não sou uma boa pessoa para prémios, gosto de prémios para os outros, disso gosto. Mas sinto-me muito estranho, não é bom para mim. Eu gosto quando um leitor me escreve uma carta. Esse é que é o meu tipo de recompensa".

"Uma Breve Carta para Um Longo Adeus", "A Tarde de Um Escritor", "Para Uma Abordagem da Fadiga", "As Vespas", "Insulto ao Público", "A Hora em que Não Sabíamos Nada Uns dos Outros", "A Viagem à Terra Sonora", "Ensaio sobre o Dia Conseguido", "Os Insensatos Estão a Extinguir-se" e "Numa Noite Escura Saí da Minha Casa Silenciosa" são outras obras de Handke editadas em Portugal, desde a década de 1970.

Teatro da Cornucópia ("Jogo das Perguntas", 1994) e Grupo 4, na origem do atual Teatro Aberto ("Insulto ao público", 1974) estão entre as companhias que levaram Peter Handke a palcos portugueses

Sobre o Nobel da Literatura, escreve a agência France Presse, que Peter Handke considerava representar uma "falsa canonização" que "nada acrescenta ao leitor".

SS/(ANC) // MAG

Lusa/fim

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